
O hexa nas mãos
Roberto D´arte
Apesar de não ter a mesma dimensão e importância da Copa do Mundo de Futebol, a Liga Mundial de Vôlei é, hoje, o equivalente da Copa neste esporte. Daí a imprensa nacional (e certamente a estrangeira) ter feito uma justa comparação entre as seleções brasileiras masculinas de Futebol e de Vôlei, depois da conquista do hexacampeonato pela equipe do técnico Bernardinho, domingo passado, na Rússia.
As comparações foram reforçadas pelo fato da final ter sido disputada entre Brasil e França, e do nosso time ter se superado e vencido de virada no quinto set, após estar perdendo de dois a zero. Já a França do futebol continua entalada na garganta do torcedor brasileiro, após duas vitórias humilhantes sobre o Brasil em Copas do Mundo (a última ainda bem fresca na memória!).
Dando uma ligeira pausa no foco principal desta crônica, lembro-me que o futebol foi o esporte da minha infância, enquanto o vôlei chegou na adolescência e permaneceu na vida adulta, ao contrário do primeiro. Fui um jogador apenas mediano no futebol – era zagueiro no meu time uniformizado, o Internacional (o de Porto Alegre mesmo, uma vez que meu pai não encontrou disponíveis as camisas do Flamengo, como eu queria). Já no vôlei fui bem melhor, mesmo tendo mantido o perfil de jogador de defesa. Pratiquei este esporte na faculdade e continuo a jogar, sempre que possível.
Quero, com isso, mencionar o quanto me identifiquei com o vôlei – bem mais do que com o futebol, principalmente por ser um jogo veloz, de muita estratégia e praticamente sem contato direto com o adversário. Como torcedor gosto de destacar o comportamento dos que vão aos ginásios assistir aos jogos. Um exemplo para boa parte dos torcedores do futebol, que, movidos por um fanatismo quase irracional, sempre aprontam nos estádios verdadeiros atos de selvageria.
Essas são diferenças que os próprios jogadores profissionais assimilam, assim como os técnicos. Por exemplo, enquanto os chamados craques da nossa seleção de futebol vivem dando vexame em campo – talvez tomados pelo estrelismo e pela falta de espírito de equipe e de amor pela camisa, os da seleção de vôlei esbanjam garra e talento coletivo (isso vale para a seleção feminina).
Para se ter uma idéia, enquanto Parreira se mostrou abatido e sem pulso diante de um time já derrotado no meio do jogo que eliminou o Brasil nas quartas-de-final, na Copa da Alemanha, Bernardinho foi o oposto durante os dois primeiros sets da partida do último domingo: inconformado, inquieto e determinado a acordar seus jogadores. Não à toa ele vem conquistando título atrás de título nos últimos anos.
Com Bernardinho não existe essa de jogador ter crise de estrelato; quem ensaia este tipo de firula vai para o banco de reservas. Aliás, os reservas do vôlei são tão bons quanto os titulares, justamente por fazerem parte de uma equipe, no seu sentido mais amplo.
Ironicamente, o sonho brasileiro do hexa – tão propagado este ano – veio pelas mãos, em vez de pelos pés. O esporte, qualquer que seja a modalidade, é sempre uma oportunidade para se praticar as referências positivas. Em essência, um atleta deve aprender a perseguir a vitória, mas, antes disso, deve saber o que significa superar obstáculos e as próprias limitações.
Infelizmente, nos últimos tempos os únicos exemplos que o futebol tem dado – pelo menos para as crianças e jovens brasileiros – são as aspirações por enriquecimento rápido (vide as fortunas recebidas pelos Ronaldinhos da vida), as rivalidades negativas (inspiradas pelas torcidas organizadas), os atos corruptos (juízes vendendo resultados) e a volubilidade nos espíritos de equipe e de liderança (jogadores e técnicos são contratados e dispensados sem qualquer pudor no meio da competição). É óbvio que os resultados em campo (ou em quadra) têm muito a ver com tudo isso!
(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 01 de setembro de 2006)

|