DENTROD´ARTE

Apresentação

Lançado em 3 de junho de 2005, o DENTROD´ARTE é destinado à divulgação de textos de autores ainda não muito conhecidos do grande público. É um blog para os amantes da arte feita com palavras, imagens e, principalmente, com o coração. DENTROD´ARTE porque as ebulições da arte nascem dentro d’alma! CONTATOS: dentrodarte@yahoo.com.br


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AUTOR CONVIDADO: THEO ALVES

à beleza
Theo Alves

 

o que há de mais
belo em teu desenho
dulcinéia
são os olhos do quixote –
a insensatez
do amor
e da esperança

e
quando revejo o quixote
senhora dama dulcinéia del toboso
o que nele mais
me encanta
é o amor indestrutível
de tua presença.

 


quixote
Theo Alves

 

o herói caído
entre sangue
e fezes de seu cavalo.

menos herói que
homem
envolto na fúria de seus inimigos
em sua voracidade.

o homem sorri
o herói lembra-se do
futuro:
dulcinéia não está morta
e seu rocim é ainda
impávido.

só o homem foi relegado
ao chão
– o herói é vivo sempre.



Posted: 03:08 PM, Jan. 6, 2006
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Nascimento e renascimento

Roberto D’arte

 

            Embora muitos achem triste o Natal, argumentando que inúmeras famílias pobres se sentem ainda mais abandonadas e humilhadas nesta data, o seu simbolismo é um presente tão grandioso que ninguém deveria se sentir desamparado. Ainda que historicamente a data do nascimento de Jesus em 25 de dezembro seja questionada, o que importa de verdade é o seu significado.

            O nascimento do Filho de Deus continua tendo a mesma força, mesmo depois de dois milênios. Não sei se a humanidade noutras épocas se sentia tão ameaçada e desesperançada como nos dias de hoje. O que sei é que a vinda de Cristo representou e continua representando a chama da esperança que não se apaga. O mesmo vale para o sofrimento que envolveu a sua morte, lembrada na Semana Santa. Ali Jesus deixava claro que a esperança continuava acesa para o espírito, destinado ao renascimento. Assim, vida e morte, nascimento e renascimento são as duas faces de uma mesma moeda.

            No último final de semana eu assisti pela quarta ou quinta vez ao filme “Encontro Marcado”, cujo tema é exatamente as nuances que envolvem a vida e a morte. O enredo conta a história de Will, um milionário do ramo das comunicações (numa atuação impecável de Anthony Hopkins) que está prestes a completar 65 anos. Ele, que sempre teve o controle de tudo e de todos ao seu redor, se vê diante da morte, personificada em um jovem (Brad Pitt) aparentemente comum e muito longe da figura macabra com rosto cadavérico, túnica e foice.

            A morte decide conhecer de perto o mundo e as paixões humanas e escolhe o milionário para ciceroneá-lo, em troca de mais algum tempo de vida. Cara a cara com a “encarnação do fim”, Will se convence de que é necessária uma reavaliação de sua própria vida, diante de um fato que não pode evitar. A surpresa maior, no entanto, fica para o próprio “ceifador de vidas”, que apaixona-se perdidamente pela filha do magnata, interpretada por Claire Forlani. Conhecendo de perto uma das maiores “fraquezas” humanas – o amor – ele é obrigado a também escolher entre ficar neste mundo ou continuar cumprindo a mais árdua das missões.

             Em algumas culturas orientais morrer é uma bênção que deve ser festejada, pois significa a partida para uma escala superior da existência. Sem dúvida, é uma idéia que ameniza bastante a perda de tudo e de todos que aqui ficam. É difícil para uma pessoa avaliar a si própria e dizer que está preparada para deixar este mundo. No entanto, começar pensando que essa aprendizagem é individual, contínua e intransferível, pode ser um bom começo.

             Quem já teve a oportunidade de conhecer mais detalhadamente o Tarô deve saber que quando sai para alguém a carta da Morte, não significa literalmente um prenúncio do seu fim. Neste oráculo milenar a morte é sinônimo de mudança radical, da atenção que se deve ter para as transformações necessárias, sejam de ordem espiritual, emocional ou até material.

