
Antídoto para o pior veneno
Roberto D’arte
O ser humano, que se vangloria de ter atingido o ponto mais alto na evolução das espécies, conseguiu produzir o seu pior veneno: o ódio. Nada pode ser mais letal do que um sentimento capaz criar outros tantos não menos negativos, como a cobiça, a inveja e a prepotência. O ódio cega, mata e consegue forjar doenças no corpo, na mente e no espírito.
Esse veneno, quando destilado, encontra na boca uma de suas principais portas de saída. Mentiras, boatos e maledicências são apenas alguns dos formatos de um ódio nem sempre acompanhado de sua mais fiel companheira – a ira. Há os que odeiam com frieza calculada; os que maquinam planos para fazer nascer e espalhar as desavenças; os que trapaceiam para ver a derrocada do próximo...
Uma passagem bíblica do Novo Testamento ressalta que “o que contamina o homem não é o que entra, mas o que sai da boca”. Esta frase, inclusive, inspirou a música “O mal é o que sai da boca do homem”, sucesso da banda Novos Baianos, numa autoria de Baby Consuelo, Galvão e Pepeu Gomes. O que as pessoas falam nem sempre traduz o que sentem ou pensam; pode ter invólucro de mel e conteúdo de puro fel.
Ninguém escapa de ser vítima desse mal. Em casa, na escola, no clube, na igreja, no trabalho e na rua; não há lugar que esteja isento dele. É possível que existam demônios que afrontem tudo de belo e grandioso na obra divina; é possível até que eles possam ser responsabilizados por esse mal ou confundidos com ele. Mas a força para negá-lo cabe a cada um acionar em si, não importando por qual via.
Uma dessas vias foi apresentada pela escritora norte-americana Eleanor Hodman Porter, que em 1912 lançou a novela “Pollyanna”. O título é uma referência ao nome da personagem principal – uma menina órfã de mãe que inventou um artifício (o “Jogo do Contente”) para continuar tendo esperança, entusiasmo e otimismo na vida.
O jogo nasceu depois que Pollyanna pediu de Natal uma boneca que desejava há muito tempo, e em seu lugar recebeu (por engano) um par de muletas. Quando a menina começou a chorar pelo infortúnio, seu pai a consolou dizendo que ela deveria ficar contente exatamente por constatar que não precisava daquele presente. A personagem ficou famosa no mundo inteiro e o Jogo do Contente ganhou milhões de adeptos e também um número semelhante de críticos ferrenhos. Estes últimos costumam dizer que Pollyanna incentiva as pessoas a terem uma visão comodista e ingênua do mundo.
Eu li a obra no início da adolescência e confesso ter feito parte do time dos que jogam pedras na teoria que sustenta o tal jogo. Certamente na minha adolescência – fase em que os pensamentos arrogantes se voltam contra tudo e todos – eu não conseguia entender bem que a estratégia de Pollyanna tem base no dizer não ao ódio e a tudo que dele advém. O Jogo do Contente é uma negação do mal que sai da boca. Mais até: é a tentativa de produzir um antídoto para este veneno.
(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 1o de junho de 2007)
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