DENTROD´ARTE

Apresentação

Lançado em 3 de junho de 2005, o DENTROD´ARTE é destinado à divulgação de textos de autores ainda não muito conhecidos do grande público. É um blog para os amantes da arte feita com palavras, imagens e, principalmente, com o coração. DENTROD´ARTE porque as ebulições da arte nascem dentro d’alma! CONTATOS: dentrodarte@yahoo.com.br


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Sob a luz da disciplina

                                                                  Roberto D’arte

 

            Tem sido um consenso entre educadores de todo o país que as crianças e adolescentes das novas gerações precisam de mais disciplina em sua formação. A família e a escola – instituições elementares na formação de qualquer pessoa – já não estão conseguindo dar conta de lidar com esse público, cada vez mais indisciplinado e arrogante no trato entre si e com os adultos.

           Muitos depoimentos de pais e professores revelam uma situação preocupante, que talvez ainda não tenha sido devidamente dimensionada em estudos atuais sobre o tema. Se antigamente a educação era rígida demais em casa e na escola – a ponto dos castigos físico e psicológico serem justificados como necessidades quase pedagógicas, atualmente a falta de disciplina e o excesso de autonomia deram às crianças e aos adolescentes um poder maior do que eles conseguem administrar.

          Para entender a frase “disciplina é liberdade” (de autoria do compositor Renato Russo) é preciso aceitar que nenhuma liberdade pode ser obtida sem um esforço contínuo. Uma pessoa não pode ser considerada livre se a sua liberdade pressupõe a opressão do outro. Assim, ser livre é “ser-livre-com”, levando-se em consideração que depois deste “com” cabem inúmeras palavras-conceitos, a exemplo de “responsabilidade”, “solidariedade”, “respeito”, “gentileza” e “amabilidade”.

          Para muitos a disciplina é vista como sinônimo de rigidez, de uma postura típica do universo militar. Como, então, imaginá-la uma base para a liberdade? Vários pais que romperam com modelos tradicionais de educação, taxando-os de excessivamente rígidos, vivem às voltas com as conseqüências do outro extremo dessa posição. Eles deram aos seus filhos uma liberdade com a qual estes não sabem lidar. O resultado é o crescimento do número de crianças mimadas, prepotentes, despreparadas para respeitar o outro e precoces nos aspectos mais negativos disso. Normalmente elas se tornam adolescentes desamparados, sem rumo e com um visível medo de crescer.

          É este público que compõe a maior parte das escolas do Brasil e do mundo na atualidade. Se num passado não muito distante um bom professor tinha apenas que ter conteúdo e ser um pouco policial, agora ele precisa infinitamente mais. Tentar educar uma criança ou um adolescente na sala de aula é estar disposto a ser professor, policial, psicólogo, terapeuta, sociólogo, pai, amigo, artista...

          Exageros à parte, a verdade é que a escola vem abarcando responsabilidades que cada vez mais escapam das mãos dos pais. Há quem admita não conseguir mais delimitar os espaços e as ações dos filhos. E limite é algo que a sociedade vai necessariamente impor a todos que queiram fazer parte dela. Neste sentido há liberdade, sim, na disciplina. Todos – crianças, adolescentes e adultos – têm tarefas a cumprir no mundo socialmente organizado. Criar filhos com mordomias e sem responsabilidades é querer que eles sejam acomodados e incompetentes mais tarde.

          A liberdade individual tem que existir de forma harmônica com a liberdade coletiva. Uma pessoa não tem o direito de impedir que o outro tenha aquilo que ela não quer. Daí a difícil tarefa de despertar interesse de toda uma classe por uma determinada aula. A minha liberdade de escolher os caminhos que desejo seguir não pode ser um pressuposto para que eu decida que todos devam seguir os meus passos.

          Por essa ótica é possível entender o que Renato Russo quis dizer no seguinte trecho da música Há Tempos: “disciplina é liberdade; compaixão é fortaleza; ter bondade é ter coragem”. Apenas os disciplinados podem ser livres; apenas os fortes de espírito conseguem ter compaixão; apenas os corajosos optam pela bondade. Taí um ótimo lema para educar alguém.

 

                            (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 04 de agosto de 2006)

 


Posted: 04:17 PM, Aug. 6, 2006
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Recortes sobre a dor de existir

                                                                          Roberto D´arte

 

            Nada é tão antigo e tão atual do que tentar entender a existência humana. Antes mesmo de ter sido mote para os primeiros nomes da Filosofia, este tema sempre trouxe em si a carga filosófica que qualquer pessoa carrega, mesmo sem querer. “Existirmos, a que será que se destina?” Questionou o cantor e compositor baiano Caetano Veloso na música Cajuína.

           Visitando recentemente uma das comunidades do Orkut que mais gosto – a “Café Filosófico ´Das Quatro´” – encontrei um tópico particularmente instigante. Com o título “A Dor de Existir”, a sua proponente abre o fórum com a seguinte pergunta: “quando cessará a dor de existir?” A seguir, alguns recortes interessantes do referido tópico, que mostram bem como as “pessoas comuns” podem dar valiosas contribuições em qualquer debate.

           O primeiro a se manifestar – um xará da capital paulista –  disse textualmente: “a dor de existir cessará talvez quando chegar a morte, mas se tem vida após a morte continuaremos existindo; sendo assim, continuaremos sofrendo. Além disso, podemos reencarnar, ou seja, uma segunda morte, depois outra, mais outra... Se é isso, para que serve essa dor? Tem remédio?”

            Logo em seguida, Flávio Fernandes, de São José do Rio Preto-SP, apresentou uma visão um tanto oposta à anterior: “existir não dói! A existência não se resume em dor, porque a dor, em geral, é passageira, pois se for constante é sofrimento. Como não existe quem só sofre, logo, existir não é sentir dor!”

            A mineira de Uberaba – Mônica Silveira, ampliou o leque das opções e contextualizou a dor dentro da própria existência: “a dor é transitória, o sofrimento é que gruda em nós e nos mantém empacados, impedindo nossa evolução. Às vezes o processo de cura de uma doença é doloroso, mas necessário. Já passamos por isso, todos nós, várias vezes. E quando a cura chega, finalmente, o alívio nos fará rapidamente esquecer o sofrimento. A dor de existir é esquecida com os momentos bons que temos na vida, e assim será em toda existência: dor, cura, dor, cura...”

