DENTROD´ARTE

Apresentação

Lançado em 3 de junho de 2005, o DENTROD´ARTE é destinado à divulgação de textos de autores ainda não muito conhecidos do grande público. É um blog para os amantes da arte feita com palavras, imagens e, principalmente, com o coração. DENTROD´ARTE porque as ebulições da arte nascem dentro d’alma! CONTATOS: dentrodarte@yahoo.com.br


Links

» Inicial
» Dados
» Arquivos do blog

Blogs Amigos

» Canastra da Emília

Esperança, mais do que otimismo

Roberto D’arte

 

Às vezes me pego assustado com o crescente número de pessoas que se declaram vítimas da depressão. Ao que tudo indica este é um dos piores males deste novo milênio.

Se antes era uma doença peculiar da vida adulta, agora ela também afeta crianças e adolescentes. Estes ainda sequer têm estrutura emocional para entender a dimensão dessa espécie de buraco negro, que parece sugar todas as manifestações de vida e luz que dão sentido à existência humana.

Qualquer um está passível de ter depressão. Quem já não acordou com aquela incômoda sensação de que falta alguma coisa para dar sentido à vida? Algo como um vazio que conteúdo algum disponível à mão é capaz de preencher.

Pode até parecer exagero ou um despropósito descrever ou visualizar tal estado de espírito, mas que ele existe, existe. Talvez esse vazio – repentino ou duradouro – possa significar algum aviso de que estamos precisando de uma pausa para nos perceber melhor. Ou pode até ser, quem sabe, como aquele fio solto da roupa que, puxado pouco a pouco, a desfaz inteira.

Nem sempre as pessoas dão crédito aos sinais que apontam a chegada de um estado depressivo. Nem as que os sentem nem seus familiares e amigos. É justamente aí que reside o erro. A depressão pode deixar seqüelas ou mesmo levar à morte.

Mesmo não sendo um especialista capaz de diagnosticar tal doença, tenho convicção de que normalmente uma pessoa deprimida apresenta como principal sintoma a desesperança. E falta de esperança é o mesmo que falta de projetos para o futuro, que, por sua vez, deixa o presente vazio de sentido.

Para alguém em depressão um dia ensolarado chega a ser uma afronta. Nesse estado a luz interior se encontra apagada e qualquer claridade maior ofusca os olhos d’alma, já imersos na escuridão. Não é à toa que se costuma dizer que uma pessoa assim chegou ao fundo do poço. Para quem se deixa dominar por essa doença continuar na superfície já é se expor demais.

O educador e psicanalista Rubem Alves, numa de suas ótimas crônicas, faz uma diferenciação entre otimismo e esperança – dois grandes antídotos para a depressão. Ele tenta mostrar que, mesmo parecendo sinônimos, esperança é o oposto do otimismo. “Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração”, definiu.

Ele diz ainda que o otimismo tem suas raízes no tempo, enquanto a esperança tem suas raízes na eternidade. Que o otimismo se alimenta de grandes coisas; já a esperança se alimenta de pequenas coisas. “Nas pequenas coisas ela floresce. Basta-lhe um morango à beira do abismo”, ressaltou o escritor mineiro.

Se é possível encontrar diferenças tão significativas entre otimismo e esperança, o que dizer das diferenças entre apatia e otimismo, vazio e esperança? Talvez o primeiro passo para quem já esteja à beira do abismo ou mesmo no fundo dele seja olhar para o lado à procura de um morango, ao menos.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 03 de agosto de 2007)


Posted: 10:26 AM, Aug. 17, 2007
Link

Pequenos pedaços de felicidade

Roberto D’arte

 

            Definir felicidade não é tarefa das mais fáceis. Numa reportagem recente, exibida na TV, várias pessoas foram perguntadas sobre suas definições de felicidade. Como foram abordadas na rua de forma inesperada, quase todas precisaram de algum tempo para pensar, e terminaram respondendo algo em torno do dinheiro e de bens materiais.

            Na música “Pão e Poesia” o cantor e compositor baiano Moraes Moreira deu a sua versão para o tema: “felicidade é uma cidade pequenina, é uma casinha, uma colina, qualquer lugar que se ilumina quando a gente quer amar”. Uma visão bucólica que pouco tem a ver com a felicidade que muitos perseguem nestes tempos de tecnologias sedutoras e de alegrias fugidias.

            Mergulhando nas imagens que essa música sugere, vou direto à minha infância, na década de 1970. Ela foi privada de praticamente todas as aquisições tecnológicas que o Brasil já havia conquistado naquela época e que podem ser consideradas ultrapassadas, se comparadas com o que temos hoje.

            A verdade é que até 1982 a minha cidade cidade natal (Boa Nova-BA) não possuía nem energia elétrica em horário integral (apenas das 18 horas às 23h30min, com a ajuda de uma usina termoelétrica) nem telefone. Fora isso, os l6 quilômetros que a separam da rodovia BR 116 (a Rio-Bahia) não eram asfaltados; e havia poucos carros e TVs (valvuladas e em preto e branco).

            Pensando naquilo tudo com a bagagem que tenho hoje, ao 37 anos, diria que a felicidade estava bem mais ao alcance das mãos. Claro que não estou fazendo aqui uma comparação direta, uma vez que os tempos são outros e também porque a minha atual visão de mundo é muitíssimo mais ampla do que na infância. Penso apenas que lugares como aquele, se ainda resistiram incólumes, têm bem mais chance de abrigar a felicidade tão propagada pelos monges budistas: aquela advinda da quietude do espírito e da mente limpa do intenso tráfego de pensamentos.

            Há momentos em que me sinto sufocado pelo tempo em que vivo. Às vezes acho que isso é fruto do fantasma da nostalgia, que, cedo ou tarde, aparece para qualquer adulto pós-trinta. Noutras, acho que tem a ver com uma sensação de que realmente a vida antes era muito mais confortável, mesmo sem todas as tecnologias que nos tomam de assalto e, como um vício, nos tornam dependentes.

            É natural que as crianças e os adolescentes dos dias atuais vejam na tecnologia suas principais referências de lazer e conhecimento. O problema é como fazem para tirar disso os aprendizados capazes de torná-los pessoas melhores em todos os sentidos; como fazem para desvincular a felicidade de suas aquisições tecnológicas e materiais.

            Sinto (mais do que penso sobre...) que ser feliz está bem mais ligado à atenção que damos aos pequenos fragmentos de vida com os quais nos deparamos o tempo todo: um jantar a dois no sábado à noite; a companhia dos amigos para troca de planos e de boas risadas; o deleite de um bom filme; a leitura daquele livro que compramos, mas ainda não tivemos tempo de ler; uma viagem ao encontro do mar, das montanhas, da história...

            Estou falando dos pequenos pedaços de felicidade, conquistados e lapidados tão-somente pela vida simples que realmente podemos escolher; por valores que jamais poderão ser comprados ou calculados em percentagem. Para se ter felicidade não é preciso de badalações, prêmios de reconhecimento social ou bens que impressionam os olhos. Ser feliz é muito mais fácil no anonimato, na simplicidade e no silêncio.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 29 de junho de 2007)


Posted: 04:39 PM, Jul. 6, 2007
Link

A guerra e a fome

Roberto D´arte

 

Por mais que a lógica do lucro e do poder explique praticamente todas as aberrações sociais cometidas pelos seres humanos, ela continua ilógica na visão de sábio autêntico. Um relatório recente divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas) ressalta que o número de vítimas da desnutrição grave e permanente aumentou em 12 milhões em apenas um ano, passando de 842 milhões em 2005 para 854 milhões de pessoas em 2006. Isso representa um em cada seis habitantes do planeta.

Ainda segundo fontes da ONU, no ano passado a fome matou uma criança menor de dez anos a cada cinco segundos no mundo; e a cada quatro minutos uma pessoa perdeu a vista por falta de vitamina A. O contra-senso disso está no fato de que a Terra, de acordo com cálculos de especialistas da mesma organização, tem potencial para alimentar com 2.700 calorias diárias 12 bilhões de pessoas, quase o dobro da população mundial.