             Se pudermos assimilar profundamente esses conceitos estaremos dando um passo importante para lidar com os tantos obstáculos que diariamente são colocados (até por nós mesmos) em nossas vidas. Um deles tem a ver com os sentimentos de tristeza e culpa que o Natal costuma despertar em certas pessoas. Neste caso, pouco importam os presentes que não pudemos dar ou deixamos de receber. A lembrança e o simbolismo do nascimento de Jesus são o máximo que se tem para dar/ganhar.

 

(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 23 de dezembro de 2005)


 


Posted: 08:35 AM, Dec. 24, 2005
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“Arqueologia” no Orkut
Roberto D’arte


          Usuário do Orkut há pouco mais de quatro meses, eu ainda estou naquela fase de conhecer melhor as comunidades que adicionei e de buscar contatos do passado. Até o momento os meus “achados arqueológicos pessoais” foram bem poucos, mas um deles me deixou com aquela sensação boa de ter encontrado uma verdadeira relíquia.
          Aos 36 anos, encontrar um professor de quando eu tinha 12 é algo realmente valioso. Principalmente porque este marcou a minha vida de estudante e continua sendo uma referência até hoje. Trata-se de Jalon Leal, professor de Inglês na 7a Série, em 1982, e diretor de disciplina no Colégio Taylor-Egídio, localizado em Jaguaquara-BA, onde estudei por dois anos.  
          O Taylor, como todos chamávamos aquela escola centenária ligada às congregações brasileira e norte-americana da Igreja Batista, teve internato até meados da década de 1980, quando este formato de instituição de ensino ainda existia no Brasil. Ao contrário de muitos alunos, tenho orgulho de ter estudado em um colégio interno, principalmente porque meu pai colocou a mim e a meu irmão ali pensando em nos dar melhores condições de estudo.
          Como amadurecemos naquela escola! E Jalon foi certamente um dos responsáveis por isso. Longe do perfil de alguém que se impõe pelo físico no estilo “guarda-roupa duplex”, ele era (ainda é!) magro, de barba bem feita e sempre vestido com camisas e calças sociais. À primeira vista não intimidaria quaisquer alunos marcados pela indisciplina – presença bastante comum no internato naquela época. No entanto seu jeito firme e pausado de falar, associado ao olhar incisivo, nos fazia “tremer na base”.
         Muitas vezes ele foi obrigado a agir com veemência para corrigir comportamentos indisciplinados desrespeitosos. E fazia isso sem qualquer contato físico, até porque isso não existia naquela escola. Tinha, sim, um tipo de castigo chamado “cana”, que consistia em deixar os alunos horas a fio numa sala fazendo seus deveres escolares, privados do lazer com os demais colegas. E Jalon, com uma máquina de escrever, fazia companhia aos “encanados”, dizendo que eles serviriam de inspiração para seus textos naquelas longas horas.
          Ainda solteiro naqueles anos, ele também morava em um dos alojamentos, com os internos. Por causa disso eu passei a gostar ainda mais dos Beatles. É que acordávamos sempre às 6 horas com uma espécie de campanhia; mas uns vinte minutos antes Jalon colocava no corredor as caixas do seu aparelho de som e nos presenteava com seus muitos vinis do quarteto de Liverpool.
          Reencontrá-lo no Orkut foi mesmo um presente. Fiquei contente por ele ter me reconhecido (disse se lembrar do quanto eu era bem comportado!), por ter dado notícias da escola (agora sem internato) e também por constatar a existência de uma comunidade, com mais de 500 membros, apenas com seus ex-alunos.
          Na verdade, Jalon Leal não é somente um ex-professor de Inglês e o único diretor de disciplina que conheci. Ele é o que posso chamar de educador para a vida toda. Guardo seus ensinamentos sobre hombridade, retidão de caráter, respeito ao próximo e espiritualidade. Alguém que sempre soube ser firme com seus alunos, mas sem nunca perder o humor refinado, sem nunca perder a noção de que estava nos preparando para a vida, para o futuro.