            Lembrando um trecho de uma das composições de Renato Russo ("toda dor vem do desejo de não sentirmos dor"), o baiano de Salvador – George Frey, ressaltou que por mais difícil que seja o sofrimento, uma forma de lidar com ele “não é deixar de existir, e sim passar a viver”. O gaúcho de Passo Fundo – Francisco Quiumento, foi bem direto ao recomendar “um analgésico de auto-ajuda leve ou um anestésico de Soren Kierkegaard” (filósofo dinamarquês do século 19, considerado fundador do Existencialismo). “Esqueça a dor e continue vivendo! Fé absoluta na razão e na vontade!”, escreveu.

            Finalmente, Kátia Góes, amazonense residente em Belo Horizonte, lembrou que a dor de existir, ainda que individual e intransferível, pode, sim, ter parâmetros de comparação: "chorei porque não tinha sapatos até que encontrei alguém que não tinha pés. A nossa dor de existir fica menor quando constatamos que não estamos sozinhos neste barco e existe alguém em pior situação. Viver é uma miscelânea de sentimentos, como dor, alegria, tristeza, euforia, amor, felicidade, esperança. Cada hora um deles se sobrepõe aos demais. Mas ninguém é infeliz sempre, ou sente dor indefinidamente.”

             Em casa, na escola, no trabalho ou numa mesa de bar, filosofar sobre a existência é sempre sinal de maturidade. Claro que também é bom reservar momentos para as amenidades ou mesmo para o besteirol. No entanto, o que está em jogo é o próprio bem estar cotidiano, que está diretamente ligado ao conhecimento que cada um tem da própria existência. As atitudes capazes de mudar radicalmente a vida de alguém podem surgir disso.

 

                                             (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, em 30 de junho de 2006)




Posted: 11:26 PM, Jul. 2, 2006
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Enquanto isso na Sala de Justiça

                                                                              Roberto D’arte

 

             Nada é pior do que a sensação de impotência vivida pela população diante de inimigos tão próximos e implacáveis como os agentes do crime organizado. A sensação que dá é que somente um super-herói, daqueles do gibi e do cinema, para dar jeito num problema social de tal dimensão.

             Por menos poderoso e mais humano que fosse, qualquer um deles serviria. Bastaria que carregasse ao lado de algum super poder a motivação clássica (e em extinção nos simples mortais) de qualquer super-herói: a incansável vontade de defender o Bem.

             Pode até ser um chavão ingênuo e ultrapassado imaginar que haja em nosso meio uma luta do Bem contra o Mal, de Deus contra o diabo. Mas se não há, com certeza existe uma confusão completa de valores entre a maioria das pessoas – aquelas que acreditam adquirir algum poder passando por cima de tudo e de todos, conquistando o que almejam através da força e do medo alheio.

             Se não há o mal, então como pode ser chamado alguém que planeja um atentado para matar milhares de inocentes? Como classificar aquele que mantém um semelhante em cativeiro em troca de dinheiro? Como entender quem usa a miséria do povo como trampolim para suas aspirações políticas? Será que a maldade pode ser relativizada de acordo com diferentes épocas e costumes culturais? Existe o chamado mal necessário? Perguntas como essas podem até ter muitas respostas, mas quaisquer que sejam elas sempre chegarão ao mesmo ponto: o Mal é descartável em todas as suas formas!

             A infindável lista de super-heróis imortalizados nos gibis e nas telas de cinema e de TV carrega uma informação básica sobre os seres humanos: que a sua evolução é desigual. Tanto os super-heróis (enquanto seres que carregam projeções de características almejadas pelos homens) quanto os seus criadores são essencialmente diferentes dos super-vilões e das muitas figuras de carne e osso que lhes servem de inspiração. Em essência, há os que alcançaram um grau maior de evolução espiritual e aqueles que ainda engatinham espiritualmente – e por isso agem movidos apenas por um instinto bruto.

             Há os que defendem a teoria de que o Bem e o Mal tenham vindo imbutidos na natureza humana, e que o melhor caminho a ser percorrido é o que nos leva para além desses dois conceitos. Confesso que nunca consegui entender o significado prático do “para além do bem e do mal”, do filósofo Nietzsche.

            Qualquer habitante do planeta neste início de novo milênio é autor ou vítima dos maiores problemas que afetam a todos, começando pelas ações do crime organizado, pela fome, pela miséria e pela devastação de nossos recursos naturais. Ser autor e vítima pode ter o mesmo sentido em certos casos, mas em outros é uma questão de escolha.

             Escolhe-se viver corretamente, respeitando limites e o bem estar comum; assim como escolhe-se o submundo da corrupção, da desonestidade, da ganância, da sede de poder e da crueldade. São lados antagônicos que dificilmente se encontram num meio termo. Ou se torce para o Superman ou para Lex Luthor; para Batman ou para o Curinga. Eles são arquétipos do que acreditamos e do que abominamos.

            Nunca foi tão necessário (e o cinema taí para comprovar!) materializarmos heróis como Homem-Aranha, X-Man, Capitão-América, Mulher Maravilha, Lanterna Verde, entre tantos outros dispostos a acabar com o que não temos força para enfrentar. Como seria bom, por exemplo, durante a recente onda de crimes em São Paulo poder ligar para algum disk-Sala de Justiça...

 

                                (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 16 de junho de 2006)



Posted: 11:41 PM, Jun. 16, 2006
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1 ANO DENTROD´ARTE!!!

 

 O DENTROD´ARTE acaba de fazer 1 ANO de existência. Para qualquer publicação - virtual ou convencional - esta é uma data decisiva. É quando se podem avaliar resultados, o seu sentido e as motivações para continuar. Em se tratando de um blog, sem quaisquer fins lucrativos ou mesmo comerciais, a motivação se dá pelo número de entradas e comentários dos que o visitam.

O DENTROD´ARTE chega a seu primeiro aniversário com mais de 2.400 visitas - um número até muito tímido se comparado ao de blogs com temáticas mais abrangentes. Mas um número expressivo em se tratando de um espaço virtual destinado a textos de autores desconhecidos ou pouco conhecidos do grande público, como eu e outros tantos que aqui apareceram ao longo de doze meses.

A mim, que o edita, fica o sabor de uma conquista inestimável: a de quem acredita na força da mídia pessoal, das produções independentes e da liberdade de expressão. Neste ANO NOVO que começa para o  DENTROD´ARTE eu espero receber textos dos amigos e de autores que ainda não conheço e que adoraria conhecer. Para envio de textos e dicas o caminho é o e-mail do blog (dentrodarte@yahoo.com.br).