Enquanto a ONU divulgava um relatório com números tão chocantes, o Instituto de Pesquisa de Paz Internacional de Estocolmo (Sipri) mencionava em seu relatório anual que em 2006 o mundo gastou por ano 1,2 trilhão de dólares (cerca de 2,4 trilhões de reais) com guerras. Uma elevação de 3,5% nos gastos militares do planeta, em comparação com o ano anterior.

Segundo esse relatório, somente os Estados Unidos foram responsáveis por quase a metade de todo o dinheiro dedicado por governos a armas em 2006, gastando 529 bilhões de dólares (cerca de 1,3 trilhão de reais) – um crescimento de 4,75% (acima da média mundial). Por outro lado, o Programa Mundial de Alimentação do Departamento de Estado norte-americano – a maior agência assistencial do mundo – possui um orçamento anual de 3 bilhões de dólares (aproximadamente 6 bilhões de reais). Dinheiro que, em tese, é usado para combater a fome em várias partes do mundo.

Antes que o texto vire um emaranhado de números e cifras, justifico a citação dos dados anteriores como uma prova cabal da insensatez dos mandatários do planeta. Não é preciso ser economista para afirmar que 1,2 trilhão de dólares por ano não somente daria para acabar com a fome das 854 milhões de pessoas que dela são vítimas, como acabaria com todos os demais itens que compõem o estado de miséria em que vivem outros tantos milhões.

Talvez alguma mente insana tente justificar a indústria da guerra como uma impulsionadora de milhões de empregos diretos e indiretos em todos os continentes. Ainda assim a idéia fugirá de toda lógica plausível a quem pense no destino da raça humana. É óbvio que quaisquer indústrias voltadas para a construção das reais melhorias de vida das sociedades e do meio ambiente serão muito mais bem sucedidas e aceitas pela maioria.

As guerras alimentam poucas bocas, ávidas por devorar tudo o que encontram pela frente. A fome, ao contrário, mata um “exército” de inocentes, incapazes de levantar um só dedo contra tamanho genocídio. Por mais conhecimento e tecnologias que a humanidade ostente como prova de sua civilização, o estado primitivo de seu espírito coletivo delata o real estágio evolutivo em que se encontra.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 22 de junho de 2007)

 


Posted: 02:53 PM, Jun. 29, 2007
Link

Antídoto para o pior veneno

Roberto D’arte

 

O ser humano, que se vangloria de ter atingido o ponto mais alto na evolução das espécies, conseguiu produzir o seu pior veneno: o ódio. Nada pode ser mais letal do que um sentimento capaz criar outros tantos não menos negativos, como a cobiça, a inveja e a prepotência. O ódio cega, mata e consegue forjar doenças no corpo, na mente e no espírito.

Esse veneno, quando destilado, encontra na boca uma de suas principais portas de saída. Mentiras, boatos e maledicências são apenas alguns dos formatos de um ódio nem sempre acompanhado de sua mais fiel companheira – a ira. Há os que odeiam com frieza calculada; os que maquinam planos para fazer nascer e espalhar as desavenças; os que trapaceiam para ver a derrocada do próximo...

Uma passagem bíblica do Novo Testamento ressalta que “o que contamina o homem não é o que entra, mas o que sai da boca”. Esta frase, inclusive, inspirou a música “O mal é o que sai da boca do homem”, sucesso da banda Novos Baianos, numa autoria de Baby Consuelo, Galvão e Pepeu Gomes. O que as pessoas falam nem sempre traduz o que sentem ou pensam; pode ter invólucro de mel e conteúdo de puro fel.

Ninguém escapa de ser vítima desse mal. Em casa, na escola, no clube, na igreja, no trabalho e na rua; não há lugar que esteja isento dele. É possível que existam demônios que afrontem tudo de belo e grandioso na obra divina; é possível até que eles possam ser responsabilizados por esse mal ou confundidos com ele. Mas a força para negá-lo cabe a cada um acionar em si, não importando por qual via.

Uma dessas vias foi apresentada pela escritora norte-americana Eleanor Hodman Porter, que em 1912 lançou a novela “Pollyanna”. O título é uma referência ao nome da personagem principal – uma menina órfã de mãe que inventou um artifício (o “Jogo do Contente”) para continuar tendo esperança, entusiasmo e otimismo na vida.

O jogo nasceu depois que Pollyanna pediu de Natal uma boneca que desejava há muito tempo, e em seu lugar recebeu (por engano) um par de muletas. Quando a menina começou a chorar pelo infortúnio, seu pai a consolou dizendo que ela deveria ficar contente exatamente por constatar que não precisava daquele presente. A personagem ficou famosa no mundo inteiro e o Jogo do Contente ganhou milhões de adeptos e também um número semelhante de críticos ferrenhos. Estes últimos costumam dizer que Pollyanna incentiva as pessoas a terem uma visão comodista e ingênua do mundo.

Eu li a obra no início da adolescência e confesso ter feito parte do time dos que jogam pedras na teoria que sustenta o tal jogo. Certamente na minha adolescência – fase em que os pensamentos arrogantes se voltam contra tudo e todos – eu não conseguia entender bem que a estratégia de Pollyanna tem base no dizer não ao ódio e a tudo que dele advém. O Jogo do Contente é uma negação do mal que sai da boca. Mais até: é a tentativa de produzir um antídoto para este veneno.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 1o de junho de 2007)

 


Posted: 10:10 AM, Jun. 8, 2007
Link

A N O   N O V O

O DENTROD´ARTE acaba de comemorar seu aniversário de 2 ANOS. Apesar da minha falta de tempo em manter este espaço mais atualizado, sinto-me feliz em mantê-lo na ativa.

Neste ANO NOVO pretendo ampliar o alcance do blog, trazendo mais textos, mais imagens, mais autores.

Obrigado a você pela visita, pela força.

Abraço,

Roberto D´arte 


Posted: 01:23 PM, Jun. 4, 2007
Link

O mapa certo

Roberto D´arte

 

Entre as mensagens proferidas pelo papa Bento 16, durante os cinco dias em que esteve no Brasil, algumas delas frisaram bem três palavras de significados profundos e atemporais. Em diversos contextos ele ressaltou a necessidade de se manter acesas as chamas do amor, da família e da vida.

Sem entrar no mérito se os seus discursos foram conservadores ou não, moralistas ou não, a mim vale mais o valor universal dos conceitos de amor, família e vida. Algo que extrapola línguas e culturas, que traz à tona ensinamentos elementares já propagados há muito tempo por Jesus Cristo e por outros espíritos elevados que por aqui passaram, a exemplo de Siddharta Gautama (Buda) e Mahatma Gandhi.

Se temos amor em nossos pensamentos, sentimentos e atos (algo próximo do altruísmo e distante do egocentrismo) certamente saberemos entender e valorizar a família e a vida em todas as suas formas. A vida é a dádiva divina; o amor, seu combustível; e a família, o ponto de sustentação e equilíbrio para levar adiante os dois primeiros.

Vivemos tempos difíceis na Terra. Não sei se mais ou menos algum tempo de outrora, mas essencialmente uma época diferente, em que tudo salta aos olhos com rapidez e intensidade; em que todos parecem confusos quanto ao melhor caminho a seguir. 

Recentemente, numa palestra proferida para alunos da Faculdade de Viçosa (FDV), Luiz Cláudio Costa – professor do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa (UFV), lembrou que o ser humano tem em sua essência o impulso de buscar a felicidade. Numa vertente mais espiritualista, como lhe é peculiar, Luiz Cláudio enfatizou que os inúmeros desencontros e equívocos que ocorrem nessa busca se dão pela escolha do mapa errado. Ou seja, para se chegar à própria felicidade se escolhem os mapas do individualismo, da ganância, do materialismo e mesmo do ódio. O meio ambiente era o foco principal de sua abordagem.

