Sono Mineiro
Roberto Massoni
Minas Gerais prepara-se para dormir. Inverno. Frio nas montanhas é o óbvio. O que não é óbvio é um coração pulsando desarvorado – tonta aflição – Sou diferente. Essa diferença grita. Ergue uma ponte, flagelo de idéias, A liberdade é uma esperança – mas onde? ou quando? Morrer seria fácil: bastava coragem. Maior coragem é permanecer vivo, Filho da Mãe Dúvida e seus tentáculos, como guiar-se no percalço da vida? Interrogações na noite mineira e triste tristeza que resume saudade de tudo, do que vivi e os dias consomem, do que vivo e me espanto, do que viverei - e me espanto ainda mais. Porque no futuro o duro retrato se faz, é preciso correr, re-inventar a magia, criar sobretudo e sobretudo amar, tudo distante – o futuro é ôco, eu sei. Minas Gerais prepara-se para dormir, sonharei minhas indecências feliz, amanhã acordo: é sábado, haverá sol. Aos pouco, densamente, o frio das Minas Gerais vai penetrando na minha alma, seus vales e montanhas e gente opaca, triste, pobre, perdida nestes vilarejos sem fim, aos pouco tudo isso isto vai me tomando, sem me poupar, engolindo minha sensibilidade, nas suas pequenas ruelas escuras, empinadas, é preciso coragem, mais: um pouco de silêncio e a gravidade de se querer tocar em sua poesia. Minhas dúvidas, teus passos, nossa estrada Minas dormirá, os sinos da Matriz darão notícias, a noite será funda e densa, mas cheia de estrelas. Sei que um dia deixarei estas Minas Gerais para sempre, a marca que ela me deixou / deixará é também eterna, serei assim grato à alma mineira por ter-me revelado o deserto à sua maneira. Deserto em que reinamos felizes: os das palavras e dos descontentamentos de tudo e de todos. Minas Gerais prepara-se para dormir.
(Viçosa-MG, 10 de julho de 1992) |