Desejo dias felizes para todos os que acreditam na capacidade criativa do ser humano e na sua boa vontade em mudar o mundo a partir de si mesmo!

 

Roberto D´arte


Posted: 09:52 AM, Jun. 4, 2006
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AUTOR CONVIDADO

 

À flor da alma!!!

 

O texto a seguir é de autoria de uma pessoa realmente especial; diria rara! Zhumar (foto acima) é potiguar de Jaçanã; um amiguirmão, fruto do intercâmbio existencial entre Bahia e Rio Grande do Norte, que teve início no final dos anos 80 e continua muito vivo! Graduado em Letras e atuante nas letras, nas imagens e nos sons, ele tem como principal característica a espiritualidade tão aguçada que as suas ações pessoais e profissionais são sempre impregnadas dela. Educador, artista e ativista cultural na região de Altamira-PA, onde reside, Zhumar vai sempre ao âmago das pessoas e das coisas para lá buscar as inquietações e certezas que nos fazem ser humanos. A diagramação e cor do seu texto foram escolhidas propositalmente pelo autor.

 

Roberto D´arte

 


Posted: 04:26 PM, May. 21, 2006
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SÓ OS TOLOS SE APAIXONAM

Zhumar

 

Só os tolos se apaixonam, se apaixonam tanto que morrem desesperados, que agonizam pelas sarjetas, só os tolos. Só os tolos abrem seu coração e entregam-no de presente na bandeja de Salomé, que pede a cabeça de um tolo João Batista. Só os tolos, só eles mesmos. Só eles querem esse caminho incerto, sem razão, sem pódium  de chegada, sem beijo de namorada. Mas esperando feito um tolo no pódium de chegada o beijo da namorada, o beijo do namorado. Só os tolos usam tinta roxa, a tinta de uma paixão. Só os tolos amam e têm coragem de sofrer, porque só os tolos descobrem que o único caminho possível é o incerto caminho do coração, para cuja alegria não há preço que pague, não há prêmio que supere, não há dinheiro que compre. Só os tolos têm coragem de tirar a roupa, mostrar as feridas, ficar nu, sem teto, sem guarida. Só eles. Eles mesmos, os idiotas do amor, os palhaços da dor, os loucos do teatro. Só eles clamam, chamam, reclamam, insistem, persistem, não desistem. Só eles e ninguém mais. Só eles sonham, só eles são capazes de tanto amor que uma só migalha, uma só palavra, um só gesto gratuito é suficiente para nutrir a sua fome eterna. Basta-lhe um aceno que ele, cachorro escondido, rasteja absoluto pelas bordas da cidade. Só os tolos exalam poesia. Só os tolos conhecem a magia. Só os tolos, palhaços noturnos, são pisados pelos coturnos de uma mulher, coturnos de um qualquer. Só esses bobos mesmos, pelo grande fato de outro não ser. Só eles cantam, encantam e vêem DVD. Só eles fazem DVD. Palhaços ridículos escrevendo ridículas cartas de amor. Só os tolos são livres, leves e lúcidos. Só eles sabem quão cansativo é ser esperto, perdido entre jogos e mentiras, entre falsos mundos de euforia calculada. Eles preferem a lua, a noite, um pôr-do-sol. Eles preferem um gesto sincero que uma cara bonita de alguém fazendo fita. Só os tolos vêem Deus como a galinha tonta vê o ovo que nela se forma. Os tolos não mais perguntam “por que sou assim”, não mais se culpam “eu não deveria ser assim”, não mais duvidam “será que...”. Não, os tolos germinam, balbuciam, babam, gritam, simplesmente se aceitam, se calam, falam, morrem, nascem, choram, riem, mijam, cagam, espetam e são espetados. Os tolos não possuem sobreaviso. Estão sempre prontos. Os tolos escrevem mensagens baratas quando bem podiam escrever textos lógicos. Para o tolo, o que importa é não ter pé nem cabeça para poder passar na porta que lhe interessa. O tolo vê “O Fantasma da Ópera”. O tolo sempre está apaixonado. Apaixonado é um estado de alma que não se cura.

Ele vive em constante febre de loucura. Estar apaixonado é a sua condição para viver. Um tolo ama as lagartixas, os ratos, as bichas, as bibas e as feridas, as sapas e as sapatas, as matas, as mulatas, as matracas e os maracás. Um tolo simplesmente ama o que é direto, rasteiro no chão, cobra real, sujos de terra. Um tolo ama a terra. E sonha com o céu. Tem insônia e fica olhando estrelas. Um tolo sonha de olhos acordados. Clarice é uma tola. Fernando, outro. Francisco, também. Há muitos tolos famosos e outros desconhecidos. Ser tolo é tão bom que há muito esperto que se finge de tolo. Mas não adianta. Não demora muito, todos descobrem a verdade. O verdadeiro tolo é original. Ele luta o tempo todo para manter sua tolice. Sua idiotia é o seu melhor, é realmente a única coisa que interessa. Um tolo não quer entender, quer viver. Porque ele sabe que nada que lhe interessa precisa de explicação. Tudo jorra pra ele, da mina da vida, da água do chão, nascente primeira por entre brotos de mata. Um tolo se entrega e morre na cruz. Um tolo se apega e vive de luz vaga, tênue, incerta, lilás. Um tolo nunca escreve. Um tolo é escrito; ele segue a tolice do seu coração e um monte de besteiras que vêm no seu pensamento. Aí ele vai escrevendo, escrevendo, pensando numa pessoa, numas coisas, aliviando seu coração, esvaziando sua mente, até simplesmente sentir que é hora de parar.

 

P.S.: Esse texto é filho do texto “Das Vantagens de Ser Bobo”, de Clarice. Ele foi recitado por mim em “A Noite do Pop-Rock”, show no Sabor Goiano (03/02/06) e na palestra “Que Mistérios Tem Clarice?”, que trabalhei na UFPA (Universidade Federal do Pará)/março-2006.

 



Posted: 04:09 PM, May. 21, 2006
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Sexteto existencial

                                                 Roberto D’arte

 

           Se quisermos compreender o que move a existência humana, basta entendermos a dimensão do significado de seis verbos, com equivalentes em todas as línguas faladas no planeta. De uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, tudo gira em torno do SER, do ESTAR, do FAZER, do TER, do PENSAR e do SENTIR.