Inúmeras são as vezes em que somos impelidos a seguir por caminhos que nos levem a conquistas e a prazeres considerados indispensáveis, nos guiando por mapas que nos fazem passar por cima das conquistas e dos prazeres do outro. Quantas guerras são feitas em nome da paz? Quantas pessoas arruinadas em nome dos lucros de outras tantas?

Nunca é tarde para descobrirmos os mapas dos tesouros que realmente valem a pena ser procurados. Por enquanto, a maioria de nós continua, como os piratas do passado e do presente, em busca do mapa do ouro reluzente. Todas ou quase todas as causas das misérias do mundo estão direta ou indiretamente ligadas ao dinheiro, ao poder que ele proporciona.

Há bem pouco tempo, introduzindo um texto sobre corrupção, perguntei a meus alunos se eles acreditavam na teoria de que cada pessoa tem seu preço. Após um relativo tempo de silêncio, os que se manifestaram foram taxativos em dizer que sim. Afinal, o que diferencia o suborno ao porteiro de uma festa que se deseja entrar sem ser convidado do suborno a um desembargador por uma sentença favorável é o valor pago a cada um.

Se em sua passagem pelo Brasil o papa conseguiu fazer as pessoas refletirem sobre valores nobres como o amor, a família e a vida, ele fez um bem enorme. Juntos, os três compõem o principal mapa, capaz de nos levar ao rumo certo: o da paz interior e da verdadeira evolução espiritual – os únicos que permitirão chegarmos ao futuro.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, em 18 de maio de 2007)

 


Posted: 10:21 AM, May. 18, 2007
Link

“Butecoterapia”

Roberto D´arte

 

        Segundo o psicanalista Adam Phillips, “a ex­periência de falar e ser ouvido é muito poderosa e tem definitivamente efeito benéfico”. Considerado um dos profissionais mais influentes da Inglaterra e res­ponsável pela segunda tradução do alemão para o inglês da obra de Freud, ele já chegou a declarar – para desespero de boa parte de seus colegas – que “num mundo ideal ninguém pre­cisaria de analista; o diálogo com os amigos daria conta do recado”.

       Para não causar desespero nos psicanalistas dos quatro cantos do mundo, Phillips completa seu raciocínio, dizendo que o problema do diálogo com os amigos é que normalmente as pessoas não têm a coragem de contar cer­tas coisas a eles. Sua fala, na verdade, é parte da defesa de uma proposta de tirar o “pai da psica­nálise” do domínio restrito dos profissionais e iniciados da área.

       Certa vez numa entrevista Adam Phillips chegou a dizer que ninguém deveria escolher a pro­fissão de psicanalista para enri­quecer, e que os preços das ses­sões deveriam ser baixos e o ser­viço, acessível. “Deve-se des­confiar de analistas caros. A psicanálise não pode ser me­dida pelo padrão consumista, do tipo ‘se um produto é caro, então é bom’. Todos precisam de um espaço para falar e re­fletir sobre sua vida”, ressaltou.

       Concordando com suas colocações, posso afirmar – pelo menos com base em minha própria experiência – que uma boa conversa com amigos numa mesa de bar tem forte poder terapêutico. Não que a mesa de bar seja uma prerrogativa para esse tipo de conversa, mas se o ambiente for saudável, assim como o consumo de bebida alcoólica, a ambientação informal e impessoal pode ajudar bastante no “jogo” do falar e do ouvir.

       Sinto-me privilegiado de fazer parte de um círculo de amizade cujos membros (a maioria, hoje, morando distante) tinham uma grande empatia em se ajudar, falando e ouvindo. Tenho plena convicção de que as centenas de horas gastas em bares (muitos deles butecos muito simples!), durante o final da minha adolescência e início da vida adulta, foram fundamentais para uma certa faxina mental cotidiana e para a sanidade psicológica e espiritual que acredito ter hoje. Amigos próximos já me disseram o mesmo sobre o que esse tipo de terapia informal provocou/provoca em suas vidas.

       Vale lembrar que na adoles­cência, em Salvador, eu e esse grupo de amigos tínhamos pouco espaço em nossas casas para as longas e li­vres conversas que achávamos tão necessárias nessa fase. Então, marcávamos presença nos nossos bares preferidos e ficá­vamos horas e horas conversando. Os temas eram os mais diversos, mas tínhamos uma pre­ferência em falar de nos­sas vidas, dos nossos problemas, dos projetos para o futuro.

       Nessas circunstâncias as cervejas, as caipi­rinhas e os tira-gostos nada mais eram do que parte do cenário que compõe qualquer buteco, assim como os garçons que se tornam quase cúmplices daqueles momentos ou os desconhecidos nas mesas ao redor, dos quais nunca consegui­mos decifrar os segredos.

       Claro que a psicanálise não é tão simples como uma conversa de bar. No entanto, não dá para negar que esta pode ser bastante terapêutica, principalmente quando vivencia­da com propósito, com a verda­de de quem deseja se abrir para falar também das angústias, dos recalques, dos fantasmas do passado.

    Não quero aqui desconsiderar a necessidade das terapias convencionais (que podem ser cruciais para muitos!) ou mesmo lançar alguma espécie de “butecoterapia”. Lembro apenas da força que tem uma boa conversa, construída a partir dos espíritos desarmados e da vontade de falar e ouvir com o coração.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 13 de abril de 2007)


Posted: 01:29 PM, Apr. 24, 2007
Link

Casas de areia

Roberto D´arte

 

Reforçando o chavão que diz que “a vida imita a arte”, vale acrescentar aí o vice-versa. Nesta troca altamente fértil entre ficção e realidade sempre há como se obterem aprendizagens profundas e, por que não dizer, vivências de espectador daquelas produções que mesclam elementos das mais variadas manifestações artísticas. Assim é o cinema, com sua linguagem absolutamente única, capaz de criar imagens tão fortes a ponto de tornar dispensáveis as palavras.

Na minha correria profissional dos últimos tempos, que tem me deixado defasado principalmente em relação às novidades do cinema, alguns títulos de meu interesse terminam sendo vistos com atrasos que chegam a dois anos. Foi o caso do filme nacional “Casa de Areia”, lançado em 2005, sob a direção de Andrucha Waddington e protagonizado por Fernanda Montenegro e sua filha Fernanda Torres.

A obra, que me remeteu ao livro “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marques, é uma referência à implacável transitoriedade da vida. A história, que se passa num longo intervalo de seis décadas, revela a fragilidade da existência humana, tal qual uma casa construída sobre um banco de areia.

A belíssima paisagem dos lençóis maranhenses é o cenário paradisíaco que emoldura a personagem Áurea (interpretada pelas duas Fernandas), que pode perfeitamente ser comparada às tantas pessoas de todos os tempos que se acomodaram e desistiram de perseguir seus sonhos. Os ventos que modelam as dunas simbolizam o inequívoco agir do tempo sobre tudo e todos.

Em muitas cenas busquei, naquele exercício catártico que a arte propõe, vislumbrar na minha própria trajetória as limitações identificadas em Áurea e nos demais integrantes daquele enredo. Olhar para trás, por menos recomendável que seja, é algo inerente à minha personalidade. Além de ser saudosista assumido, tenho veia de colecionador (no meu caso, não colecionador de objetos, mas daquilo que me remete a histórias de vida).

Em meio às reminiscências que me invadiram enquanto assistia ao filme, mesmo aquelas ligadas a momentos de tristeza, perda, incerteza e angústia me pareceram fundamentais. Isso chega a me dar um certo alívio, já que tenho consciência de que a maioria dos sofrimentos que vivi não foi causada pelo que deixei de realizar, e sim pelo que fiz, pelo que persegui em nome das minhas convicções.

