Esperança, mais do que otimismo
Roberto D’arte
Às vezes me pego assustado com o crescente número de pessoas que se declaram vítimas da depressão. Ao que tudo indica este é um dos piores males deste novo milênio.
Se antes era uma doença peculiar da vida adulta, agora ela também afeta crianças e adolescentes. Estes ainda sequer têm estrutura emocional para entender a dimensão dessa espécie de buraco negro, que parece sugar todas as manifestações de vida e luz que dão sentido à existência humana.
Qualquer um está passível de ter depressão. Quem já não acordou com aquela incômoda sensação de que falta alguma coisa para dar sentido à vida? Algo como um vazio que conteúdo algum disponível à mão é capaz de preencher.
Pode até parecer exagero ou um despropósito descrever ou visualizar tal estado de espírito, mas que ele existe, existe. Talvez esse vazio – repentino ou duradouro – possa significar algum aviso de que estamos precisando de uma pausa para nos perceber melhor. Ou pode até ser, quem sabe, como aquele fio solto da roupa que, puxado pouco a pouco, a desfaz inteira.
Nem sempre as pessoas dão crédito aos sinais que apontam a chegada de um estado depressivo. Nem as que os sentem nem seus familiares e amigos. É justamente aí que reside o erro. A depressão pode deixar seqüelas ou mesmo levar à morte.
Mesmo não sendo um especialista capaz de diagnosticar tal doença, tenho convicção de que normalmente uma pessoa deprimida apresenta como principal sintoma a desesperança. E falta de esperança é o mesmo que falta de projetos para o futuro, que, por sua vez, deixa o presente vazio de sentido.
Para alguém em depressão um dia ensolarado chega a ser uma afronta. Nesse estado a luz interior se encontra apagada e qualquer claridade maior ofusca os olhos d’alma, já imersos na escuridão. Não é à toa que se costuma dizer que uma pessoa assim chegou ao fundo do poço. Para quem se deixa dominar por essa doença continuar na superfície já é se expor demais.
O educador e psicanalista Rubem Alves, numa de suas ótimas crônicas, faz uma diferenciação entre otimismo e esperança – dois grandes antídotos para a depressão. Ele tenta mostrar que, mesmo parecendo sinônimos, esperança é o oposto do otimismo. “Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração”, definiu.
Ele diz ainda que o otimismo tem suas raízes no tempo, enquanto a esperança tem suas raízes na eternidade. Que o otimismo se alimenta de grandes coisas; já a esperança se alimenta de pequenas coisas. “Nas pequenas coisas ela floresce. Basta-lhe um morango à beira do abismo”, ressaltou o escritor mineiro.
Se é possível encontrar diferenças tão significativas entre otimismo e esperança, o que dizer das diferenças entre apatia e otimismo, vazio e esperança? Talvez o primeiro passo para quem já esteja à beira do abismo ou mesmo no fundo dele seja olhar para o lado à procura de um morango, ao menos.
(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 03 de agosto de 2007) |