          Quando alguém se propõe a conhecer as próprias potencialidades ou os próprios limites, em busca de crescimento, paz, prosperidade etc, está necessariamente indo ao encontro do SER. Quisera este fosse o ponto de partida e de chegada para qualquer pessoa! Afinal, o que costumamos chamar de felicidade nada mais é do que a descoberta do caminho certo que desvela o SER, que o torna isento de máscaras, de amarras, de sujeiras.

          Já a principal característica do ESTAR é ser transitório. Ele nos permite experimentar, rever conceitos, reavaliar nosso próprio SER. Uma pessoa está pobre ou rica, está doente ou sã, triste ou alegre. Quando se compreende essa situação de mobilidade do ESTAR, fica mais fácil ter esperança, acreditar que as adversidades de hoje podem não mais existir amanhã. Parece simplória tal explicação, mas não é se pensarmos que muitos suicídios acontecem porque aqueles capazes de cometê-los confundem “estar angustiados” com “ser angustiados”.

        Quanto ao FAZER, é básico compreendermos que ele representa apenas um meio para conseguirmos a sobrevivência; para encontrarmos um caminho real e prático capaz de canalizar nossa destreza, nossa criatividade. Há, no entanto, os que se escravizam pelo excesso de FAZER, pelo menos no que diz respeito ao tempo disponível para sua realização. O trabalho, que é a mola-mestra da sobrevivência individual e coletiva, não pode ser visto como o principal sentido da existência. O FAZER existe para construir o SER, e não o inverso.

          O verbo TER, que também deveria girar em torno do SER, termina sendo o centro das atenções, das aspirações pessoais e profissionais, das discórdias, das fatalidades. Mata-se e morre-se pelo TER (riqueza, poder, prestígio...), embora ele devesse ser tão-somente uma condição elementar. Os bens materiais para a sobrevivência – moradia, alimentação, vestuário, educação, meios de locomoção, lazer, entre outros – são essenciais, mas a vida é muito mais do que isso.

          Fechando esse sexteto existencial, o PENSAR e o SENTIR são pontos de equilíbrio para os anteriores. Razão e emoção, cérebro e “coração”: eis os instrumentos disponíveis para uma infinidade de escolhas que temos que fazer a vida inteira. Saber dosar os sentimentos (reforçando aqueles tidos como positivos, como o amor, a compaixão, a alegria) é tão importante quanto pensar a respeito deles e de suas consequências. PENSAR tem a ver com o comportamento do presente e com os planos para o futuro; tem a ver com as aprendizagens e com o que se pode fazer com elas.

          Radiografado o ser humano a partir desses seis verbos, resta apenas afirmar que por trás e acima de todos eles está o espírito. Dessa fonte transcendental surge o canal com Deus, com o ideal divino de perfeição. Algo que extrapola toda a nossa compreensão de ser, estar, fazer, ter, pensar, sentir e de tudo mais que nos torna meras criaturas.

               

                                 (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, em 12 de maio de 2006)

 


Posted: 09:16 PM, May. 12, 2006
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Mico é escrever errado!!!

                                                                      Roberto D’arte

 

            A minha crônica da semana passada – “Miguxês não é língua” – teve uma repercussão tão positiva que os comentários que ouvi pessoalmente ou por e-mail me incentivaram a trazer o tema à tona, agora por um outro prisma. Para a maioria dos adolescentes que estão no Orkut é “mico” escrever corretamente nos recados enviados aos amigos. Ao contrário, dizer “adolu vc”, “xaudade”, “bjinhus”, “d+” e outras pérolas do miguxês é considerado por eles estar na moda, ser “da hora”.

            É possível compreender essa vocação da adolescência para a contestação, para querer ser diferente, ser do contra. Nessa história toda, o irônico é que ser diferente é fazer bom uso da Língua Portuguesa, é não assassinar a gramática...

           Gosto, às vezes, de perambular pelo Orkut para observar exatamente esse aspecto. Quando vejo um recado de um adolescente escrito de forma correta chego a traçar um perfil básico dele só por isso. Dá para deduzir que seja um bom aluno, alguém de opinião própria e emocionalmente mais seguro. Exagero? Taí um bom mote para pesquisas...

            Ser diferente é perceber os movimentos da moda, absorver os bons aspectos deles, mas jamais se render às suas armadilhas. Mico é escrever errado! É não ter vocabulário para transitar com desenvoltura por espaços diversos. É ser conhecido como o que fala errado, o que dá foras nas rodinhas de amigos. Mico, ou melhor, gorila é escrever uma redação na escola e o professor circular o texto inteiro diante de tantos erros...

            Minha cunhada, que reside na Bahia, enviou um recado no Orkut para me cumprimentar pela crônica e para dizer o quanto tem sido difícil manter um diálogo com seus alunos pela internet. “Têm pessoas no Orkut – meus alunos, por exemplo – com as quais não consigo manter diálogo, por não entender. Acabo ficando ‘muda’ e ‘surda’, porém eles se defendem dizendo que falar dessa forma é que ‘é moderno’, ‘teen’ e ‘tá na moda’. Até hoje não entendi uma mensagem da filha adolescente de uma grande amiga”, mencionou.

            Outra amiga baiana, que é professora de Português e também viu em meu blog a crônica, contou que certa vez duas primas adolescentes chegaram a lhe perguntar por que ela escrevia tão certinho no Orkut. “Algumas vezes cheguei a sugerir a elas que escrevessem em português, pois eu não entendia nada e, consequentemente, não havia comunicação. A situação é tão preocupante que mesmo pessoas com acesso à educação acabam se influenciando tanto que não conseguem distinguir mais em quais situações elas podem usar tal variação. Tive uma experiência ano passado com alunos do Ensino Médio que utilizavam vários termos do ‘internetês’ em dissertações. Dá para acreditar?”

            Depoimentos como esses, cada vez mais comuns entre professores e pais, revelam um problema bem mais abrangente do que um simples jeito errado de escrever a Língua Portuguesa. Mostram o desdém que as novas gerações vêm tendo com os adultos do seu convívio. Ficou para trás o tempo em que um adolescente respondia a um “bom dia” do professor assim que este entra na sala. É mais do que um entrave de comunicação. Ou não?

 

                                        (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, em 28 de abril de 2006)




Posted: 08:19 AM, Apr. 29, 2006
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“Miguxês” não é língua

Roberto D’arte

 

               Para quem ainda não se aventurou no território virtual do Orkut, o título desta crônica soará, no mínimo, estranho. “Miguxês” já é o nome dado para o novo tipo de comunicação escrita dos adolescentes via Internet – mais especificamente nos “scraps” (recados) que circulam no site de relacionamentos mais frequentado do Brasil. O “miguxa” (ou “miguxo”) foi escolhido para designar essa grafia esquisita da língua portuguesa por ser uma das formas mais triviais de tratamento entre os internautas teens.