Em Cem Anos de Solidão Gabriel Garcia Marques conta a saga da família Buendia – seu auge e decadência, num paralelo ao crescimento da cidade que praticamente fundou. Tanto nesta obra quanto no filme de Andrucha Waddington fica nas entrelinhas a mensagem que realmente merece ser digerida vagarosamente: em que consiste uma vida feliz, mesmo na fase em que ela tiver chegando ao seu derradeiro momento?

(publicado no Jornal  TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 30 de março de 2007)

 


Posted: 10:31 AM, Mar. 30, 2007
Link

Vida após vida

Roberto D´arte


Nunca fui adepto de bisbilhotar a vida alheia nos moldes dos fofoqueiros de plantão, que, por terem normalmente uma existência superficial ou vazia, elegem o outro como referência para tudo. No entanto, tenho que confessar que sempre adorei analisar personalidades a partir de flagrantes de conversas captadas sem intenção.

Um grande amigo do Rio Grande do Norte, que tem paixão pelas palavras e mais ainda pela possibilidade de “inventá-las”, conseguiu nomear essa curiosidade despretensiosa pelo pensamento alheio. Ele a chamou de “curejar”. Não sei de que cartola ele tirou esta palavra, mas desde então a uso na prática.

E foi numa viagem de ônibus que fiz há algum tempo pelo interior da Bahia que “curejei” a conversa de dois rapazes que sentavam logo atrás da poltrona onde eu estava. Pelo que pude deduzir, ambos eram estudantes universitários.

Num determinado momento, após debaterem sobre a situação política do país – estávamos no ano de eleições presidenciais (a que Lula foi eleito pela primeira vez), os rapazes entraram num assunto que deixou minha atenção bastante aguçada. Afinal, não é a todo momento que se ouve, numa viagem de ônibus, uma conversa sobre o pós-morte.

Um deles foi categórico ao dizer que não acreditava em vida depois desta vida. Pelos comentários acerca de sua leitura mais recente (ele se declarou entusiasmado com “O Capital”, de Karl Marx, que havia ganho de presente de um companheiro de partido), imaginei que se o rapaz teve um dia alguma religião, estava no auge do rompimento com ela.

O outro, assumidamente católico, contestou o posicionamento do colega e ressaltou que não fazia sentido tudo terminar nesta existência; que Deus não havia nos criado para viver apenas uma temporada. “Quando você morrer vai ficar decepcionado ao descobrir que não existe mais nada”, retrucou o primeiro, em tom de zombaria e com um certo ar de superioridade.

Naquele momento me segurei para não rir e para não me intrometer no já acalorado debate. Quase saí da minha condição de mero “curejador”. Percebi que o aprendiz de “comunista” não se deu conta do que tinha acabado de falar, na ânsia de fazer valer o seu ponto de vista. Ele se esqueceu de pensar que se não houver vida após a morte também não haverá alguém para constatar esse nada, muito menos para se decepcionar com tamanho vazio.

A conversa dos dois jovens – com muitas idéias ainda em formação e em conflito – me fez perceber o quanto continua intrigante o maior mistério da vida: a morte. Como para mim não há sentido pensar na hipótese de não haver outra forma de existência após esta passagem pela Terra (afinal, se houver apenas o nada, não haverá nada o que se possa fazer), me concentro em viver sob a tese da imortalidade da alma.

Nessa teoria o mistério continua, mas somente enquanto o tipo de vida que virá. A própria odisséia terrena, sob essa ótica, ganha um brilho esfuziante. Para os que acham que o desfecho de tudo se dá aqui, o saldo é bastante negativo, principalmente na balança que pesa a felicidade. Ao contrário, os que crêem na continuidade da estrada saberão que até as quedas que tiveram contarão para o balanço positivo.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 9 de março de 2007)

Posted: 08:45 AM, Mar. 16, 2007
Link

Dívida com o passado

Roberto D´arte

 

Bem mais do que outros povos ocidentais, nós, brasileiros, temos pouca relação com o passado. Gerações a fio cresceram (e ainda crescem) ouvindo que o Brasil é o país do futuro. Aparentemente inofensiva, esta máxima termina incutindo em cada um a falsa impressão de que o novo é sempre melhor, em todos os sentidos.

Prova disso é a ínfima relação que temos – individual e coletivamente – com o tempo que se foi, com os que se foram. São raras as famílias que têm interesse em pesquisar suas árvores genealógicas. Em conseqüência disso, bem poucas pessoas têm a oportunidade de conhecer as próprias origens – tão importantes nas trilhas que levam ao auto-conhecimento, a informações preciosas sobre os mais próximos.

Quanto ao nosso envolvimento com a história do país, basta analisarmos os inúmeros casos de destruição ou abandono de documentos e bens móveis e imóveis. Até mesmo as cidades turísticas, de reconhecido valor histórico, como Ouro Preto e Mariana, foram descaracterizadas ao longo do tempo.

Exemplo desse descaso é o que está ocorrendo em Anchieta, município capixaba que tem nas belas praias e no Santuário do Beato Padre Anchieta os seus principais apelos turísticos. Há cerca de seis anos foi “descoberto” numa área pertencente à mineradora Samarco um sítio arqueológico com ruínas jesuítas, datado da segunda metade do século 16. Ainda um enigma para os próprios pesquisadores que já foram ao local, as chamadas Ruínas do Rio Salinas possuem mais de trinta colunas redondas e quadradas, numa construção de pedra e argamassa, com uma fundação profunda que mal foi investigada. Supõe-se que tenha sido uma antiga salina clandestina, próxima a um cemitério indígena.

Na semana passada estive lá num passeio de barco pelas águas calmas dos rios Benevente e Salinas – com direito a passar por manguezais e por uma área de proteção ambiental, onde podem ser vistas milhares de garças – um belo espetáculo da natureza! O pescador que servia de guia em seu próprio barco contou que assim que foram surgindo histórias sobre possíveis tesouros escondidos nas ruínas, o local começou a ser visitado por aventureiros e vândalos. Houve quem cavasse buracos e até mesmo um pescador chegou ao cúmulo de quebrar duas colunas, alegando ter sonhado que havia ouro dentro delas. Sem contar uma imensa jaqueira antiga que foi cortada e queimada simplesmente porque alguém ouviu a história de que os jesuítas costumavam enterrar seus tesouros próximos às árvores mais frondosas.

Embora não seja uma regra, de uma forma geral o povo e os políticos brasileiros lidam com o passado como esses aventureiros lidam com as ruínas jesuítas de Anchieta. Nossos idosos, ao contrário dos que vivem em certos países do Oriente, são relegados a último plano ou tratados como fardos para o Estado e para suas próprias famílias. Como ser uma nação do futuro tratando seus filhos mais sábios deste jeito? Simplesmente impossível!

Temos, enquanto indivíduos e entes coletivos, uma dívida enorme com o passado. Uma dívida social, uma dívida moral, uma dívida afetiva. Peço a Deus todos os dias sabedoria e discernimento para encontrar pelo menos em mim o fio condutor que me leve aos meus antepassados, aos antepassados de todos os índios, brancos, negros e demais raças que deram ao Brasil a sua essência. Sem esta identidade somos apenas andarilhos com amnésia e sem rumo.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 9 de fevereiro de 2007)




Posted: 12:52 PM, Feb. 16, 2007
Link

Donos da Terra e da Lua

Roberto D´arte


Está mais do que provado que é infinita a capacidade do ser humano de se superar em termos de irracionalidade. Como se não bastassem todas as suas ações que desembocam na degradação do próprio planeta em que vive, o que o tornará inóspito para as próximas gerações daqui a bem pouco tempo, ele não pára e quer mais.

Recentemente vi a seguinte manchete estampada nos principais sites de notícia do país: “israelenses já compraram 10% do território da Lua”. O conteúdo, tirado de uma reportagem publicada pelo Jerusalem Post, menciona que cerca de dez mil israelenses já compraram lotes de terra na superfície lunar ao preço de 47 euros (mais de 130 reais) por meio hectare (5 mil metros quadrados). Ao todo, ainda de acordo com o jornal israelense, foram adquiridos 10% dos cerca de 40 milhões de km2 da superfície lunar disponíveis para a venda a civis.

