
LITERATURA E ASTROLOGIA
Renato Pedrekal
Tentemos imaginar o perfil clássico de um escritor: um profissional que trabalha em casa, solitário, entregue aos seus pensamentos e sensações; às suas pesquisas e lembranças. No (desas)sossego do lar, na proteção das quatro paredes, a busca pela inspiração, muitas vezes na travessia das noites. Um notívago, muitas vezes boêmio; emocionalmente instável, delirante, louco; um inspirado, um arqueólogo das emoções, um inquilino em sua própria morada. Bem, estamos falando, precisamente, de um tipo lunar. Ou de um canceriano clássico.
A lua rege os escritores, através do desencadeamento das emoções e da instabilidade destas. A fluidez noturna permeia os tons nos quais vai o escritor beber a fim de então destilar suas posturas, seus desejos, seus medos. A imaginação, o labor quase-látego da busca pela tradução do inefável, a “fúria de mergulhador cego”, da qual falava o (canceriano) Neruda, tudo leva à lua e é por ela guiado. Falemos, porém, em termos arquetípicos, não necessariamente da relação indivíduo/signos astrológicos.
No estudo dos arquétipos astrológicos aprendemos que cada signo cumpre uma função de depurar e “limpar os excessos” do signo anterior. Câncer (regido pela Lua), subseqüente a Gêmeos, extrai deste a essência da comunicação (falada), desnudando-a e trazendo sua essência. Os decanatos do signo de Câncer (regidos por Câncer, Escorpião e Peixes, todos signos aquáticos) exigem sensibilidade, profundidade e devaneio. Imaginação e linguagem sutil, embora exata (Escorpião rege as cirurgias, pela co-regência de Marte no signo). Quem se aventura pela escrita, naturalmente, traz consigo uma grande dose de sensibilidade (normalmente incompreendida entre seus pares) e uma certa anti-sociabilidade (foco na profissão, não tanto na vida pessoal, embora esta seja uma das profissões onde ambos mais se confundem – mesmo enquanto ficção). Um certo distanciamento do modus operandi do signo anterior: a comunicação falada. Os signos de água são “mudos”, o que quer dizer concentrados em suas próprias emoções. Para estes signos, o real é o emocional, conforme o preceito gideano: “Sinto, logo existo”, ou “Não me é real nenhum pensamento que uma sensação não o tenha precedido” (cf. “Os Frutos da Terra”). Por outro lado, a Casa IV (Câncer, Lua) é também a Casa das finalizações, o que por si só liquida a tagarelice típica dos geminianos, necessitando de uma finalização, um fechamento. O fluxo de comunicação geminiano, muitas vezes perdidos em elucubrações improvisadas, fere a natureza literário-canceriana, que necessita de nutrição dos sentimentos, muito mais do que de informações. A leitura apaixonada, nutritiva será sempre mais essencial do que a informativa, falando de modo geral. Um tema que “pega” o leitor atrai mais do que a informação, ainda que dela ele necessite: a obrigação de “ter que ler” constitui-se, certamente, num dos castigos dos quais todos recordamos: o pavor das épocas ginasiais. Câncer, polar a Capricórnio, não é muito afeito à perseverança e à responsabilidade típicas de Capricórnio. Imaginar um escritor escrevendo “por obrigação” é desejar mal a um inocente, apesar dos “ossos do ofício” a que todas as profissões estão submetidas.
A título de ilustração (de novo lidando com arquétipos, não com indivíduos pertencentes a determinados signos, posto que uma caracterização apenas pelo signo solar é bastante genérica), poderíamos dizer o seguinte:
A escrita ariana seria caracterizada pelo ímpeto e arrojo das primeiras sensações, pouca paciência e nenhuma disposição a correções ou acréscimos. Textos “desbocados”, escatológicos, manuais de guerra, textos curtos e/ou enxutos. Textos sobre liderança: incitando, instruindo sobre ou desempenhando o papel de líder. Cartas ou e-mails agressivos, sem pensar, arrependimento posterior, “já foi, dane-se”. É o pioneirismo, a “semente” deixada para frutificar mais na frente. O jorro inicial, não necessariamente sensato, nem responsável. O “big bang”, o tiro de largada. A escrita que semeia, incita, encoraja, a chamada para a luta. Cazuza: “Neruda disse ‘Feche o livro e vá viver’. Eu fui”.