           Minhas duas sobrinhas e minha afilhada, que moram na Bahia e estão no auge da adolescência, também foram fisgadas pelo “miguxês”, mesmo sendo leitoras conscientes e tendo fortes inclinações para escrever bem. Claro que acho mais importante ter com elas um canal aberto de comunicação – aceitando o atentado à gramática que promovem – do que recriminá-las pela adesão a esse modismo. No entanto, quando tenho oportunidade eu faço questão de chamar a atenção delas para os aspectos negativos dessa escolha. Afinal, chega a ser sem sentido a substituição do “não” pelo “naum”; do “beijo” pelo “bju”, do “quero” pelo “keru” etc.

          A comunicação é realmente o sentido maior de qualquer tipo de linguagem – incluindo aí as gírias e as subversões das línguas formais. O que não significa optar por uma linguagem em detrimento de outras. Bom comunicador é aquele que se propõe a sempre ampliar seu repertório de signos, sabendo usá-lo nas mais diversas circunstâncias e com os mais variados tipos de interlocutores. Não é porque se entende (e se aceita) uma pessoa de pouco estudo quando ela diz “nóis vai” ou “prumode” que se vai repetir em casa e na escola o mesmo.

          Isso também vale para aquele adolescente que resume seu vocabulário a meia dúzia de gírias (“tipo assim”, “muito bruto”, “nó, véi”...) e acha que pode se comunicar assim com todas as pessoas. As gírias estão presentes nas mais diferentes gerações e mudam de acordo com a época (um dia “gata” já foi “broto”, “gato” foi “pão” e por aí vai). Elas são saudáveis e aproximam os jovens. O que não dá para aguentar é que seus usuários não saibam falar e escrever corretamente a própria língua.

          Num daqueles textos sem autoria (infelizmente, neste caso!) que circulam pela internet, este assunto é tratado de forma séria, mas com muito bom humor. Com o título “A Nova Ortografia”, seu autor propõe um programa de cinco anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica. “Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas; afinal, o português é difícil demais mesmo”, satiriza.

         Na sua proposta a cada ano aconteceria uma nova mudança, chegando ao ponto, inclusive, de extinguir qualquer acentuação e pontuação. Didático, o autor vai explicando as mudanças já fazendo uso delas. O fechamento do texto é um parágrafo escrito exatamente assim (por favor, prezado leitor, faça um esforço e vá até o fim): “naum vai te mais problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai iskreve sempri çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario us blogeru us adivogado us iskrito i ate us pulitiko i u prezidenti olia ço ki maravilia”.

         Se vocês, pais e professores, acharam incompreensível, saibam que este é o rumo que seus filhos e alunos estão dando para a língua portuguesa. Se vocês também não entenderam, caros internautas adeptos do “miguxês”, lembrem-se de que a falta de comunicação distancia as pessoas. Pior até: a pobreza de linguagem fecha portas...

 

                                             (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, em 20 de abril de 2006)


Posted: 10:26 PM, Apr. 21, 2006
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Salve, salve o Chico paraibano!!!

 

Que maravilha estar na platéia de um show de Chico César! Música de primeira; poesia, idem. A crônica a seguir, publicada hoje (13/04) no jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, é um pouco do tanto que me invadiu nas duas horas que estive diante desse paraibano de fibra no belíssimo Espaço Cultural Fernando Sabino, no campus da Universidade Federal de Viçosa (UFV). São artistas como ele que nos deixam esperançosos de que a mesma MPB que um dia se consolidou com grandes nomes possa continuar no mesmo trilho.

A foto acima e as três que ilustram meu texto logo abaixo foram gentilmente cedidas pelo fotógrafo viçosense Luciano Hara, que logo, logo terá um farto material fotográfico de shows de famosos para uma exposição. Ele faz parte do grande time de profissionais que compõem a FACEV (Fundação Artística, Cultural e de Educação para a Cidadania de Viçosa), responsável pelo show de Chico César e por outros tantos já realizados na cidade.

 


Posted: 11:08 PM, Apr. 13, 2006
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Chico César, em show realizado em Viçosa-MG, no Espaço Cultural Fernando Sabino, em 8 de abril de 2006 

 

A prosa poética de Chico César

Roberto D’arte

 

          Desde que ouvi seu primeiro CD, "Aos Vivos", em 1995, eu soube que ali estava bem mais do que uma curiosa novidade no cenário da Música Popular Brasileira. Entre o ótimo repertório do paraibano Chico César – cativante à primeira audição – me chamou a atenção a intrincada poesia de "A Prosa Impúrpura do Caicó", um trocadilho ao título do filme de Wood Allen, "A Rosa Púrpura do Cairo".

          Como no filme, que ressalta a necessidade humana de misturar realidade e fantasia, a canção (uma balada melancólica) retrata a ambígua presença da razão e da emoção nessa complicada teia. "Ah! Caicó arcaico/ em meu peito catolaico/ tudo é descrença e fé / Ah! Caicó arcaico / meu cashcouer mallarmaico/ tudo rejeita e quer". Assim parece ser o espírito desse poeta-cantador vindo de Catolé do Rocha, impregnado – como outros tantos artistas nordestinos do interior – de esperança, de crença e de uma visão de mundo marcada pela resiliência...

          No sábado passado, em Viçosa, eu tive o prazer e o privilégio de assistir, pela terceira vez, ao show de Chico César. Nos dois primeiros, entre 1996 e 1997, em São Paulo, ele estava acompanhado pela excelente banda Cuscuz Clã (um nome com a cara do seu trabalho). Algo para grande público, para tirar os pés do chão. A sua apresentação no Espaço Cultural Fernando Sabino, acompanhado do grande percussionista Escurinho, teve um formato mais intimista. Pude comprovar o que já sabia por outras vias: Chico é um cara simples, bem humorado, generoso e de uma inteligência ímpar. Seus comentários antes ou após alguma música tinham sempre um quê de poesia, de filosofia.

          Não por acaso suas composições despertaram tanto interesse de intérpretes femininas do calibre de Gal Costa, Maria Bethânia, Elba Ramalho e Daniela Mercury. Sim, "ele sabe como pisar no coração de uma mulher". Inclusive, esta foi uma das músicas que Chico César cantou ao lado da baianeira Verônica Bonfim – a representante de Viçosa no programa Fama de 2005. Um momento emocionante do show!