 

(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 02 de dezembro de 2005)


Posted: 08:54 AM, Dec. 9, 2005
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AUTOR CONVIDADO - ANA KARINA MORAES

 

Tomada de Pessoa

 

           Depois dos poemas “felínicos” de Paulo Andrade, o DENTROD´ARTE traz a poesia de Ana Karina Moraes (foto), também minha conterrânea como aquele. Graduada em Letras e atuando como professora na área em Vitória da Conquista-BA, ela vem de uma geração imediatamente posterior à minha.
            Houve uma época em nossa terra natal (Boa Nova-BA) em que nossos grupos de amigos e nossos anseios adolescentes estavam um tanto distantes. O tempo, no entanto, se incumbiu de aproximar as duas gerações, o que mais tarde rendeu ótimos frutos, como parcerias nas artes e muitas trocas de informações importantes para ambas.
            O poema a seguir, segundo a própria autora, é inspirado em leituras de Fernando Pessoa e seus heterônimos. Uma experiência que, com certeza, marca a vida de qualquer um que se aventure a mergulhar na obra deste grande poeta português. Espero, em breve, mostrar aqui outros trabalhos de Karina.

 

Roberto D´arte


Posted: 08:24 AM, Dec. 2, 2005
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AUTOR CONVIDADO: ANA KARINA MORAES

 

Nua sob a falsa lucidez

Ana Karina Moraes

 

Sonhar...
A loucura d'alma é querer ser
é não ser o que
se é
Sonhar em ser, viver sonhos é natural do ser-Humano
Sonhos, desejos, querer segredos,
do imaginável escuro tornar-se claro
é toda angústia vir à tona
é elucidar o que o ser quis louco
opaco e tão negro que nem seu próprio brilho conseguiu esconder
É envergonhar-te a face, a razão, o coração
Tua loucura envergonhou-te e a tua lucidez
O que tu fostes de louca e na loucura
é o que quis teu ser
Punir agora o que tens de ex-segredo
é arrepender-te de todo o querido
O caos da angústia é tão sugador
que é querer não deixar-te ter coragem
ter razão, ter sentido
Arrancaram de mim a minha vida
o meu sonho, todo o meu querer
Deturparam minha loucura
e a minha loucura é a liberdade
A liberdade, os lúcidos não a têm
não sentem, não vivem,
não choram, não dão boas gargalhadas
pois são apenas lúcidos
Pensar que se tem razões demais
é fingir que não se sente os mais lúcidos e íntimos desejos
é negar o inegável, ou melhor, é camuflar o que não se pode
esconder
porque não se consegue
Não se pode deixar de sentir a vida
entregar-se a sua negação
é fruto da mais louca tentativa de ser racional
que poderá levar-te à loucura
Não,
não se pode tentar tirar de mim
o que acho, o que vejo, desejo e sinto
Sonhos... Será só sonhos?
Achar que a vida é bela é ser medíocre
e cruel consigo mesma
Quando se pensa ter certezas na vida
dolorosamente se nos prova que a única certeza que temos
é a de que não se pode ter certezas...
A minha luz quer ficar opaca
até passar o susto da descoberta do meu segredo. EU.

 

 


Posted: 07:35 AM, Dec. 2, 2005
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AUTOR CONVIDADO: PAULO ANDRADE

 

Sensibilidade “felino-poética”


       Está de volta ao DENTROD´ARTE o meu amiguirmão, conterrâneo, músico e grande escritor Paulo Andrade. Numa folga na sua atribulada vida de professor universitário e músico, em Araraquara-SP, onde reside, Paulo me enviou recentemente alguns dos poemas da série “Felínicos” – uma homenagem a estes bichos sensíveis, charmosos e enigmáticos, que ele tanto adora e cria há bastante tempo. Uma paixão compartilhada com a sua esposa Maria Lúcia e agora também com a filha Marina - ambas a seu lado na foto acima.
        Apesar de um pouco afastado dos poemas (o Doutorado recém-concluído o envolveu de forma muito intensa!), Paulo os tem como parte essencial do seu trabalho como escritor e pesquisador do campo literário. Com dois livros lançados, ele chega aos 35 anos com a maturidade espiritual e intelectual de quem tem muito a oferecer. A gente agradece!


