
Nascimento e renascimento
Roberto D’arte
Embora muitos achem triste o Natal, argumentando que inúmeras famílias pobres se sentem ainda mais abandonadas e humilhadas nesta data, o seu simbolismo é um presente tão grandioso que ninguém deveria se sentir desamparado. Ainda que historicamente a data do nascimento de Jesus em 25 de dezembro seja questionada, o que importa de verdade é o seu significado.
O nascimento do Filho de Deus continua tendo a mesma força, mesmo depois de dois milênios. Não sei se a humanidade noutras épocas se sentia tão ameaçada e desesperançada como nos dias de hoje. O que sei é que a vinda de Cristo representou e continua representando a chama da esperança que não se apaga. O mesmo vale para o sofrimento que envolveu a sua morte, lembrada na Semana Santa. Ali Jesus deixava claro que a esperança continuava acesa para o espírito, destinado ao renascimento. Assim, vida e morte, nascimento e renascimento são as duas faces de uma mesma moeda.
No último final de semana eu assisti pela quarta ou quinta vez ao filme “Encontro Marcado”, cujo tema é exatamente as nuances que envolvem a vida e a morte. O enredo conta a história de Will, um milionário do ramo das comunicações (numa atuação impecável de Anthony Hopkins) que está prestes a completar 65 anos. Ele, que sempre teve o controle de tudo e de todos ao seu redor, se vê diante da morte, personificada em um jovem (Brad Pitt) aparentemente comum e muito longe da figura macabra com rosto cadavérico, túnica e foice.
A morte decide conhecer de perto o mundo e as paixões humanas e escolhe o milionário para ciceroneá-lo, em troca de mais algum tempo de vida. Cara a cara com a “encarnação do fim”, Will se convence de que é necessária uma reavaliação de sua própria vida, diante de um fato que não pode evitar. A surpresa maior, no entanto, fica para o próprio “ceifador de vidas”, que apaixona-se perdidamente pela filha do magnata, interpretada por Claire Forlani. Conhecendo de perto uma das maiores “fraquezas” humanas – o amor – ele é obrigado a também escolher entre ficar neste mundo ou continuar cumprindo a mais árdua das missões.
Em algumas culturas orientais morrer é uma bênção que deve ser festejada, pois significa a partida para uma escala superior da existência. Sem dúvida, é uma idéia que ameniza bastante a perda de tudo e de todos que aqui ficam. É difícil para uma pessoa avaliar a si própria e dizer que está preparada para deixar este mundo. No entanto, começar pensando que essa aprendizagem é individual, contínua e intransferível, pode ser um bom começo.
Quem já teve a oportunidade de conhecer mais detalhadamente o Tarô deve saber que quando sai para alguém a carta da Morte, não significa literalmente um prenúncio do seu fim. Neste oráculo milenar a morte é sinônimo de mudança radical, da atenção que se deve ter para as transformações necessárias, sejam de ordem espiritual, emocional ou até material.
Se pudermos assimilar profundamente esses conceitos estaremos dando um passo importante para lidar com os tantos obstáculos que diariamente são colocados (até por nós mesmos) em nossas vidas. Um deles tem a ver com os sentimentos de tristeza e culpa que o Natal costuma despertar em certas pessoas. Neste caso, pouco importam os presentes que não pudemos dar ou deixamos de receber. A lembrança e o simbolismo do nascimento de Jesus são o máximo que se tem para dar/ganhar.
(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 23 de dezembro de 2005)

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