          É uma pena as rádios comerciais e os programas de massa da televisão não terem o devido espaço para o som de artistas como ele. Pena também que as novas gerações tenham que descobri-lo de maneira mais difícil, por caminhos mais tortuosos.

          Seus dez anos de estrada já renderam muitos bons frutos, mas ainda é muito pouco para tanto talento. O show de Viçosa foi o mesmo que o paraibano levou ano passado em turnê pela Europa. Por lá foi só elogio de público e crítica. Coisas da triste realidade brasileira.

           Sua poesia – agora também em livro ("Cantáteis – cantos elegíacos de amozade") – é para ser lida, ouvida, cantada e dançada em qualquer estado de espírito. Em seus sete CDs ele passeia pela balada intimista e pelo reggae dançante com a mesma desenvoltura com que canta um coco, um rap, um repente, um forró... Como poeta Chico César é um gênio. E vice-versa.

 

(publicado no Jornal Tribuna Livre, de Viçosa-MG, em 13 de abril de 2006)

 


Momento mágico do show de Chico César em Viçosa: ele convida ao palco a cantora Verônica Bonfim,

baiana-mineira que se destacou como finalista da "edição" 2005 do programa  FAMA, da Rede Globo


Chico, entre Verônica Bonfim e a cantora Shirle, após o show realizado em espaço cultural dentro do campus

da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Shirle disputou a final do FAMA 2005 e está em fase de lançamento

do seu primeiro CD, assim como Verônica, que estudou na UFV e participou do programa representando

Viçosa.  Ambas foram bastante elogiadas pelo cantor e compositor paraibano


Posted: 11:00 PM, Apr. 13, 2006
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AUTORA CONVIDADA

Poesia intimista

O DENTROD´ARTE traz mais dois poemas da minha conterrânea boanovense Karina Moraes, que teve há cerca de dois meses um de seus trabalhos apresentado aqui. Graduada em Letras e professora da área em Vitória da Conquista-BA, suas investidas poéticas são também motes filosóficos sobre a existência - a própria e a da humanidade. Em breve teremos mais!

Roberto D´arte


Posted: 03:27 PM, Apr. 8, 2006
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AUTORA CONVIDADA

Tudo passa

Karina Moraes

 

Apesar de tudo,

tudo sempre passa

passa pra melhor

ou pra pior

mas sempre passa

mesmo que por alguns momentos,

que por alguns instantes,

que por alguns alentos,

tudo sempre passa.

O que fica é a lembrança

do momento, do instante

do agora, do em diante.

Mas tudo sempre passa...

 

 


Lembranças de mim

Karina Moraes

 

Sinto que meus sonhos já não são os mesmos de outrora

Sinto que a vida me controla, me enrola

pois já não sonhamos mais como antes

já não queremos as mesmas coisas

já não somos mais os mesmos.

Vivo lembrando de mim

de meu querer, de desejar ser

Hoje que sou, perdi a graça

perdi a glória,

me perdi.

Perdi-me nas minhas vontades

nas minhas vitórias

nas horas

que se seguem sem nos esperar

sem nos compreender

sem nos conduzir

Mas, conduzir a quê?

Se nem mesmo sei onde vou

Onde estou

Onde quero ir...

Descobri

que o que quero mesmo

é lembrar de mim.


Posted: 11:17 AM, Apr. 7, 2006
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Amor e perdão

Roberto D’arte

 

          "Atire a primeira pedra aquele que nunca pecou". Nesta frase, atribuída a Jesus durante o apedrejamento imposto a Maria Madalena, sob a acusação de ser prostituta, temos a visão de um sábio diante de uma atitude típica dos arrogantes e dos ignorantes. Também foi de Jesus o "amai-vos uns aos outros" – outra de suas frases que atravessaram os séculos e se tornaram máximas do Cristianismo.

           Nesta última está o que se pode chamar de pilar ideal para qualquer sociedade que busque chegar a algum estágio harmonioso de convivência. Como desde o alvorecer da humanidade não foi possível ver isso na prática, o amar continua sendo um gesto isolado, muitas vezes marcado pelo egocentrismo e até por atos de plena loucura em seu nome.

           A frase inicial, por sua vez, é uma lembrança ao ser humano de que ele deve julgar a si mesmo antes de pretender fazer o mesmo com o outro. É também uma pausa para que avaliemos nossos defeitos, mergulhando a fundo neles com a sincera intenção de superá-los. O problema é que muitos aproveitam desse recurso usado por Jesus para proteger Maria Madalena da fúria popular como uma espécie de álibe para justificar quaisquer erros e, mais até, para continuarem insistindo neles.

           Se a justiça divina é sempre invocada para aplacar a dor de pessoas que não conseguem superar os traumas que as colocaram na condição de vítimas, o que se espera da justiça humana é que ela consiga tornar possível a solução de conflitos extremos. Quando a instituição Justiça não consegue isso as peças enfileiradas do dominó da insegurança caem em sequência, anunciando o caos.

           Quem se recorda do assassinato da atriz Daniela Perez, ocorrido em 28 de dezembro de 1992, sabe que os assassinos confessos – o ex-ator Guilherme de Pádua e sua ex-esposa Paula Thomaz – não passaram mais do que seis anos na prisão. Uma pena considerada branda diante do crime hediondo e da expectativa de justiça de sua família e da sociedade, em geral. Ainda mais grave: o assassino conseguiu na Justiça o perdão para o seu crime, ou seja, ele vive agora com a "ficha limpa" na Polícia, como se nunca tivesse praticado um crime.

           A mãe da atriz assassinada – a escritora Glória Perez – declarou publicamente que Guilherme de Pádua era um psicopata e que jamais o perdoaria. Pádua chegou a dizer que iria processá-la por tal acusação. Não é à toa que a perfeição é uma meta impossível para o ser humano. Como julgar uma pessoa que vivenciou uma dor tão profunda como Glória Perez e sugerir que ela ame e perdoe o assassino de sua filha? Como pedir para que ela não atire a primeira e todas as pedras que tiver quando viu a Justiça premiar com o perdão absoluto quem tirou a vida daquela a quem deu à luz?