Posted: 08:46 AM, Nov. 25, 2005
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AUTOR CONVIDADO: PAULO ANDRADE

 

FELÍNICOS
(ou ensaios de luz e sombras)

 

PAULO ANDRADE

 

 

 

 

RETRATO DE ELIANA

 

na geometria da vértebra
a pele, camurça visível à noite,
matizes de ébano e marfim,
ondula sobre o muro.

 

curvilínea no dorso
a felina — estátua multiforme
cuja cauda são
esculturas de Tomie Ohtake —

 

ostenta farol de topázios que,
atentos ao evaporar da noite,
move-se como respiração de monges


 

FLORA, ESFINGE

 

I ato

 

Flora fixa
em mim seu olhar safira
como quem decifra mistérios
como quem sabe o princípio desde o fim

 

minutos em silêncio concêntrico
esconde no olhar, impenetrável,
o salto exato,
os dentes de sabre à frente das patas,
o vôo em seta

 

cega, só vê o alvo

 

II ato

 

o hábito de despojar-se
sobre a bíblia aberta
(os raios do pôr–do-sol
filtrados pela janela
lhe apraz)

 

a luz sagrada das escrituras
ilumina seu lusco-fusco interior

 

estudo de luz e sombras.


 

SESTA

 

Flora, inquieta,
dorme sobre o sofá
as garras
— punhais entre pelos — expostas
ameaçam o ar
sonha ser leoa em grandes caçadas:
gafanhotos libélulas pardais



 

VISITA DE UM GATO CINZA

 

o chumbo está no veludo da pele
no dormir sobre a janela do quarto
quando trás em si o sono
profundo do metal

 

mas o traço sinuoso da cauda
que trás o volúvel das nuvens
nega a solidez da cor

 

é a neve alva do peito e das patas
que te conduz
não o chumbo do dorso
ou do sóbrio caráter.


Posted: 08:36 AM, Nov. 25, 2005
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Valda de Sá Moraes, uma contadora de histórias contagiante, segue a sua jornada e deixa suas marcas

 

A contadora de histórias
Roberto D’arte


           Um dos sinais que indicam a chegada da maturidade é a troca dos ídolos pelas pessoas que realmente fazem parte de nossas vidas. Se na adolescência é absolutamente compreensível que se tenha artistas e nomes do esporte como referências de grandeza ou mesmo como modelos de vida, na fase adulta este comportamento chega a ser preocupante.
          Os ídolos, por serem inatingíveis, muitas vezes levam as pessoas a criarem sobre eles imagens que não correspondem à realidade. Pior até: fazem com que muitos acreditem que eles são seres humanos  melhores simplesmente porque gravaram um disco, escreveram um livro, jogaram em times de renomes ou simplesmente porque apareceram na TV. Será, por exemplo, que aqueles argentinos que fizeram vigília dia e noite em frente à clínica onde, há pouco tempo, Maradona estava entre a vida e a morte, fariam o mesmo por um amigo, por um parente próximo?
          Trago hoje a certeza de que um escritor, um ator, um músico valem por suas obras, que podem ser lidas, ouvidas ou assistidas com muita admiração. Apenas isso. Qualquer esforço extra para vê-los/tê-los de perto não vale a pena, pois os passos nessa direção significam uma afirmação (consciente ou inconsciente) de que são superiores. E, de fato, não são.
          Cada um deveria olhar para sua própria vida e encontrar aquelas pessoas (pais, filhos, irmãos, parentes, amigos) que realmente merecem ser observadas com atenção. Algumas são tão marcantes que é possível dizer, sem medo de errar, que muito do que somos devemos a elas.
          Sinto-me presenteado por ter tantas pessoas em minha própria família, no meu rol de amigos, por quem nutro profundo respeito e admiração. Pessoas que são infinitamente mais significativas do que quaisquer nomes da música, da literatura ou do cinema que eu admire declaradamente.
           Uma delas, infelizmente, partiu deste mundo há pouco mais de quinze dias. A minha tia Valda Moraes se foi aos 87 anos, praticamente anônima até mesmo para as novas gerações da minha cidade natal (Boa Nova-BA), onde ela passou toda a sua vida. A tenho e sempre a terei como uma das principais responsáveis pela minha paixão por história, pelas memórias dos meus antepassados. 
            Tantas e tantas vezes deitei minha cabeça em seu colo para ouvir sua prosa contagiante, sua maneira ímpar de detalhar ambientes e pessoas. Seus comentários precisos traziam sempre uma pitada de humor refinado, mesmo tendo ela sido uma pessoa de pouco estudo formal (cursou até a 4a série).
            Os últimos três anos de sua vida foram passados em cima de uma cama, num processo doloroso de definhamento. Neste período estive algumas vezes ao seu lado, não mais para ouvir seus casos e histórias, mas para, num silêncio quase incômodo, confirmar o quanto uma pessoa pode ser admirada, mesmo nos momentos em que está distante de seu auge.
            Nenhum escritor me influenciou tanto quanto a minha tia Valda. Nenhuma obra literária que pude ler ao longo da minha existência foi tão valorosa quanto os inúmeros relatos que tive o prazer de ouvir de sua voz. Lamento não tê-los gravado em áudio e vídeo. No entanto, sua partida consolidou a minha convicção de que devemos prestar mais atenção nos que estão do nosso lado, longe dos holofotes da fama, longe do estrelato inatingível.