Por fim, a matéria ressalta que os compradores israelenses argumentaram que estão adquirindo terrenos para seus netos. Esse tipo de compra se tornou legal em 2000 e cresce a cada ano, fazendo com que o preço dos lotes na Lua suba com o desenvolvimento dos programas espaciais norte-americanos.

Enquanto isso, cá na Terra, segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas) de 2005, mais de um bilhão de pessoas no mundo vivem com menos de 1 dólar (pouco mais de 2 reais) por dia; 11 milhões de crianças morrem a cada ano de doenças que poderiam ter sido evitadas (a cada quatro minutos uma criança fica cega por falta de vitamina A e a cada sete segundos uma morre devido à desnutrição); 840 milhões de pessoas vivem com fome crônica (100 mil morrem todos os dias por este motivo) e outro bilhão não tem acesso à água potável.

A irracionalidade não termina aí: os israelenses que querem construir colônias de férias fora da Terra fazem parte do 0,1% da população mundial que possui 54% de toda riqueza produzida no planeta. É realmente impossível alguém ser feliz num mundo com tamanha desigualdade.

Essa discrepância é tão irracional que motivou a produção de um documento da ONU de três mil páginas (encadernadas em 13 livros) – batizado de “Metas do Milênio”. Ele não só assegura ser possível extinguir a miséria no mundo, como aponta as soluções para isso. A primeira delas destaca que se os países ricos cumprissem a promessa de investir 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em ajuda ao desenvolvimento – percentual este definido num acordo firmado em 1970, mais de 500 milhões de pessoas poderiam sair da miséria e dezenas de milhares escapariam da morte já na próxima década. Por exemplo, ações simples como colocar mosquiteiros na cama de crianças bastariam para salvar a vida de milhares delas que vão morrer por causa da malária na África e na Ásia.

Os relatórios da Organização das Nações Unidas informam que apenas cinco dos 22 países mais ricos estão aplicando 0,7% do PIB em ajuda às nações mais pobres: Dinamarca, Luxemburgo, Noruega, Holanda e Suécia. Outros seis – Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Grã-Bretanha e Irlanda – se comprometeram a alcançar esta meta em 2015. Por outro lado, Japão, Estados Unidos e Alemanha estão longe de investir o prometido. Apesar de serem os mais ricos do mundo, os norte-americanos só investem 0,15% de seu PIB em ajuda aos pobres.

Quanto aos países de renda média, como Brasil, China, Malásia, México e África do Sul, a ONU garante que eles têm condições de acabar sozinhos com seus bolsões de miséria e ainda podem ajudar Ásia e África. Por que não acabam? Nós, brasileiros, sabemos muito bem os principais motivos das nossas mazelas sociais...

Tomara não seja tarde demais para entendermos que a miséria alheia em algum momento da vida representará a derrocada de todos. Nesse ponto da história riqueza alguma fará a diferença, nem para os que estiverem na Lua.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 12 de janeiro de 2007)



Posted: 10:38 AM, Jan. 12, 2007
Link

Casamentos, crises e soluções

Roberto D´arte


Há algum tempo, em uma entrevista à revista Veja, o ator Will Smith fez uma análise curta e direta sobre o relacionamento a dois, dizendo-se “um estudioso da interação entre homens e mulheres”. Apesar do seu tom jocoso, ele resumiu muito bem um tipo de casamento vivido por milhares de pessoas mundo afora.

“Dedicamos quarenta, sessenta ou até oitenta horas por semana ao trabalho, porque isso é necessário para fazê-lo bem feito. De onde tiramos a idéia de que bastam vinte minutos de atenção a um relacionamento, encaixados no meio de todas as nossas outras obrigações, para que ele seja bem-sucedido? Se passássemos só meia hora por semana no emprego, seríamos demitidos. E isso é o que acontece com muitos casamentos: faltamos ao trabalho e perdemos o emprego."

Muitos relacionamentos acabam por pura incompetência dos casais. Leia-se incompetência a capacidade de administrar bem o cotidiano do namoro, do casamento, que envolve todo tipo de rotina. Ao contrário do que muitos possam pensar, a rotina só é ruim se seu conteúdo for ruim. Há rotinas maravilhosas que merecem ser mantidas como tais exatamente por trazerem bem estar e felicidade.

Como este é um tema amplo, profundo e um tanto polêmico, resolvi garimpar opiniões num espaço que gosto muito, mas que não visitava há algum tempo devido aos muitos afazeres profissionais dos últimos meses. No fórum de debates da comunidade orkuteana “Café Filosófico ´Das Quatro´” tem sempre em pauta algum tópico interessante.

Num deles – intitulado “Casamento em crise? Por que tantas separações?” – homens e mulheres de idades variadas deixaram alguns pontos interessantes para reflexão. Alguns compartilham da opinião de que o número de separações cresceu pela libertação da mulher em relação a quase todos os preconceitos que havia até a década de 1980, além da sua entrada no mercado de trabalho, que trouxe mais independência financeira e, consequentemente, mais liberdade de escolha.

O depoimento de uma mulher na casa dos 40 anos resume bem um dos principais motivos de desgastes e separações. “Eu me casei muito cedo e fiquei mais de 15 anos casada. Foi ótimo enquanto durou. Acho que o que peca na relação é a falta de diálogo quando as coisas não vão bem. Você não comenta o que vai mal por medo que o outro fique magoado, e isso é um erro fatal, porque depois você acaba tendo atitudes que no fim irão acabar magoando de qualquer forma o outro. Acho que o diálogo é importantíssimo numa relação, e não adianta fingir que está tudo bem para não criar caso. Tem que criar, sim, se for para salvar a relação”.

Uma outra mulher, desta vez na casa dos 30 anos, argumenta que o casamento sempre esteve em crise, embora esta seja uma crise necessária para as superações essenciais à felicidade da própria relação. Acredito fielmente que as separações são decorridas de casais que acabam aprisionando as pessoas a uma série de comportamentos que um dia culminam no precipício da desilusão assumida e na rotina do dia-a-dia; as fazem refém de uma situação sufocante e anuladora de suas vontades e até mesmo de seus valores. Casamento feliz talvez seja aquele em que a felicidade de um esteja na felicidade do outro; aquele em que ambos reconhecem seus defeitos e convivem com seus próprios e também com os do outro; aquele onde a rotina não se transforma numa corrosiva ferrugem(...)”

Sou daqueles que ainda acreditam na força que mantém unidas as famílias, as amizades verdadeiras, os casamentos. Não acho que o problema esteja em qualquer uma dessas “instituições” aperfeiçoadas pelo ser humano. Quando alguma delas se deteriora a culpa é única e exclusivamente da perda do amor próprio e do amor pelo outro; do cultivo exacerbado do egoísmo e do ciúme. Da mesma forma que é possível uma amizade durar a vida inteira, é possível um relacionamento a dois manter acesa a mesma chama de amor que um dia o fez nascer.

P.S.: Este texto é dedicado a Luciana, que compartilha comigo o ideal de amor possível, vivido com intensidade e cultivado todos os dias.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, em 15 de dezembro de 2006)


Posted: 08:38 AM, Dec. 23, 2006
Link

Temperos da vida

Roberto D´arte

 

Odores e sabores estão intimamente ligados à memória e são pontes estreitas entre passado e presente. Todos, de uma forma ou de outra, guardam alguma lembrança de comidas e perfumes que remetem à infância, à adolescência, a momentos marcantes, normalmente carregados dos mais variados sentimentos.

Por duas vezes, que eu me recordo, vivi em Viçosa algumas frações de segundos que me remeteram a vivências do meu tempo de criança, na década de 70, lá na minha Boa Nova-BA. O passaporte? Cheiros de comida.