           Os lobos em pele de cordeiros, como Guilherme de Pádua, são as maiores feridas aos que imaginam ser possível se viver bem. Eles são termômetros para se medir até que ponto a bondade humana pode ir, até onde a palavra justiça pode ser sinônimo de limpeza moral, de paz. Pessoas como aqueles jovens de classe alta, em Brasília, que atearam fogo no índio Galdino, ou como o médico Rodrigo Villaça – assumidamente adepto da pedofilia e do abuso de crianças, desafiam os que defendem incondicionalmente os conceitos de amor e perdão.

           O maior desafio da humanidade não é inventar o inimaginável em termos de tecnologias científicas. Foi, é e sempre será a contínua necessidade de lapidar o espírito. Acertou em cheio o filósofo Thomas Hobbes quando disse que a sociedade nunca terá harmonia porque o "homem é o lobo do homem". Jesus conseguiu amar e perdoar em último grau porque estava a anos-luz da condição humana e da sua pequenez característica.

(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 17 de março de 2006)


Posted: 04:22 PM, Mar. 17, 2006
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AUTOR CONVIDADO

Museu de Tudo

 

Meu  amigo potiguar Theo Alves (" El Manchego Quijano" lá nas paradas orkuteanas...), está de volta ao DENTROD´ARTE com dois ótimos poemas. Como já tive a oportunidade de dizer na primeira apresentação, em janeiro último, Theo é de uma sensibilidade poético-musical pouco vista! Ou melhor: é de uma sensibilidade pouco vista! Uma ótima dica para conhecer melhor seu trabalho é visitar o blog  O MUSEU DE TUDO - http://www.museudetudo.blogspot.com , administrado com muita competência por este jovem talento das palavras, dos sons.

 

Roberto D´arte

 


Posted: 08:50 PM, Mar. 3, 2006
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AUTOR CONVIDADO

messias

Theo Alves

 

 

sozinho

ele está despido

no deserto

 

escreveu seu coração

na areia

para não carregar a angústia

pétrea de seu medo

até os últimos dias

 

quando o povo vier ao seu encontro

ele fugirá

para mais longe ainda

continuará despido e

 

sozinho

ele estará despido

no deserto

 

da criação

Theo Alves

 

 

um verso

me faz sangrar as narinas –

o poema

é sempre uma violência

 

um verso

me arrebata e me governa –

o poema

é sempre uma bastilha tomada

 

um verso

quebra os ossos de quem amo –

o poema

é sempre alguma culpa

 

um verso

me encarcera para sempre –

o poema

é sempre a pena irrevogável.



Posted: 08:48 PM, Mar. 3, 2006
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Campos minados
Roberto D’arte


          Em plena época de mundo globalizado, com informações circulando em tempo real nos quatro cantos do planeta, a humanidade caminha em terrenos cada vez mais perigosos. Como se não bastassem as constantes tensões causadas pelos atentados terroristas – que atingem inocentes nos lugares mais imprevisíveis, a mídia resolveu colocar lenha na fogueira, sob pretexto da liberdade de imprensa.
          As charges publicadas por jornais dinamarqueses, enfocando o profeta Maomé (ícone sagrado para os muçulmanos), são provocações desnecessárias num momento histórico bastante difícil para os povos de todos os países. É como se, de repente, revivêssemos uma antiga rivalidade entre Ocidente e Oriente, que por séculos desencadeou batalhas sangrentas entre cristãos e muçulmanos, mais conhecidas como Cruzadas.
         Naquele tempo os motivos de fachada para tanta desavença eram religiosos, embora a busca de terras e riquezas fosse o real interesse dos patrocinadores das Cruzadas. Hoje a geografia mundial tem outro desenho e o poder de fogo de exércitos oficiais e não oficiais é o suficiente para destruir a Terra duas vezes (um verdadeiro contra-senso!). No entanto, as relações entre cristãos, judeus e muçulmanos – representados por suas respectivas nações – ganham contornos de verdadeiros campos minados, barris de pólvora prontos para explodir.
          Os detonadores? Estes já vêm sendo acionados há bastante tempo. Que o digam os israelenses e palestinos, que há bem mais de meio século travam uma guerra insana e sem qualquer perspectiva de  um final feliz. O mesmo vale para a postura intervencionista dos Estados Unidos em nações consideradas inimigas, como Afeganistão e Iraque, que acarreta reações violentas contra todos aqueles apontados como aliados dessa política externa.
          “O futuro não é mais como era antigamente”, como disse Renato Russo na música “Índios”. Lembro-me perfeitamente de quando era criança, na década de 70, e imaginava um futuro totalmente diferente para o Brasil, para o mundo. Com a ingenuidade típica do universo infantil, eu achava que no ano 2000 (o máximo que eu conseguia chegar em termos de imaginação do futuro!) já não haveria mais pobreza no Nordeste, porque os governantes teriam levado água para os locais mais secos. Imaginava que jamais voltaríamos a ter um conflito tão grandioso como a Segunda Guerra Mundial, que eu conhecia através dos livros...
            Por mais otimista que eu queira ser (e, de fato, sou!) hoje já não consigo mais vislumbrar um futuro promissor para a humanidade. Se não estamos conseguindo cuidar bem da nossa própria casa maior – a Terra, o que esperar de bom?
Tomara que as próximas gerações sejam mais inteligentes e, em vez de tentarem encontrar um lar em outras paragens do sistema solar, recuperem e cuidem do planeta que acolheu por milênios seus antepassados.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 17 de fevereiro de 2006)

 


Posted: 11:15 AM, Feb. 17, 2006
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Ventos do litoral
Roberto D’arte


