
Orkutmania Roberto D’arte
Aos internautas que ainda resistem em entrar na grande rede de relacionamentos, que tem o estranho nome de Orkut, vale a pena rever esta decisão. Este espaço virtual pode vir a fortalecer laços bastante reais e cotidianos, se bem usado. Há quem atribua ao Orkut adjetivos com conotações negativas, a exemplo de um possível incentivo à invasão de privacidade ou mesmo de permitir a entrada de pessoas racistas, preconceituosas e perversas (é fato que existem comunidades criadas por torturadores de animais e por pessoas que assumem odiar negros, judeus, nordestinos e homossexuais). No entanto, este tipo de gente doente é minoria e acaba sendo rechaçada dentro de suas próprias comunidades. Há também os que fazem dessa rede uma disputa por mais contatos, ou seja, estão mais interessados em colecionar números. São aqueles que usam os dados numéricos para se sentir mais importantes. Saem normalmente numa busca desenfreada para adicionar mais e mais pessoas, ainda que nunca mandem (ou recebam) mensagem alguma para a maioria destes novos “amigos”. Neste caso não há nada de negativo; é só mesmo uma constatação do quanto a vaidade e a carência também são levadas para o mundo virtual. O fantástico do Orkut é a possibilidade de se terem por perto os amigos distantes (muitos dos meus moram em outros estados), além da “arqueológica” chance de se encontrarem ex-colegas da época de escola (eu, por exemplo, tive a sorte de descobrir comunidades de duas escolas na Bahia, onde estudei a 7a e a 8a Séries e o antigo 1o Ano do 2o Grau, entre 1982 e 1984). Há também uma infinidade de comunidades para todos os gostos, desde aquelas específicas para as áreas profissionais em que cada um atua até as que se referem às preferências políticas, culturais, esportivas, sociais etc. A rede pode ainda, por incrível que pareça, aproximar a própria família. Parece contra-senso imaginar que casais, pais e filhos ou irmãos precisem do mundo virtual para estreitar laços. A verdade é que o cotidiano, muitas vezes, faz com que as pessoas próximas sejam mais distantes entre si do que com aquelas tidas como “estranhas” e distantes de fato. Infelizmente, não são todos os casais que se sentem à vontade para dizer “te amo” cara a cara. O mesmo vale para pais e filhos ou irmãos. Já tive o prazer de ver no Orkut maridos que deixam verdadeiras declarações de amor em depoimentos colocados nas páginas das esposas; namoradas que fazem o mesmo nas páginas dos namorados; de pais para filhos; de filhos para pais; de alunos para professores e vice-versa... Provavelmente muitos dos que fazem isso na rede também o fazem frente a frente. Já outros talvez encontrem no virtual uma oportunidade impar para vencer a timidez ou aquele constrangimento que muitos têm de fazer declarações de amor e de afeto “ao vivo”. Não dá para classificar o Orkut como bom ou ruim, assim como não dá para fazer o mesmo com a própria internet, com a TV, com o cinema, rádio etc. Tudo que é feito pelo ser humano é passível de trazer embutidos todos os seus defeitos e virtudes, todas as suas paixões (alegria, tristeza, amor, ódio, egoísmo, compaixão, ciúme...). O que dá para dizer é que a Orkutmania – lançada mundialmente pelo engenheiro de informática Orkut Buyukkokten – pode, sim, ser sinônimo de bons encontros e reencontros, de propagação de idéias, de troca de impressões e informações, de construção de afinidades.
(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 23 de setembro de 2005)
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