Da primeira vez eu tinha saído de casa pouco depois das 7h30min. Estava próximo à praça Mário Del Giúdice, no Centro, onde fui tomado por um súbito cheiro de banana frita e canela. Não sei de que direção veio, mas instantaneamente me arrebatou com uma cena inteira: eu, com meus 7 ou 8 anos, chegando na casa de um tio muito querido, onde sempre passava para ir com meus primos para a escola. Era comum encontrá-los ainda tomando café da manhã. Vale lembrar que na Bahia há o costume de se comer banana frita (polvilhada com açúcar e canela) como acompanhamento do café, e não no almoço ou no jantar.

Na segunda vez, também no Centro, senti uma mistura de cheiros, os quais não consegui distinguir naquele exato momento. Tudo foi muito rápido e intenso o bastante para me fazer lembrar dos jantares da minha casa no tempo em que as principais refeições eram feitas à mesa da copa, sempre rodeada por sete pessoas (meu saudoso pai, já falecido, minha mãe, minhas três irmãs, meu irmão e eu). Conversávamos, contávamos casos, ríamos e saboreávamos as delícias que a mão-de-fada da minha mãe preparava. Eu adorava a simplicidade do seu arroz soltinho com farofa de cenoura, ovo frito e carne-de-sol (no Nordeste falamos “carne-do-sol”). No momento em que senti o cheiro que me trouxe aquele instante feliz, certamente algum ingrediente dessa mistura estava presente.

     Contei tais experiências olfativas para comentar um filme que assisti no último fim de semana e que me emocionou bastante. Trata-se de “O Tempero da Vida”, uma produção greco-turca, de 2003, roteirizada e dirigida por Tassos Boulmetis. É uma daquelas obras do cinema que não ganham badalação na mídia nem entram no circuito comercial. No entanto, têm conteúdo, são belas e inesquecíveis.

O filme conta a história de Fanis, um grego que teve uma infância feliz em Istambul, na Turquia, marcada principalmente pelos ensinamentos do seu avô dono de uma loja de especiarias, cheio de sapiência, que costumava ensinar sobre astronomia, amor e relações humanas a partir da culinária e da magia dos temperos. Fanis, claro, viu a sua existência ser impregnada por tal figura e seus ensinamentos.

Obrigado a deixar a Turquia com seus pais, por questões de ordem política, o menino vai para Atenas, na Grécia, deixando para trás o avô, um amor de infância e as melhores referências de sua vida. Aos 45 anos, na condição de um professor bem sucedido, Fanis se vê impelido a retomar o passado em busca de respostas que ficaram adormecidas.

Todos nós temos vivências que dariam grandes enredos para o cinema. Alguns filmes, na trilha de “O Tempero da Vida”, contam histórias de pessoas comuns que se vêem enredadas por suas próprias trajetórias. É o caso de "O Caminho para Casa" (do chinês Zhang Yimou), “Balzac e a Costureirinha” (do também chinês Dai Sijie), “Como Água para Chocolate” (do mexicano Alfonso Arau), “A Excêntrica Família de Antônia” (do holandês Marleen Gorris) e “Cinema Paradiso” (do italiano Giuseppe Tornatore). Ao desenrolarmos o grande novelo que nos leva a tempos longínquos, vai surgindo tudo aquilo que precisamos reencontrar e resgatar.

 

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 17 de novembro de 2006)





Posted: 12:01 AM, Nov. 20, 2006
Link

AUTOR CONVIDADO

Astrológica veia literária

 

O texto a seguir, do meu amiguirmão Renato Pedrekal, é uma síntese muito bem articulada do que a Astrologia tem a indicar sobre a veia literária de cada um. Pelo menos do que, em tese, cada um traz em potência em sua comunicação oral ou escrita.

Muitos encaram a Astrologia como um estudo menor, talvez pela popularização dos horóscopos de jornais e revistas, que normalmente trabalham com alguns chavões bem pouco reveladores. No entanto, estudiosos da área - como Renato (este sem qualquer finalidade de cunho profissional, infelizmente) - conseguem fazer leituras bem mais verticais e extremamente pertinentes.

Em "Literatura e Astrologia" ele mergulha na leitura arquetípica dos signos enquanto norteadores para os que se arvoram a escrever. Na verdade, mesmo os que não escrevem têm no jeito de se comunicar certas características bem peculiares. Leia e veja você mesmo se não é um assunto, no mínimo, instigante.

Abraço,

Roberto D´arte


Posted: 11:52 PM, Nov. 5, 2006
Link

LITERATURA E ASTROLOGIA

                                         Renato Pedrekal

 

Tentemos imaginar o perfil clássico de um escritor: um profissional que trabalha em casa, solitário, entregue aos seus pensamentos e sensações; às suas pesquisas e lembranças. No (desas)sossego do lar, na proteção das quatro paredes, a busca pela inspiração, muitas vezes na travessia das noites. Um notívago, muitas vezes boêmio; emocionalmente instável, delirante, louco; um inspirado, um arqueólogo das emoções, um inquilino em sua própria morada. Bem, estamos falando, precisamente, de um tipo lunar. Ou de um canceriano clássico.

A lua rege os escritores, através do desencadeamento das emoções e da instabilidade destas. A fluidez noturna permeia os tons nos quais vai o escritor beber a fim de então destilar suas posturas, seus desejos, seus medos. A imaginação, o labor quase-látego da busca pela tradução do inefável, a “fúria de mergulhador cego”, da qual falava o (canceriano) Neruda, tudo leva à lua e é por ela guiado. Falemos, porém, em termos arquetípicos, não necessariamente da relação indivíduo/signos astrológicos.

No estudo dos arquétipos astrológicos aprendemos que cada signo cumpre uma função de depurar e “limpar os excessos” do signo anterior. Câncer (regido pela Lua), subseqüente a Gêmeos, extrai deste a essência da comunicação (falada), desnudando-a e trazendo sua essência. Os decanatos do signo de Câncer (regidos por Câncer, Escorpião e Peixes, todos signos aquáticos) exigem sensibilidade, profundidade e devaneio. Imaginação e linguagem sutil, embora exata (Escorpião rege as cirurgias, pela co-regência de Marte no signo). Quem se aventura pela escrita, naturalmente, traz consigo uma grande dose de sensibilidade (normalmente incompreendida entre seus pares) e uma certa anti-sociabilidade (foco na profissão, não tanto na vida pessoal, embora esta seja uma das profissões onde ambos mais se confundem – mesmo enquanto ficção). Um certo distanciamento do modus operandi do signo anterior: a comunicação falada. Os signos de água são “mudos”, o que quer dizer concentrados em suas próprias emoções. Para estes signos, o real é o emocional, conforme o preceito gideano: “Sinto, logo existo”, ou “Não me é real nenhum pensamento que uma sensação não o tenha precedido” (cf. “Os Frutos da Terra”). Por outro lado, a Casa IV (Câncer, Lua) é também a Casa das finalizações, o que por si só liquida a tagarelice típica dos geminianos, necessitando de uma finalização, um fechamento. O fluxo de comunicação geminiano, muitas vezes perdidos em elucubrações improvisadas, fere a natureza literário-canceriana, que necessita de nutrição dos sentimentos, muito mais do que de informações. A leitura apaixonada, nutritiva será sempre mais essencial do que a informativa, falando de modo geral. Um tema que “pega” o leitor atrai mais do que a informação, ainda que dela ele necessite: a obrigação de “ter que ler” constitui-se, certamente, num dos castigos dos quais todos recordamos: o pavor das épocas ginasiais. Câncer, polar a Capricórnio, não é muito afeito à perseverança e à responsabilidade típicas de Capricórnio. Imaginar um escritor escrevendo “por obrigação” é desejar mal a um inocente, apesar dos “ossos do ofício” a que todas as profissões estão submetidas.