          Poucas terapias têm a eficácia de alguns dias de férias no litoral. Cinco minutos diante do mar já é o bastante para desencadear uma série de sensações positivas no corpo e na mente.
          Mesmo sendo um baiano de origem, minha cidade natal (Boa Nova) está inserida num cenário típico das regiões montanhosas. Não por acaso eu me sinto tão à vontade em Minas. O universo litorâneo só entrou de verdade em minha vida na adolescência, época em que fui para Salvador, onde morei por oito anos. Desde então não consigo ficar muito tempo longe dos ventos do litoral, mesmo tendo optado pelos mistérios e encantos presentes nas paisagens das Gerais.
          Um dos momentos mágicos desse encontro é a possibilidade de sentir os pés tocando a água e a terra ao mesmo tempo. Caminhar na praia de olhos fechados, exercitando principalmente o tato e a audição, produz um efeito fantástico! Algo próximo da paz de espírito; algo como sentir a presença divina.
          O cantor e compositor Renato Russo, num dos últimos discos da banda Legião Urbana, escreveu uma canção sobre o tema que é um verdadeiro poema. “Vento no Litoral” traz as impressões de alguém mergulhado em tristeza, mas convicto de que também é possível emergir fortalecido da crise. Num dos trechos o roqueiro dá uma pista do que considera uma possível saída do fundo do poço: “eu faço isso pra esquecer, eu deixo a onda me acertar, e o vento vai levando tudo embora”.
          Mesmo estando muito bem e um tanto distante da melancolia que perpassa a figura da música, os ventos do litoral conseguiram levar embora todo o cansaço que acumulei em 2005. Quinze dias em Castelhanos-ES, em companhia de alguém tão especial, me deram uma nova injeção de ânimo para abraçar de vez 2006.
          Nesse período pude, do jeito que gosto, dar vazão à fama que atribuem aos baianos: a do boa vida que passa o dia inteiro por conta do sol, do mar, dos frutos do mar, da cervejinha, da música, do ritmo lento. Afinal, há um quê de meditação, de renovação, de parada estratégica em tudo isso. É uma pena que nem todos possam se permitir algo assim, seja por falta de condições financeiras, seja por acomodação.
           Como sugerem as reportagens da ótima revista “Vida Simples”, para estar bem não é preciso tanto esforço. Ao contrário, é necessário desacelerar o ritmo frenético a que nos submetemos por ambição ou por falta de consciência dos seus efeitos nocivos. Viajar, mudar de ares de vez em quando é investir no lazer e no descanso. Isso, somado a uma boa alimentação, a uma boa noite de sono e ao cultivo de bons sentimentos, é o que se pode chamar de felicidade homeopática.

(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, em 03 de fevereiro de 2006)

 




Posted: 01:57 PM, Feb. 3, 2006
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Meu pai, Adroaldo Cerqueira de Moraes (Dozinho), viveu 79

anos tocado pelo mesmo otimismo genuíno das crianças

 

O olhar do otimista
Roberto D’arte


           Por mais ingênuo que seja aquele tipo de ser humano que nunca perde o otimismo, eu ainda prefiro tê-los ao meu lado do que os chamados “realistas-com-os-pés-no-chão”. Meu pai, por exemplo, enxergava flores onde só havia espinho; chamava de pracinha com jardins um mero estacionamento de condomínio.
          Falecido há pouco mais de dois anos, ele conseguia extrair felicidade e esperança dos momentos mais simples e inusitados da vida. Sem dúvida, um dos legados mais valiosos deixados para todos os que faziam parte do seu convívio.
          No mundo da ficção um exemplo perfeito do olhar do otimista é Guido – personagem vivido pelo ator Roberto Benigni em “A Vida é Bela”. Ganhadora do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1998, esta produção segue a boa tradição deixada por Federico Felini, que fez escola no cinema italiano.
          “A Vida é Bela” é ambientada no período que antecede a Segunda Guerra, terminando no fim desta que foi uma das páginas mais tristes da história da humanidade. Guido é o autêntico idealista ingênuo, apaixonado pela vida, que consegue ver beleza em tudo. Isso o coloca o tempo todo em situações de uma comicidade contagiante.
           O filme, no entanto, não é apenas uma leve comédia à italiana; até porque parte dele se passa dentro de um campo de concentração nazista e mostra o seu cotidiano de horrores. A diferença é que para o personagem de Roberto Benigni a vida é realmente bela – ainda que isso seja um recurso desesperado para proteger o filho Giosué, de pouco mais de 4 anos, que também é levado para aquele lugar por ser judeu, como o pai.
           Nós, do lado de cá da tela, somos surpreendidos a cada momento por aquele homem, que a todo instante tira da manga os recursos mais inesperados para não deixar seu filho perceber onde realmente está, protegendo-o dos efeitos de uma guerra de motivos tão insanos. A paixão do menino pelo pai, em quem acredita cegamente, o livra não somente da morte certa (destino das crianças e velhos nos campos de concentração), como ainda o faz crer que saiu vencedor daquele jogo de faz-de-conta.
          Há muito em comum entre o meu pai e Guido. Não à toa eu me lembrei tanto dele quando vi “A Vida é Bela” pela primeira vez (na época ele ainda estava entre nós). Em muitas passagens dessa ficção eu me emocionei por saber que havia alguém tão próximo de mim com aquela visão de mundo. Isso reforçou ainda mais a minha certeza de que é possível enxergar beleza na vida, mesmo quando ela parece um beco sem saída.
         Minha mente analítica sempre tenta me convencer a entender o mundo pelo prisma racional. Entretanto, na eterna batalha que travo comigo mesmo procuro dar vazão ao meu lado idealista ingênuo, capaz de proporcionar um equilíbrio que me permita trafegar com segurança pela realidade cinza, sem perder a vontade de sonhar colorido.

 

(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 13 de janeiro de 2006)


"A Vida é Bela" toca fundo por sugerir que os sentimentos pueris,

 tão fortes na infância, se mantenham acesos no mundo adulto


Posted: 05:17 PM, Jan. 13, 2006
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AUTOR CONVIDADO: THEO ALVES

Dom Quixote contemporâneo


          Desde que lancei o DENTROD’ARTE, em junho do ano passado, tenho tido o prazer de postar textos de amigos que deveriam ser lidos por todo mundo. Muito distante de tal pretensão, este blog vem, ao menos, tentando mostrar ao maior número possível de internautas do que são capazes os escritores ainda pouco conhecidos no Brasil.
           É o caso de Theo Alves (foto), amigo da minha querida Currais Novos-RN, a quem tive o prazer de reencontrar no Orkut, mais de 8 anos depois que nos encontramos pessoalmente lá no Rio Grande do Norte. Graduado em Letras e apaixonado por música, Theo esbanja sensibilidade tanto em seus próprios textos (poemas, contos e resenhas), quanto em comentários de textos e músicas de nomes conhecidos e desconhecidos do grande público.
          Quem quiser conferir o que digo é só acessar o blog criado por ele – o Museu de Tudo (
http://www.museudetudo.blogspot.com), ou ler logo a seguir dois de seus poemas dedicados a um dos personagens mais fantásticos da literatura universal: Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Aliás, o próprio Theo se define como “uma versão menos literária do Cavaleiro da Triste Figura”. Em breve o DENTROD’ARTE trará novos textos deste poeta potiguar.

 

Roberto D’arte


Posted: 04:21 PM, Jan. 6, 2006
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