
Papo de otimista Roberto D’arte
Há quem acredite que ser otimista é ver o mundo pela ótica de Pollyanna – aquela personagem famosa criada por Eleanor H. Porter, que fazia o “jogo do contente” e sempre encontrava um jeito de ver o lado bom nos infortúnios. Ou então que é ter a pureza da “Velhinha de Taubaté” – personagem de Luiz Fernando Veríssimo que até bem pouco tempo (antes de morrer em pleno escândalo político do “mensalão”) acreditava incondicionalmente em todos os governos. O verdadeiro otimista é aquele que, após assistir à sequência de notícias trágicas no Jornal Nacional, liga o aparelho de som, pede uma pizza e vai assobiando para o banho se preparar para esperar a namorada. Com o risco de receber o rótulo de alienado por universitários de esquerda, militantes do movimento estudantil, este cidadão de-bem-com-a-vida é o melhor exemplo de como se deve lidar com os problemas em qualquer época (já que o ser humano vive dias de crise desde que colocou os pés na Terra). Por que alguém deveria alterar seu cotidiano em função das denúncias envolvendo o Partido dos Trabalhadores e o Governo Lula? Siglas e nomes no universo político do Brasil nunca puderam ser associados a seriedade, honestidade e trabalho em prol do coletivo. Um otimista nato não se deixa iludir por promessas de nenhum deles; ao contrário, fica sempre com um pé atrás e trata de construir a sua vida com as próprias mãos. Pegando carona naquele sábio ditado, nunca é demais lembrar que há males que realmente vêm para bem. Esta crise que assola o Governo Federal e o Congresso Nacional veio em boa hora. Na hora de mostrar que o último partido de peso que faltava ocupar o comando da nação é igual ou pior aos demais. Toda crise é importante por revelar algum lixo debaixo do tapete; por estampar caras nuas e cruas sem qualquer maquiagem. Crise é sempre um prenúncio da verdade que precisa vir à tona. Como vivemos numa democracia que ainda nos obriga a votar, uma boa resposta à corrupção é o voto-em-ninguém; é o deixar claro que nada do que está sendo oferecido vale a pena apostar. Esta desesperança manifestada nas urnas é também um sinal de otimismo. Não o otimismo que desiludiu a Velhinha de Taubaté (“ela morreu aos 90 anos na frente da televisão, talvez com o choque de alguma notícia”, segundo Veríssimo), mas aquele fruto da consciência de que o sofrimento, a decepção, a desilusão também impulsionam o crescimento de uma pessoa, de uma nação. Logo no início dessa onda de denúncias envolvendo o PT um colega me perguntou se eu estava decepcionado, sabendo ele que votei em Lula nas últimas eleições presidenciais (literalmente nas últimas quatro, desde 1989). Tranquilamente respondi que não e argumentei que somente se decepciona aquele que cria expectativas. Como nunca fui filiado a partido algum e sempre procurei decidir meus votos por convicção própria, escolhi Lula por desejar ver alguém com o seu perfil na condição de presidente da República. Nunca o imaginei super-homem, muito menos salvador da pátria. Ambos são invenções do mundo da ficção. A “era Lula” fecha, a meu ver, todos os ciclos imagináveis no topo da administração pública. O poder na esfera federal já foi ocupado pela direita, pelo centro, pela esquerda, por quem veio de cima, por quem saiu de baixo... Diferente agora só se o candidato for um extra-terrestre. Ou, como diria um velho amigo paraibano: “só Jesus e mais ninguém”.
(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 9 de setembro de 2005) |