 

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, em 18 de novembro de 2005)


Posted: 09:32 AM, Nov. 18, 2005
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Obrigação de ser feliz
Roberto D’arte


            Para quem leva a sério as pesquisas de comunidades no Orkut há sempre a recompensa de algumas realmente interessantes. É o caso do “Café Filosófico das Quatro”, que no meu último acesso estava com mais de cinco mil membros. Esta comunidade tem a proposta de debater temas genuinamente filosóficos, sem que haja a necessidade de enfoques acadêmicos e sem o pressuposto de que os participantes dos fóruns sejam da área.
           Em um de seus vários tópicos o assunto gira em torno de uma questão realmente intrigante: “o ser humano tem a obrigação de ser feliz?” Algumas opiniões revelam o quanto é fundamental insistirmos em debates como este. São de respostas e novas indagações que, muitas vezes, encontramos saídas para problemas cotidianos aparentemente insolúveis.
            Um dos participantes desse tópico acredita que felicidade é uma opção, já que existem diversos meios para se estar feliz e outro tanto apontando o contrário. O difícil, disse ele, é que a sociedade contemporânea força um padrão de eterna felicidade.
            Outra pessoa, nessa mesma linha de pensamento, questiona o motivo de tanta obsessão por uma felicidade padronizada, falsa na maioria das vezes. Sua colocação seguinte é certeira e perspicaz: “poderiam até trocar o termo por ‘ter feliz’. Há uma distorção sistemática e massificada da felicidade no mundo de hoje; a maioria passa a vida tentando comprá-la a qualquer preço e morre nos juros e correções monetárias sem ter vivido o melhor dela”.
           Dois participantes defendem que a felicidade permeia a vida humana e consegue existir independentemente dos rumos que ela toma. Um deles define felicidade como “um pano de fundo sereno, que não é totalmente atingido pelas vicissitudes da vida... As ondas sobem e descem, mas esse plano sereno não é atingido... Viver nessa linha de equilíbrio traz paz, traz a própria felicidade”. O outro disse acreditar que a felicidade propriamente dita não é deste mundo. “Existem, sim, muitos momentos felizes, apenas isso. São estes momentos que devem ser vividos completamente, desde que não interfiram, não prejudiquem a felicidade alheia”, opinou.
            Citando o filósofo Arthur Schopenhauer, um “degustador” do café filosófico deu uma aprofundada no tema, escrevendo a seguinte frase: “viver é sofrer, não existe satisfação durável. O mal é inerente ao homem e a felicidade é temporária. Mas temos por obrigação superar as dores do mundo. Não é uma proposição coercitiva, mas uma noção de que a busca e a contemplação pela verdade nos envia ao bem, à felicidade”.
           Na minha contribuição ao tópico, eu ressalto que a nossa verdadeira "obrigação" (entre aspas mesmo) é a de lapidarmos a nossa própria existência. Digo, em seguida, que se colocarmos em questão a própria palavra obrigação, relacionada à felicidade, teremos que definir primeiro a quem devemos a obrigação de ser felizes.
            Os que acreditam que somos criaturas de Deus talvez se sintam devedores dessa obrigação a Ele. Por sua vez, os que acreditam que tudo começa e termina aqui, sem qualquer interferência divina, talvez devam ser felizes por obrigação a si próprios. Eu acho, no entanto, que qualquer das duas opções pressupõe entender felicidade como sinônimo de uma busca por ser melhor em todos os sentidos, de uma superação contínua.
             Lapidar-se, então, é tentar se superar tanto na alegria, na vitória e no prazer, quanto na dor, na tristeza e na desilusão. A felicidade aí é só o norte apontado na bússola de cada um.

