Lobo do lobo
Roberto D’arte
Uma das maiores máximas do Cristianismo depois do “amai-vos uns aos outros” é o “atire a primeira pedra aquele que nunca pecou”. A primeira é o pilar ideal de qualquer sociedade que busque chegar a algum estágio harmonioso de convivência. Como desde o alvorecer da humanidade não foi possível ver isso na prática, o amar ainda se apresenta como um gesto isolado, muitas vezes marcado pelo egocentrismo e até por atos de plena loucura em seu nome.
A segunda é uma lembrança ao ser humano de que ele deve julgar a si mesmo antes de pretender fazer o mesmo com o outro. É também uma pausa para que avaliemos nossos defeitos, mergulhando a fundo neles com a sincera intenção de superá-los. O problema é que muitos têm nessa fala de Jesus (usada para proteger Maria Madalena da fúria popular) um álibe perfeito para justificar todo e qualquer erro e, mais até, para continuar insistindo nele.
Se a justiça divina é sempre invocada para aplacar a dor de pessoas que não conseguem superar os traumas que as colocaram na condição de vítimas, o que se espera da justiça humana é que ela consiga tornar possível a solução de conflitos extremos. Quando a instituição Justiça não consegue tornar isso possível, as peças enfileiradas do dominó da insegurança caem em sequência, anunciando a sombra do caos.
Na semana passada a novelista da Rede Globo, Glória Perez, disse à imprensa que a justiça havia sido feita e que, por isso, ela estava em paz. Sua declaração teve a ver com a decisão judicial que negou o indulto ao ex-ator Guilherme de Pádua, condenado pelo assassinato da atriz Daniela Perez em 28 de dezembro de 1992.
Questionada sobre a hipótese de Pádua – que cumpre a pena em liberdade – vir a processá-la por ter sido classificado publicamente de psicopata pela novelista, Glória Perez disse o seguinte: “como se pode definir um indivíduo que embosca uma colega de trabalho, espanca, assassina com 18 punhaladas, joga o corpo num matagal e menos de duas horas depois está abraçando a família dela na delegacia? Ele declarou que se não fosse descoberto, continuaria gravando a novela no dia seguinte e que a Dany morreu na hora que Deus quis. E mais: refere a si próprio na terceira pessoa. Isso é um psicopata!”
Não é à toa que a perfeição é uma meta impossível para o ser humano. Como julgar uma pessoa que passa pelo que passou Glória Perez e sugerir que ela ame o outro quando esse outro é o assassino de sua filha? Como pedir para que ela não atire a primeira e todas as pedras que tiver quando vê a Justiça cogitar a possibilidade de premiar com o perdão absoluto quem tirou a vida daquela a quem deu à luz?
Os lobos em pele de cordeiros, como Guilherme de Pádua, são as maiores feridas aos que imaginam ser possível se viver bem. Eles são termômetros para se medir até que ponto a bondade humana pode ir, até onde a palavra justiça pode ser sinônimo de limpeza moral, de paz. Pessoas como os jovens de Brasília que atearam fogo no índio Galdino, ou como o médico Rodrigo Villaça – assumidamente adepto da pedofilia e do abuso de crianças, desafiam os que defendem incondicionalmente os conceitos de amor e perdão.
Ao contrário do que se possa crer, o maior desafio da humanidade não é inventar o inimaginável em termos de tecnologias científicas. Foi, é e sempre será a contínua necessidade de se lapidar o espírito. O filósofo Thomas Hobbes já disse que a sociedade nunca terá harmonia porque o “homem é o lobo do homem”. Resta saber se é possível reverter esse quadro, como sugere Caetano Veloso em uma de suas canções: “sejamos o lobo do lobo do homem”.
(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 30 de novembro de 2001)
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