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Donos da Terra e da Lua
Roberto D´arte
Está
mais do que provado que é infinita a capacidade do ser humano de se superar em
termos de irracionalidade. Como se não bastassem todas as suas ações que
desembocam na degradação do próprio planeta em que vive, o que o tornará
inóspito para as próximas gerações daqui a bem pouco tempo, ele não pára e quer
mais.
Recentemente
vi a seguinte manchete estampada nos principais sites de notícia do país: “israelenses
já compraram 10% do território da Lua”. O conteúdo, tirado de uma reportagem
publicada pelo Jerusalem Post, menciona que cerca de dez mil israelenses já
compraram lotes de terra na superfície lunar ao preço de 47 euros (mais de 130
reais) por meio hectare (5 mil metros quadrados). Ao todo, ainda de acordo com o
jornal israelense, foram adquiridos 10% dos cerca de 40 milhões de km2
da superfície lunar disponíveis para a venda a civis.
Por fim, a matéria ressalta que os
compradores israelenses argumentaram que estão adquirindo terrenos para seus
netos. Esse tipo de compra se tornou legal em 2000 e cresce a cada ano, fazendo
com que o preço dos lotes na Lua suba com o desenvolvimento dos programas
espaciais norte-americanos.
Enquanto isso, cá na Terra, segundo
dados da ONU (Organização das Nações Unidas) de 2005, mais de um bilhão de pessoas no mundo vivem com menos de 1
dólar (pouco mais de 2 reais) por dia; 11 milhões de crianças morrem a cada ano
de doenças que poderiam ter sido evitadas (a cada quatro minutos uma criança fica cega
por falta de vitamina A e a cada sete segundos uma morre devido à desnutrição);
840 milhões de pessoas vivem com fome crônica (100 mil morrem todos os dias por este motivo)
e outro bilhão não tem acesso à água potável.
A
irracionalidade não termina aí: os israelenses que querem construir colônias de
férias fora da Terra fazem parte do 0,1% da população mundial que possui 54% de
toda riqueza produzida no planeta. É realmente impossível alguém ser feliz num
mundo com tamanha desigualdade.
Essa discrepância
é tão irracional que motivou a produção de um documento da ONU de três mil
páginas (encadernadas em 13 livros) – batizado de “Metas do Milênio”. Ele não
só assegura ser possível extinguir a miséria no mundo, como aponta as soluções para
isso. A primeira delas destaca que se os países ricos cumprissem a promessa de
investir 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em ajuda ao desenvolvimento – percentual
este definido num acordo firmado em 1970, mais de 500 milhões de pessoas
poderiam sair da miséria e dezenas de milhares escapariam da morte já na
próxima década. Por exemplo, ações simples como colocar mosquiteiros na cama de
crianças bastariam para salvar a vida de milhares delas que vão morrer por
causa da malária na África e na Ásia.
Os
relatórios da Organização
das Nações Unidas informam que apenas cinco dos 22 países mais ricos estão
aplicando 0,7% do PIB em ajuda às nações mais pobres: Dinamarca, Luxemburgo,
Noruega, Holanda e Suécia. Outros seis – Bélgica, Espanha, Finlândia, França,
Grã-Bretanha e Irlanda – se comprometeram a alcançar esta meta em 2015. Por
outro lado, Japão, Estados Unidos e Alemanha estão longe de investir o
prometido. Apesar de serem os mais ricos do mundo, os norte-americanos só
investem 0,15% de seu PIB em ajuda aos pobres.
Quanto
aos países de renda média, como Brasil, China, Malásia, México e África do Sul,
a ONU garante que eles têm condições de acabar sozinhos com seus bolsões de
miséria e ainda podem ajudar Ásia e África. Por que não acabam? Nós,
brasileiros, sabemos muito bem os principais motivos das nossas mazelas sociais...
Tomara
não seja tarde demais para entendermos que a miséria alheia em algum momento da
vida representará a derrocada de todos. Nesse ponto da história riqueza alguma
fará a diferença, nem para os que estiverem na Lua.
(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE,
Viçosa-MG, em 12 de janeiro de 2007)

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