O texto taurino prima pelo bom senso, delicadeza, parcimônia. Poesia romântica. Palavras doces, bilhetinhos amorosos, sensualidade. Livros sobre culinária, jardinagem, música. Preguiça ou demora ao responder; senso de utilitarismo, “isto vai servir pra quê?”. Textos ligados a finanças ou a perspectiva de obtenção de dinheiro via publicação. Um texto que visa estabilizar uma situação, ou mantê-la.
A comunicação geminiana é sagaz, criativa, algo prolixa. Bem humorada. Piadinhas, chistes. Diálogos, inovações. Papéis, personagens, o outro falando comigo ou por mim. Multidões comunicando-se num mesmo interlocutor. O cotidiano colocado no papel, referências à vizinhança, parentes próximos, irmãos, tios. Viagens curtas, manuais de turismo. Ler ou escrever em viagem, palavras-cruzadas, cartas. Livros interativos, do tipo “se deseja o final tal, vá até a página tal”. O geminiano interage com o que lê de forma imediata (o ariano talvez rasgasse um livro de raiva do que leu ou beijasse apaixonadamente um do qual gostou; um taurino precisa ruminar, digerir seu conteúdo). A escrita é uma das maneiras do geminiano mostrar sua excelência e seu gênio, sobretudo no aspecto mais espirituoso do signo. É também o signo dos jornalistas, da notícia imediata, manchetes; fofocas e boatos. Revistas de consultório, cabeleireiro etc.
Câncer é o memorialista do zodíaco, aquele que se lembra de detalhes do passado que ninguém mais lembra. O saudosista, nostálgico; também o historiador, o poeta ultra-sensível, as coleções, os sebos literários. Tudo o que é antiguidade, raridades, velharias (conforme o apreço de cada um). É a imaginação fértil, a gravidez literária, a nutrição e as raízes do escritor. Forte ligação com a terra natal, com os pais, antepassados. A Câncer interessa muito mais a imaginação do que a comunicação; o emocionar o leitor (como a si mesmo, ou reconhecendo-se nele), em vez de informá-lo. A genealogia; o escrever o que não se pode dizer, o expressar a tormenta do amor secreto, quando de outra forma jamais poderia fazê-lo. Câncer tudo sente, nada fala: então escreve.
Leão é auto-referente e altamente criativo. Sua vida como obra de arte, seus fatos enquanto fábulas ou grandes aventuras. A biografia, o escrever enquanto integração pessoal, o descobrir-se à medida que escreve. O brilho da poesia jorrada do coração, o ouro encontrado dentro e atirado para fora de si. Livros infantis, livros de jogos, brincadeiras, passatempos. Escrever como hobby, lazer. A escrita do leonino interessa sobretudo a ele mesmo e sua grande contribuição é no sentido de que o leitor possa identificar-se com a história que lê, encontrando nela uma dica de como acessar a sua própria biografia, ou seja, a descrição do Eu enquanto exemplo para o leitor.
Virgem é um signo de escrita técnica, perfeccionista, depurada. Frases curtas, livros curtos. Escrever o que é essencial, útil. Sutileza e detalhismo. Poder descritivo, grande capacidade analítica. Manuais, cartilhas, livros que ensinam direta ou indiretamente. Livros sobre saúde, higiene, coisas funcionais. A busca da palavra certa, do texto enxuto, da supressão de qualquer excesso. Escrever, anotar, riscar, reescrever, anotar, riscar. Senso auto-crítico, “auto-correção”. Revisores. Realismo.