 

(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 4 de novembro de 2005)



Posted: 12:36 PM, Nov. 4, 2005
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Cansados da escola
Roberto D’arte


              É preciso que os governantes e teóricos da educação neste país consigam enxergar o que já é um fato facílimo de ser comprovado: alunos e professores estão cansados da escola. Desde que o ano letivo passou de 180 para 200 dias, por força da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei Federal no 9.394/96), sancionada em 20 de dezembro de 1996, as instituições públicas e privadas dos ensinos Fundamental e Médio estão tendo que inventar ocupações pedagógicas e eventos de toda ordem para darem conta desta exigência, sufocando estudantes, docentes e funcionários.
             Nunca se registraram tantas doenças ocupacionais em professores como na última década. Coincidência? Qualquer um que pensa e conhece um pouco da realidade educacional brasileira sabe que não. Os depoimentos de educadores acometidos de estresse e de inúmeras outras doenças são cada vez mais rotineiros. Os médicos são ótimas testemunhas desta triste estatística. Eles podem, inclusive, ser parâmetros para uma pesquisa que se queira séria sobre um problema que terá consequências ainda mais desastrosas num futuro próximo.
            Quem tem na família ou como amigo algum professor já deve estar acostumado com os males que o afetam de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Além de ser educador, tenho vários amigos que também são – parte na rede pública, parte na rede privada e alguns simultaneamente nas duas. Consigo listar pelo menos uns vinte deles, espalhados em Minas, Bahia, São Paulo, Rio Grande do Norte e Pará. Suas queixas, resultantes do mesmo mal, são variadas: calos nas cordas vocais, pedras nos rins, gastrites, úlceras, enxaquecas constantes, alergias de pele, fobias, síndrome de pânico etc.
             Há muitas outras profissões tão ou mais estressantes, não restam dúvidas, mas bem poucas delas pressupõem uma carga de trabalho a ser cumprida em casa, em dias e horários que deveriam ser para descanso. Se já era sufocante com 180 dias letivos, dá para imaginar com 200. A pressão é tanta que as escolas tiveram que inventar sábados letivos, feriados letivos somente para cumprir tabela. Esta é uma das farsas voltadas exclusivamente para atender as exigências do MEC (Ministério da Educação).
             O Governo Federal, desde que entrou em vigor a LDB, tem as estatísticas como vitrine para dizer ao mundo que a educação brasileira está caminhando para os padrões internacionais de primeiro mundo. Mas não é verdade! Não é com um ano letivo extenso que os estudantes vão melhorar seu nível de aprendizagem – até porque as férias têm efeito lúdico e até terapêutico para quem vive cercado desde muito cedo de obrigações. Ter espaços físicos adequados para receber os alunos em dois turnos, ter profissionais bem remunerados para que não precisem trabalhar em várias escolas, investir na formação destes profissionais e cuidar para que a educação não vire um comércio como outro qualquer são alguns dos cuidados básicos para um país que acredita no potencial da educação.
              O Jornal Nacional, da Rede Globo, exibiu na semana passada uma série de reportagens sobre países que saíram de sérias crises sociais e econômicas porque investiram nessa área. Na Coréia do Sul, por exemplo, um professor do equivalente ao nosso Ensino Fundamental é incentivado a fazer pós-graduação e a se dedicar a uma só escola. Para isso recebe um salário de 10 mil e 500 reais e conta com escolas públicas devidamente equipadas e preparadas para oferecer aos alunos um espaço realmente sedutor.
              Embora seja muito difícil reverter no Congresso Nacional o absurdo dos 200 dias letivos, vale a pena os educadores terem coragem de denunciar as consequências disso. Como é bom lembrar do meu tempo de estudante, quando tinha quatro meses de férias por ano e sentia saudade da escola!