A título de ilustração (de novo lidando com arquétipos, não com indivíduos pertencentes a determinados signos, posto que uma caracterização apenas pelo signo solar é bastante genérica), poderíamos dizer o seguinte:

A escrita ariana seria caracterizada pelo ímpeto e arrojo das primeiras sensações, pouca paciência e nenhuma disposição a correções ou acréscimos. Textos “desbocados”, escatológicos, manuais de guerra, textos curtos e/ou enxutos. Textos sobre liderança: incitando, instruindo sobre ou desempenhando o papel de líder. Cartas ou e-mails agressivos, sem pensar, arrependimento posterior, “já foi, dane-se”. É o pioneirismo, a “semente” deixada para frutificar mais na frente. O jorro inicial, não necessariamente sensato, nem responsável. O “big bang”, o tiro de largada. A escrita que semeia, incita, encoraja, a chamada para a luta. Cazuza: “Neruda disse ‘Feche o livro e vá viver’. Eu fui”.

O texto taurino prima pelo bom senso, delicadeza, parcimônia. Poesia romântica. Palavras doces, bilhetinhos amorosos, sensualidade. Livros sobre culinária, jardinagem, música. Preguiça ou demora ao responder; senso de utilitarismo, “isto vai servir pra quê?”. Textos ligados a finanças ou a perspectiva de obtenção de dinheiro via publicação. Um texto que visa estabilizar uma situação, ou mantê-la.

A comunicação geminiana é sagaz, criativa, algo prolixa. Bem humorada. Piadinhas, chistes. Diálogos, inovações. Papéis, personagens, o outro falando comigo ou por mim. Multidões comunicando-se num mesmo interlocutor. O cotidiano colocado no papel, referências à vizinhança, parentes próximos, irmãos, tios. Viagens curtas, manuais de turismo. Ler ou escrever em viagem, palavras-cruzadas, cartas. Livros interativos, do tipo “se deseja o final tal, vá até a página tal”. O geminiano interage com o que lê de forma imediata (o ariano talvez rasgasse um livro de raiva do que leu ou beijasse apaixonadamente um do qual gostou; um taurino precisa ruminar, digerir seu conteúdo). A escrita é uma das maneiras do geminiano mostrar sua excelência e seu gênio, sobretudo no aspecto mais espirituoso do signo. É também o signo dos jornalistas, da notícia imediata, manchetes; fofocas e boatos. Revistas de consultório, cabeleireiro etc.

Câncer é o memorialista do zodíaco, aquele que se lembra de detalhes do passado que ninguém mais lembra. O saudosista, nostálgico; também o historiador, o poeta ultra-sensível, as coleções, os sebos literários. Tudo o que é antiguidade, raridades, velharias (conforme o apreço de cada um). É a imaginação fértil, a gravidez literária, a nutrição e as raízes do escritor. Forte ligação com a terra natal, com os pais, antepassados. A Câncer interessa muito mais a imaginação do que a comunicação; o emocionar o leitor (como a si mesmo, ou reconhecendo-se nele), em vez de informá-lo. A genealogia; o escrever o que não se pode dizer, o expressar a tormenta do amor secreto, quando de outra forma jamais poderia fazê-lo. Câncer tudo sente, nada fala: então escreve.

Leão é auto-referente e altamente criativo. Sua vida como obra de arte, seus fatos enquanto fábulas ou grandes aventuras. A biografia, o escrever enquanto integração pessoal, o descobrir-se à medida que escreve. O brilho da poesia jorrada do coração, o ouro encontrado dentro e atirado para fora de si. Livros infantis, livros de jogos, brincadeiras, passatempos. Escrever como hobby, lazer. A escrita do leonino interessa sobretudo a ele mesmo e sua grande contribuição é no sentido de que o leitor possa identificar-se com a história que lê, encontrando nela uma dica de como acessar a sua própria biografia, ou seja, a descrição do Eu enquanto exemplo para o leitor.

Virgem é um signo de escrita técnica, perfeccionista, depurada. Frases curtas, livros curtos. Escrever o que é essencial, útil. Sutileza e detalhismo. Poder descritivo, grande capacidade analítica. Manuais, cartilhas, livros que ensinam direta ou indiretamente. Livros sobre saúde, higiene, coisas funcionais. A busca da palavra certa, do texto enxuto, da supressão de qualquer excesso. Escrever, anotar, riscar, reescrever, anotar, riscar. Senso auto-crítico, “auto-correção”. Revisores.  Realismo.

Libra divide com Touro a (co)regência de Vênus. Textos sobre arte, beleza, decoração, arquitetura; criatividade em jogos de palavras, trocadilhos, espirituosidade. Palavras inventadas, sobrepostas (como em Lewis Carrol e John Lennon). Cartas de amor, declarações. A clássica frase de Rimbaud (outro libriano),“Eu sou outro”, é uma definição precisa da natureza deste signo, posto que é no interagir que se conhece mais a respeito de si mesmo, no caso de Libra. Textos sobre pacifismo, documentos referentes à diplomacia.

O texto de Escorpião vai no nervo, na essência. Temas incômodos, tabus. Sexo e morte. Escrever como quem se salva, se finda, ou com esta finalidade perante o leitor (ressuscitar ou aniquilar). A escrita das entranhas, a intimidade que não se deve(ria) revelar, o pudor na escrita. Cartas e diários secretos. Bilhetes de ameaça ou vingança. Esconjuros, maldições ou a cura pela palavra, o escrever como quem faz sexo, o purificar-se pelo ato de escrever; escrever como quem se limpa, lava, purifica. O ato fatal, a última coisa a se fazer, o fim. Bilhetes suicidas. O encarcerar-se, o escrever como quem morre. O tesão, o convite “obsceno” ou o bilhete como prova, chantagem. A psicologia profunda, a sondagem do inconsciente, a relação entre aspectos aparentemente desconexos, o mistério; Freud, sexo, tabu; o submundo, os subterrâneos, a marginalidade.

A linguagem de Sagitário é basicamente filosófica. A busca pelos altos vôos literários. A literatura dita “clássica”, os cânones. A literatura religiosa e os grandes exemplares da religião (Bíblia, Alcorão, Bhagavad Gita etc). Livros de fòlego. A intuição como passaporte para a sabedoria, o escrever enquanto superação do animalesco-instintivo, o domar-se em função do refinamento da alma. A escrita errática, pretensiosa, “espaçosa”. Erudição. Muitos volumes, enciclopédias, tudo que é “grande”, “muito”. Dicionários, o livro “tijolo”. Leitor voraz, escrever e ler como forma de expansão interna. A publicidade, a publicação, a grande mídia. Literatura dramática, dramaturgos.

Capricórnio é o escritor técnico e/ou sensível. É a escrita utilitária e também a escrita poética e altamente simbólica. A escrita política, documentos oficiais, memorandos. A escrita oficial, leis, constituições. Escrita sobre economia, padrões, regimentos. O escrever responsável, terreno, material, concreto. Menos inspiração, mais labuta, o fazer, o aperfeiçoar. O trabalho em silêncio, a pesquisa, o tempo como aliado. As grandes obras da velhice, o ponto final em tudo o que se escreveu. O velhinho sábio de muitos livros escritos. A censura (limite) interna. A escrita a ser desvendada, enquanto portadora de emoções contidas, excessivamente trabalhadas, laboradas.

Aquário é o ficcionista, o futuro, a inovação. O diferente, a surpresa, o inesperado. Também o reformista, o rebelde anárquico. A quebra de padrões, o ir além dos limites, o novo e desconhecido. A internet, a escrita rápida, o relâmpago. A escrita voltada para o humanismo e as causas humanitárias. Também a frieza, a indiferença, o escrever como quem “gela”. A inteligência que sempre vê o outro lado, a ponderação mais geral em termos de humanidade. O inusitado, a gíria, a palavra nova. O inconformismo com o pré-estabelecido. Um chute no ontem e uma piscadela pro amanhã.