Libra divide com Touro a (co)regência de Vênus. Textos sobre arte, beleza, decoração, arquitetura; criatividade em jogos de palavras, trocadilhos, espirituosidade. Palavras inventadas, sobrepostas (como em Lewis Carrol e John Lennon). Cartas de amor, declarações. A clássica frase de Rimbaud (outro libriano),“Eu sou outro”, é uma definição precisa da natureza deste signo, posto que é no interagir que se conhece mais a respeito de si mesmo, no caso de Libra. Textos sobre pacifismo, documentos referentes à diplomacia.
O texto de Escorpião vai no nervo, na essência. Temas incômodos, tabus. Sexo e morte. Escrever como quem se salva, se finda, ou com esta finalidade perante o leitor (ressuscitar ou aniquilar). A escrita das entranhas, a intimidade que não se deve(ria) revelar, o pudor na escrita. Cartas e diários secretos. Bilhetes de ameaça ou vingança. Esconjuros, maldições ou a cura pela palavra, o escrever como quem faz sexo, o purificar-se pelo ato de escrever; escrever como quem se limpa, lava, purifica. O ato fatal, a última coisa a se fazer, o fim. Bilhetes suicidas. O encarcerar-se, o escrever como quem morre. O tesão, o convite “obsceno” ou o bilhete como prova, chantagem. A psicologia profunda, a sondagem do inconsciente, a relação entre aspectos aparentemente desconexos, o mistério; Freud, sexo, tabu; o submundo, os subterrâneos, a marginalidade.
A linguagem de Sagitário é basicamente filosófica. A busca pelos altos vôos literários. A literatura dita “clássica”, os cânones. A literatura religiosa e os grandes exemplares da religião (Bíblia, Alcorão, Bhagavad Gita etc). Livros de fòlego. A intuição como passaporte para a sabedoria, o escrever enquanto superação do animalesco-instintivo, o domar-se em função do refinamento da alma. A escrita errática, pretensiosa, “espaçosa”. Erudição. Muitos volumes, enciclopédias, tudo que é “grande”, “muito”. Dicionários, o livro “tijolo”. Leitor voraz, escrever e ler como forma de expansão interna. A publicidade, a publicação, a grande mídia. Literatura dramática, dramaturgos.
Capricórnio é o escritor técnico e/ou sensível. É a escrita utilitária e também a escrita poética e altamente simbólica. A escrita política, documentos oficiais, memorandos. A escrita oficial, leis, constituições. Escrita sobre economia, padrões, regimentos. O escrever responsável, terreno, material, concreto. Menos inspiração, mais labuta, o fazer, o aperfeiçoar. O trabalho em silêncio, a pesquisa, o tempo como aliado. As grandes obras da velhice, o ponto final em tudo o que se escreveu. O velhinho sábio de muitos livros escritos. A censura (limite) interna. A escrita a ser desvendada, enquanto portadora de emoções contidas, excessivamente trabalhadas, laboradas.
Aquário é o ficcionista, o futuro, a inovação. O diferente, a surpresa, o inesperado. Também o reformista, o rebelde anárquico. A quebra de padrões, o ir além dos limites, o novo e desconhecido. A internet, a escrita rápida, o relâmpago. A escrita voltada para o humanismo e as causas humanitárias. Também a frieza, a indiferença, o escrever como quem “gela”. A inteligência que sempre vê o outro lado, a ponderação mais geral em termos de humanidade. O inusitado, a gíria, a palavra nova. O inconformismo com o pré-estabelecido. Um chute no ontem e uma piscadela pro amanhã.
Peixes escreve em torrentes, é o drama, o sonho, a poesia. A escrita carcerária, as cartas dos presos. O escrever desamparado, o texto solitário aos soluços. Também as grandes obras místicas, as conexões com o Sagrado, as preces e orações. O texto dos loucos, Bispo do Rosário. A conexão misteriosa, o significado escapadiço, as reticências. Romantismo deslavado, fotonovelas, dramalhões. Livros sobre cinema, música, teatro, mímica, mágica. Magia. Textos secretos, obras de iniciados, seletividade.
(texto publicado originalmente na revista literária eletrônica VERBO21
http://www.verbo21.com.br)

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