DENTROD´ARTE

Apresentação

Lançado em 3 de junho de 2005, o DENTROD´ARTE é destinado à divulgação de textos de autores ainda não muito conhecidos do grande público. É um blog para os amantes da arte feita com palavras, imagens e, principalmente, com o coração. DENTROD´ARTE porque as ebulições da arte nascem dentro d’alma! CONTATOS: dentrodarte@yahoo.com.br


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SÓ OS TOLOS SE APAIXONAM

Zhumar

 

Só os tolos se apaixonam, se apaixonam tanto que morrem desesperados, que agonizam pelas sarjetas, só os tolos. Só os tolos abrem seu coração e entregam-no de presente na bandeja de Salomé, que pede a cabeça de um tolo João Batista. Só os tolos, só eles mesmos. Só eles querem esse caminho incerto, sem razão, sem pódium  de chegada, sem beijo de namorada. Mas esperando feito um tolo no pódium de chegada o beijo da namorada, o beijo do namorado. Só os tolos usam tinta roxa, a tinta de uma paixão. Só os tolos amam e têm coragem de sofrer, porque só os tolos descobrem que o único caminho possível é o incerto caminho do coração, para cuja alegria não há preço que pague, não há prêmio que supere, não há dinheiro que compre. Só os tolos têm coragem de tirar a roupa, mostrar as feridas, ficar nu, sem teto, sem guarida. Só eles. Eles mesmos, os idiotas do amor, os palhaços da dor, os loucos do teatro. Só eles clamam, chamam, reclamam, insistem, persistem, não desistem. Só eles e ninguém mais. Só eles sonham, só eles são capazes de tanto amor que uma só migalha, uma só palavra, um só gesto gratuito é suficiente para nutrir a sua fome eterna. Basta-lhe um aceno que ele, cachorro escondido, rasteja absoluto pelas bordas da cidade. Só os tolos exalam poesia. Só os tolos conhecem a magia. Só os tolos, palhaços noturnos, são pisados pelos coturnos de uma mulher, coturnos de um qualquer. Só esses bobos mesmos, pelo grande fato de outro não ser. Só eles cantam, encantam e vêem DVD. Só eles fazem DVD. Palhaços ridículos escrevendo ridículas cartas de amor. Só os tolos são livres, leves e lúcidos. Só eles sabem quão cansativo é ser esperto, perdido entre jogos e mentiras, entre falsos mundos de euforia calculada. Eles preferem a lua, a noite, um pôr-do-sol. Eles preferem um gesto sincero que uma cara bonita de alguém fazendo fita. Só os tolos vêem Deus como a galinha tonta vê o ovo que nela se forma. Os tolos não mais perguntam “por que sou assim”, não mais se culpam “eu não deveria ser assim”, não mais duvidam “será que...”. Não, os tolos germinam, balbuciam, babam, gritam, simplesmente se aceitam, se calam, falam, morrem, nascem, choram, riem, mijam, cagam, espetam e são espetados. Os tolos não possuem sobreaviso. Estão sempre prontos. Os tolos escrevem mensagens baratas quando bem podiam escrever textos lógicos. Para o tolo, o que importa é não ter pé nem cabeça para poder passar na porta que lhe interessa. O tolo vê “O Fantasma da Ópera”. O tolo sempre está apaixonado. Apaixonado é um estado de alma que não se cura.

Ele vive em constante febre de loucura. Estar apaixonado é a sua condição para viver. Um tolo ama as lagartixas, os ratos, as bichas, as bibas e as feridas, as sapas e as sapatas, as matas, as mulatas, as matracas e os maracás. Um tolo simplesmente ama o que é direto, rasteiro no chão, cobra real, sujos de terra. Um tolo ama a terra. E sonha com o céu. Tem insônia e fica olhando estrelas. Um tolo sonha de olhos acordados. Clarice é uma tola. Fernando, outro. Francisco, também. Há muitos tolos famosos e outros desconhecidos. Ser tolo é tão bom que há muito esperto que se finge de tolo. Mas não adianta. Não demora muito, todos descobrem a verdade. O verdadeiro tolo é original. Ele luta o tempo todo para manter sua tolice. Sua idiotia é o seu melhor, é realmente a única coisa que interessa. Um tolo não quer entender, quer viver. Porque ele sabe que nada que lhe interessa precisa de explicação. Tudo jorra pra ele, da mina da vida, da água do chão, nascente primeira por entre brotos de mata. Um tolo se entrega e morre na cruz. Um tolo se apega e vive de luz vaga, tênue, incerta, lilás. Um tolo nunca escreve. Um tolo é escrito; ele segue a tolice do seu coração e um monte de besteiras que vêm no seu pensamento. Aí ele vai escrevendo, escrevendo, pensando numa pessoa, numas coisas, aliviando seu coração, esvaziando sua mente, até simplesmente sentir que é hora de parar.

 

P.S.: Esse texto é filho do texto “Das Vantagens de Ser Bobo”, de Clarice. Ele foi recitado por mim em “A Noite do Pop-Rock”, show no Sabor Goiano (03/02/06) e na palestra “Que Mistérios Tem Clarice?”, que trabalhei na UFPA (Universidade Federal do Pará)/março-2006.

 



Posted: 04:09 PM, May. 21, 2006

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