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Casamentos, crises e soluções
Roberto D´arte
Há
algum tempo, em uma entrevista à revista Veja, o ator Will Smith fez uma
análise curta e direta sobre o relacionamento a dois, dizendo-se “um estudioso
da interação entre homens e mulheres”. Apesar do seu tom jocoso, ele resumiu
muito bem um tipo de casamento vivido por milhares de pessoas mundo afora.
“Dedicamos quarenta, sessenta ou até oitenta
horas por semana ao trabalho, porque isso é necessário para fazê-lo bem feito.
De onde tiramos a idéia de que bastam vinte minutos de atenção a um
relacionamento, encaixados no meio de todas as nossas outras obrigações, para
que ele seja bem-sucedido? Se passássemos só meia hora por semana no emprego,
seríamos demitidos. E isso é o que acontece com muitos casamentos: faltamos ao
trabalho e perdemos o emprego."
Muitos
relacionamentos acabam por pura incompetência dos casais. Leia-se incompetência
a capacidade de administrar bem o cotidiano do namoro, do casamento, que
envolve todo tipo de rotina. Ao contrário do que muitos possam pensar, a rotina
só é ruim se seu conteúdo for ruim. Há rotinas maravilhosas que merecem ser
mantidas como tais exatamente por trazerem bem estar e felicidade.
Como
este é um tema amplo, profundo e um tanto polêmico, resolvi garimpar opiniões
num espaço que gosto muito, mas que não visitava há algum tempo devido aos
muitos afazeres profissionais dos últimos meses. No fórum de debates da
comunidade orkuteana “Café Filosófico ´Das Quatro´” tem sempre em pauta algum
tópico interessante.
Num
deles – intitulado “Casamento em crise?
Por que tantas separações?” – homens e mulheres de idades variadas deixaram
alguns pontos interessantes para reflexão. Alguns compartilham da opinião de
que o número de separações cresceu pela libertação da mulher em relação a
quase todos os preconceitos que havia até a década de 1980, além da sua entrada
no mercado de trabalho, que trouxe mais independência financeira e,
consequentemente, mais liberdade de escolha.
O
depoimento de uma mulher na casa dos 40 anos resume bem um dos principais
motivos de desgastes e separações. “Eu me
casei muito cedo e fiquei mais de 15 anos casada. Foi ótimo enquanto durou.
Acho que o que peca na relação é a falta de diálogo quando as coisas não vão
bem. Você não comenta o que vai mal por medo que o outro fique magoado, e isso
é um erro fatal, porque depois você acaba tendo atitudes que no fim irão acabar
magoando de qualquer forma o outro. Acho que o diálogo é importantíssimo numa
relação, e não adianta fingir que está tudo bem para não criar caso. Tem que
criar, sim, se for para salvar a relação”.
Uma outra mulher, desta vez na casa dos 30 anos,
argumenta que o casamento sempre esteve em crise, embora esta seja uma crise
necessária para as superações essenciais à felicidade da própria relação. “Acredito fielmente que as separações são
decorridas de casais que acabam aprisionando as pessoas a uma série de
comportamentos que um dia culminam no precipício da desilusão assumida e na
rotina do dia-a-dia; as fazem refém de uma situação sufocante e anuladora de
suas vontades e até mesmo de seus valores. Casamento feliz talvez seja aquele
em que a felicidade de um esteja na felicidade do outro; aquele em que ambos
reconhecem seus defeitos e convivem com seus próprios e também com os do outro;
aquele onde a rotina não se transforma numa corrosiva ferrugem(...)”
Sou
daqueles que ainda acreditam na força que mantém unidas as famílias, as
amizades verdadeiras, os casamentos. Não acho que o problema esteja em qualquer
uma dessas “instituições” aperfeiçoadas pelo ser humano. Quando alguma delas se
deteriora a culpa é única e exclusivamente da perda do amor próprio e do amor
pelo outro; do cultivo exacerbado do egoísmo e do ciúme. Da mesma forma que é
possível uma amizade durar a vida inteira, é possível um relacionamento a dois
manter acesa a mesma chama de amor que um dia o fez nascer.
P.S.: Este texto é dedicado a Luciana, que compartilha
comigo o ideal de amor possível, vivido com intensidade e cultivado todos os
dias.
(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, em 15 de dezembro
de 2006)
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