Pequena digressão sobre o Clube sem portas Renato Pedrekal

O Clube da Esquina fechou suas portas. O Clube da Esquina nunca teve portas. Diz-se que em Minas não há mar. Os escafandristas do Clube da Esquina, moleques da alma, provaram que isso não é verdade. Não existe cidade sem mar, Belo Horizonte não seria exceção. Como um horizonte seria belo sem mar? Os escafandristas da alma beberam-no inteiramente. O cinema, a música, a psicologia, a poesia - todos são frutos do mar. Todos foram sondados pelos escafandristas. Os meandros da alma, os porões do sentimento, a força que ressurge das cinzas para os que se dispõem a se atirar nos abismos das emoções - sábios de asas firmes, nietzscheanamente embebidos de coragem e fé. Milton Nascimento é quase mudo - como os peixes, habitantes das profundezas, residentes de conchas em cujas superfícies já se vê reluzir a pérola oculta nas entranhas. Milton toca não o instrumento, mas através dele. Então Milton encontra suas palavras na pena de um poeta Fernando - tinha que ser um outro Fernando, uma Pessoa. Esse que sonda as excelsas alturas da imaginação, envolvendo-a em plena realidade. Esse que não desiste de seguir, nem de incitar - as claras marchas que alegram o porvir. E olha que muito se fez noite em seu viver, nos confidenciou ele, de cara, na lata. Márcio Borges, o menino denso, criou estrelas-do-mar nas mãos, quando o mar assim deixava. Márcio precisou de câmera - não é sempre que o mar se mostra a olho nu. O Clube da Esquina é um clube de videntes, rimbauds das esquinas que preferem um café com leite vivos, bem vivos - a grande overdose é viver. E de preferência espiando, espreitando, que mineiro não é de jogar conversa fora. O Clube da Esquina jogou conversa dentro. Diz-se que alguns "gringos" vieram procurar o Clube da Esquina. Alguém devia ter-lhes dito: procura no mar. Que mar? Bem, não se pode forçar uma percepção. O coração dos meninos também não é de ferro. E no clube tem muita molecagem. Ronaldo Bastos conhece o mar de perto, supõe-se. Supõe-se porque ele viu logo que em Beto Guedes havia mar. Havia translúcido raiar de Sol numa manhã para sempre dourada. De Setembro a Setembro. Bruxo Tavinho, bruxo Tavinho Moura. Embrenha-se nas matas e de lá traz feras domadas em harmonia, viagem das mãos. Dele, suas, nossas, todas as mãos, entrelaçadas na doçura dissonante que parece que não cabe - mas cabe, Luz suprema. Lô. Quando se nasce sábio, salvo - uma rocha contemplando seus companheiros. Não é fácil encontrar a delicadeza das rochas, ainda mais oceano a dentro. Qual a resposta, Lô? Ah, sei... Nas estradas, pó poeira, ventania. "O que você pensa que são os tênis na capa. Eu andei, cara. O caminho se faz ao andar, não é assim?". Lô andou muito antes de nascer, por isso já nasceu pronto, tinindo. Mas, humildemente, finge que aprende, enquanto vai ensinando. Os escafandristas sabem que ficar de frente para o mar e de costas para o Brasil não vai fazer desse lugar um bom país. Há que se ficar DENTRO do mar, por isso se mergulha tanto em Minas. O que o Clube não prescreveu, o que não está escrito em sua bula inexistente, é que há, além do Mar de Minas, miragens dele: é por isso que se vai tanto aos bares em Minas: a névoa, a fuga, a impotência indecente, a perda de indignação, a alienação, o equívoco - e a dor de enforcados, dos pelourinhos da alma. É por isso que também existe música ruim em Minas, e letristas abaixo do subsolo, e psicanálise de boteco fora do boteco, porque também se embebeda através de idéias tortas via pretensão e arrogância. O Mar, símbolo do inconsciente, às vezes engana, confunde, trai. O Clube da Esquina, no entanto, tinha sereias como fãs, como ídolos, não como inimigas, não como assassinas. Vacina de geração, certamente. Nada mais se questiona em mesa de bar - embebeda-se, esquecidamente. Não mais sorrisos - gargalhadas grosseiras. Porque não se vê o Mar. Embora, os moleques do Clube da Esquina sempre o tenham visto, sempre tenham nadado nele, sempre tenham mostrado como ele é - sempre tenham sonhado acordados o milagre do viver. E dos peixes.

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