
FELÍNICOS (ou ensaios de luz e sombras)
PAULO ANDRADE
RETRATO DE ELIANA
na geometria da vértebra a pele, camurça visível à noite, matizes de ébano e marfim, ondula sobre o muro.
curvilínea no dorso a felina — estátua multiforme cuja cauda são esculturas de Tomie Ohtake —
ostenta farol de topázios que, atentos ao evaporar da noite, move-se como respiração de monges

FLORA, ESFINGE
I ato
Flora fixa em mim seu olhar safira como quem decifra mistérios como quem sabe o princípio desde o fim
minutos em silêncio concêntrico esconde no olhar, impenetrável, o salto exato, os dentes de sabre à frente das patas, o vôo em seta
cega, só vê o alvo
II ato
o hábito de despojar-se sobre a bíblia aberta (os raios do pôr–do-sol filtrados pela janela lhe apraz)
a luz sagrada das escrituras ilumina seu lusco-fusco interior
estudo de luz e sombras.

SESTA
Flora, inquieta, dorme sobre o sofá as garras — punhais entre pelos — expostas ameaçam o ar sonha ser leoa em grandes caçadas: gafanhotos libélulas pardais

VISITA DE UM GATO CINZA
o chumbo está no veludo da pele no dormir sobre a janela do quarto quando trás em si o sono profundo do metal
mas o traço sinuoso da cauda que trás o volúvel das nuvens nega a solidez da cor
é a neve alva do peito e das patas que te conduz não o chumbo do dorso ou do sóbrio caráter. |