
Makely Ka e Maísa Moura são parte de um importante movimento poético-musical, que cresce e ganha corpo a cada dia em BH
Música, poesia e contramão
Roberto D´arte
Quem esteve no Espaço Cultural Fernando Sabino, no último fim de semana, pôde assistir a uma boa amostra da vanguarda musical de Minas. O Conexão Telemig Celular de Música 2006, que teve a sua quarta etapa realizada em Viçosa, continua sendo um sinalizador de trabalhos autorais de qualidade – uma espécie de contramão do que toca nas rádios comerciais do País.
Patrícia Ahmaral, Kiko Klaus, Fernando Sodré, Pedro Morais e o duo Makely Ka e Maísa Moura são expoentes dessa nova geração, marcada por composições consistentes e por releituras ousadas de grandes nomes da música brasileira. Tendo Belo Horizonte como principal cenário, essa turma vem conseguindo furar algumas das mesmas barreiras convencionais que noutros tempos isolaram verdadeiros prodígios da MPB, a exemplo de Sérgio Sampaio, Itamar Assumpção e Walter Franco.
Por já conhecer o seu trabalho há bem mais tempo do que o dos demais, vejo Makely como a melhor síntese do tripé “música, poesia e contramão”. Ao lado de Maísa, ele faz do recém-lançado CD “Danaide” uma espécie de ícone do que costuma chamar de “autoprodução”.
Este é Makely Ka, que em 1999 já caminhava na contramão, inclusive se permitindo outros nomes, como “Makely Aquele”. O conheci no início daquele ano durante uma temporada em Ouro Preto, onde fiz a vez de produtor de um memorável show da sua então banda Mandrágora. Ele e sua trupe preparavam um espetáculo poético-musical em homenagem aos 90 anos do ícone mineiro Ataulfo Alves, a ser montado na bela e tradicional Casa da Ópera de Ouro Preto.
Ali eu pude reconhecer bem mais do que um compositor de letras e músicas intrincadas – já bastante consistente aos 20 e poucos anos. Makely já se mostrava maduro como poeta-da-poesia-concreta e como um talentoso produtor cultural de seus próprios projetos.
Depois do ótimo “A Outra Cidade” (CD de 2003, lançado em parceria com os músicos Kristoff Silva e Pablo Castro), Makely Ka encontrou em Maísa Moura uma verdadeira musa inspiradora para um disco intimista e absolutamente lírico. “Danaide”, fruto de uma longa gestação musical, chegou em meio à boa notícia do primeiro filho deste duo – literalmente. Só não sei se o CD substitui a árvore naquela máxima de que todo homem só se realiza plenamente depois de escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore...
Mesmo compondo para a belíssima voz de Maísa – que passeia com segurança entre graves e agudos, esse mineiro cosmopolita propõe uma aventura pela contramão dentro da própria música. Em “Cantango” (um tango-com-jeito-de-fado), ele diz literalmente: “tens tanto medo de errar o tom que não percebes o quanto é bom pôr-se a cantar, assim sem um dom, sem se importar com a voz, o som”. Suas intervenções vocais em “Danaide” e nos shows, com um quê de Arnaldo Antunes, são os melhores testemunhos de tal proposta.
Felizmente, a música e a poesia de Makely também seguem em mão dupla. Nomes como Titane, Ná Ozzetti, Alda Rezende, Virgínia Rosa, Regina Spósito Suzana Salles, Marina Machado e a própria Patrícia Ahmaral já gravaram e/ou cantaram as suas canções. Uma prova de que contramão, artisticamente falando, passa bem longe do que não é legal.
(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 08 de setembro de 2006)
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