Peixes escreve em torrentes, é o drama, o sonho, a poesia.  A escrita carcerária, as cartas dos presos. O escrever desamparado, o texto solitário aos soluços. Também as grandes obras místicas, as conexões com o Sagrado, as preces e orações. O texto dos loucos, Bispo do Rosário. A conexão misteriosa, o significado escapadiço, as reticências. Romantismo deslavado, fotonovelas, dramalhões. Livros sobre cinema, música, teatro, mímica, mágica. Magia. Textos secretos, obras de iniciados, seletividade.

 

                    (texto publicado originalmente na revista literária eletrônica VERBO21

                                                      http://www.verbo21.com.br)




Posted: 09:22 AM, Nov. 5, 2006
Link

 

                                          Debate ou duelo?

                                                    Roberto D´arte

 

              Constrangimento. Foi exatamente isso que senti durante o debate entre os dois candidatos a presidente, no último domingo, na Rede Bandeirantes. Muito provavelmente outros milhões de brasileiros sentiram o mesmo diante daquele duelo em formato de debate.

          Será que alguém terá coragem de dizer que Lula e Alckmin estavam preocupados em debater os problemas do Brasil e as suas respectivas soluções? Basta um pouquinho de independência de pensamento e opinião para ter certeza que não.

          O que ficou claro para mim é que ali estavam dois adultos cheios de rancor e de arrogância, dispostos a tudo para provar que o outro é sujo e incompetente. Por acaso isso é sinal de maturidade? Pobre de quem os vê como modelo do que quer que seja! Geraldo Alckmin e Luís Inácio Lula da Silva são apenas dois meros representantes de um pensamento político viciado, que ainda domina a maioria da população.

          No dia seguinte ao debate ouvi várias pessoas comentando sobre quem havia saído vitorioso. É aí que reside o problema: para a maioria o mais importante é escolher um lado, é se identificar com os vencedores. Bem poucos realmente sabem que as noções de vitória e derrota são completamente distorcidas não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Aqui a situação é mais grave porque historicamente o povo vive à espera de um líder que conserte um País com vícios que são entranhados na pele de cada um.

          Não houve vitorioso algum naquele debate! Ao contrário, só derrotados. Principalmente os eleitores e o povo, em geral. Desliguei a TV e me senti tranqüilo, ao menos, em saber que minhas escolhas estão coerentes com o que penso sobre a importância da política na vida das pessoas. Quem quiser que fique aguardando alguma decisão dos nossos mandatários e legisladores para mudar a própria vida.

         Certamente os rumos políticos de uma nação estão atrelados – positiva ou negativamente – à coletividade. No entanto, é bom que cada indivíduo saiba que nunca os ventos estarão 100% favoráveis às investidas profissionais e pessoais, capazes de melhorar as nossas vidas. Independentemente dos nomes que estejam à frente dos poderes Executivo e Legislativo nos âmbitos nacional, estadual e municipal, as decisões que realmente influenciam alguém a mudar de vida para melhor dependem muito mais da sua força de vontade.

          Eu não espero nada de Lula, de Alckmin ou de quaisquer outros nomes. Ainda que eles fossem isentos de defeitos, seriam necessariamente parte de uma engrenagem bem maior e mais complicada do que o poder que eles detêm para mudá-la. A corrupção, por exemplo, não está só no topo do poder. Ela nasce em meio às pessoas “comuns”. Somente um ingênuo para acreditar que haverá algum tipo de governo livre desse tumor maligno. A humanidade está muito, mas muito, longe de algum tipo de evolução que a leve para o rumo oposto.

           Voltando ao duelo presidencial, a minha sugestão para o próximo – que deverá acontecer na Globo – é que as pessoas não se esqueçam de alugar um bom filme para assistir no mesmo horário. Na hora do voto, na eleição do segundo turno, é só escolher algum nome do elenco que tenha ficado na memória.

 

         (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, em 13 de outubro de 2006)

 


Posted: 02:09 PM, Oct. 13, 2006
Link

               Makely Ka e Maísa Moura são parte de um importante movimento poético-musical, que cresce e ganha corpo a cada dia em BH

 

                                 Música, poesia e contramão

                                                                    Roberto D´arte

 

          Quem esteve no Espaço Cultural Fernando Sabino, no último fim de semana, pôde assistir a uma boa amostra da vanguarda musical de Minas. O Conexão Telemig Celular de Música 2006, que teve a sua quarta etapa realizada em Viçosa, continua sendo um sinalizador de trabalhos autorais de qualidade – uma espécie de contramão do que toca nas rádios comerciais do País.

           Patrícia Ahmaral, Kiko Klaus, Fernando Sodré, Pedro Morais e o duo Makely Ka e Maísa Moura são expoentes dessa nova geração, marcada por composições consistentes e por releituras ousadas de grandes nomes da música brasileira. Tendo Belo Horizonte como principal cenário, essa turma vem conseguindo furar algumas das mesmas barreiras convencionais que noutros tempos isolaram verdadeiros prodígios da MPB, a exemplo de Sérgio Sampaio, Itamar Assumpção e Walter Franco.

           Por já conhecer o seu trabalho há bem mais tempo do que o dos demais, vejo Makely como a melhor síntese do tripé “música, poesia e contramão”. Ao lado de Maísa, ele faz do recém-lançado CD “Danaide” uma espécie de ícone do que costuma chamar de “autoprodução”.

           Este é Makely Ka, que em 1999 já caminhava na contramão, inclusive se permitindo outros nomes, como “Makely Aquele”. O conheci no início daquele ano durante uma temporada em Ouro Preto, onde fiz a vez de produtor de um memorável show da sua então banda Mandrágora. Ele e sua trupe preparavam um espetáculo poético-musical em homenagem aos 90 anos do ícone mineiro Ataulfo Alves, a ser montado na bela e tradicional Casa da Ópera de Ouro Preto.

          Ali eu pude reconhecer bem mais do que um compositor de letras e músicas intrincadas – já bastante consistente aos 20 e poucos anos. Makely já se mostrava maduro como poeta-da-poesia-concreta e como um talentoso produtor cultural de seus próprios projetos.

          Depois do ótimo “A Outra Cidade” (CD de 2003, lançado em parceria com os músicos Kristoff Silva e Pablo Castro), Makely Ka encontrou em Maísa Moura uma verdadeira musa inspiradora para um disco intimista e absolutamente lírico. “Danaide”, fruto de uma longa gestação musical, chegou em meio à boa notícia do primeiro filho deste duo – literalmente. Só não sei se o CD substitui a árvore naquela máxima de que todo homem só se realiza plenamente depois de escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore...

         Mesmo compondo para a belíssima voz de Maísa – que passeia com segurança entre graves e agudos, esse mineiro cosmopolita propõe uma aventura pela contramão dentro da própria música. Em “Cantango” (um tango-com-jeito-de-fado), ele diz literalmente: “tens tanto medo de errar o tom que não percebes o quanto é bom pôr-se a cantar, assim sem um dom, sem se importar com a voz, o som”. Suas intervenções vocais em “Danaide” e nos shows, com um quê de Arnaldo Antunes, são os melhores testemunhos de tal proposta.

          Felizmente, a música e a poesia de Makely também seguem em mão dupla. Nomes como Titane, Ná Ozzetti, Alda Rezende, Virgínia Rosa, Regina Spósito Suzana Salles, Marina Machado e a própria Patrícia Ahmaral já gravaram e/ou cantaram as suas canções. Uma prova de que contramão, artisticamente falando, passa bem longe do que não é legal.

 

                           (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 08 de setembro de 2006)

 


Posted: 03:10 PM, Sep. 30, 2006
Link

                                            O hexa nas mãos

                                                Roberto D´arte

 

          Apesar de não ter a mesma dimensão e importância da Copa do Mundo de Futebol, a Liga Mundial de Vôlei é, hoje, o equivalente da Copa neste esporte. Daí a imprensa nacional (e certamente a estrangeira) ter feito uma justa comparação