
“Arqueologia” no Orkut Roberto D’arte
Usuário do Orkut há pouco mais de quatro meses, eu ainda estou naquela fase de conhecer melhor as comunidades que adicionei e de buscar contatos do passado. Até o momento os meus “achados arqueológicos pessoais” foram bem poucos, mas um deles me deixou com aquela sensação boa de ter encontrado uma verdadeira relíquia. Aos 36 anos, encontrar um professor de quando eu tinha 12 é algo realmente valioso. Principalmente porque este marcou a minha vida de estudante e continua sendo uma referência até hoje. Trata-se de Jalon Leal, professor de Inglês na 7a Série, em 1982, e diretor de disciplina no Colégio Taylor-Egídio, localizado em Jaguaquara-BA, onde estudei por dois anos. O Taylor, como todos chamávamos aquela escola centenária ligada às congregações brasileira e norte-americana da Igreja Batista, teve internato até meados da década de 1980, quando este formato de instituição de ensino ainda existia no Brasil. Ao contrário de muitos alunos, tenho orgulho de ter estudado em um colégio interno, principalmente porque meu pai colocou a mim e a meu irmão ali pensando em nos dar melhores condições de estudo. Como amadurecemos naquela escola! E Jalon foi certamente um dos responsáveis por isso. Longe do perfil de alguém que se impõe pelo físico no estilo “guarda-roupa duplex”, ele era (ainda é!) magro, de barba bem feita e sempre vestido com camisas e calças sociais. À primeira vista não intimidaria quaisquer alunos marcados pela indisciplina – presença bastante comum no internato naquela época. No entanto seu jeito firme e pausado de falar, associado ao olhar incisivo, nos fazia “tremer na base”. Muitas vezes ele foi obrigado a agir com veemência para corrigir comportamentos indisciplinados desrespeitosos. E fazia isso sem qualquer contato físico, até porque isso não existia naquela escola. Tinha, sim, um tipo de castigo chamado “cana”, que consistia em deixar os alunos horas a fio numa sala fazendo seus deveres escolares, privados do lazer com os demais colegas. E Jalon, com uma máquina de escrever, fazia companhia aos “encanados”, dizendo que eles serviriam de inspiração para seus textos naquelas longas horas. Ainda solteiro naqueles anos, ele também morava em um dos alojamentos, com os internos. Por causa disso eu passei a gostar ainda mais dos Beatles. É que acordávamos sempre às 6 horas com uma espécie de campanhia; mas uns vinte minutos antes Jalon colocava no corredor as caixas do seu aparelho de som e nos presenteava com seus muitos vinis do quarteto de Liverpool. Reencontrá-lo no Orkut foi mesmo um presente. Fiquei contente por ele ter me reconhecido (disse se lembrar do quanto eu era bem comportado!), por ter dado notícias da escola (agora sem internato) e também por constatar a existência de uma comunidade, com mais de 500 membros, apenas com seus ex-alunos. Na verdade, Jalon Leal não é somente um ex-professor de Inglês e o único diretor de disciplina que conheci. Ele é o que posso chamar de educador para a vida toda. Guardo seus ensinamentos sobre hombridade, retidão de caráter, respeito ao próximo e espiritualidade. Alguém que sempre soube ser firme com seus alunos, mas sem nunca perder o humor refinado, sem nunca perder a noção de que estava nos preparando para a vida, para o futuro.
(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 02 de dezembro de 2005) |