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 21 de outubro de 2005)


Posted: 11:37 AM, Oct. 25, 2005
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A Minas mais Minas
Roberto D’arte


           Muito provavelmente o sentimento de ser mineiro do morador de Pirapora seja o mesmo daquele que está em São Lourenço, no chamado Circuito das Águas. Apesar de já poder ser considerado um “baianeiro” (após quase 13 anos morando no estado), ainda não consigo deixar de ver Minas Gerais de uma forma um tanto caricaturada. Talvez por isso tenha elegido Tiradentes como a Minas mais Minas.
           Já morei em Ouro Preto e a acho fantástica enquanto emblema histórico da alma mineira. No entanto, a velha Vila Rica perdeu, como a sua vizinha Mariana, um tanto daquilo que considero essencial em Minas: a poesia simples e cotidiana que fica nitidamente impressa em casas, ruas e gente. Foi exatamente isso que pude apreender em Tiradentes depois da minha segunda visita à cidade.
          Acho que o fato de Ouro Preto e Mariana serem cidades maiores e também universitárias, como Viçosa, faz com que o dia-a-dia por lá seja bem mais diferente e agitado do que em Tiradentes. Mas, na verdade, nem é esta a principal diferença. Um simples passeio por Tiradentes, seja de carro, a pé, de charrete ou na charmosa maria-fumaça, traz à tona esta sensação de estar mergulhando fundo no verdadeiro coração das Gerais.
          Sentado num dos bancos da praça principal da cidade, com o olhar perdido na belíssima Serra de São José, fiz uma outra viagem que me deixou ainda mais perto da Minas que desde a infância instiga a minha imaginação. Tive ali a convicção de que “a felicidade mora ao lado”, como disseram Beto Guedes e Ronaldo Bastos na música Sal da Terra. Uma felicidade envolta em silêncio, em simplicidade e num certo mistério que só as montanhas mineiras parecem guardar.
          Descrever a Tiradentes física é relativamente fácil, mas faltam palavras para dar forma à “mineiritude” que tento ressaltar ter sentido por lá. Também não pretendo aqui fazer qualquer propaganda turística do lugar, até porque os órgãos oficiais responsáveis por isso já possuem estratégias infinitamente melhores. Quero apenas deixar impressões que possam servir de convite aos que desejam (re)encontrar os caminhos da identidade mineira.
          De quebra, ainda é possível voltar ao passado para entender a importância da história dos Inconfidentes para Minas e para o Brasil, além das inúmeras mensagens que resistem ao tempo e podem ser resgatadas nos seus principais marcos preservados. Para os visitantes de primeira viagem eu recomendo dois passeios: um de charrete (seus condutores dominam bem as principais informações históricas sobre a cidade) e outro no trem que liga Tiradentes a São João Del Rei (aí as sensações podem ser as mais diversas e imprevisíveis, mas, com certeza, boas e inesquecíveis).

 

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 7 de outubro de 2005)


Posted: 10:43 AM, Oct. 14, 2005
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Sala de Justiça tupiniquim
Roberto D’arte


          Já passou da hora de termos aqui no Brasil uma filial da legendária Sala de Justiça, que em nada se parece com qualquer sala destinada ao Judiciário nacional. Quando criança, em plena vigência da fase ingênua de vida, lia os gibis e assistia aos desenhos animados que contavam as sagas daquela legião de super-heróis, responsável por defender o universo das forças do Mal.
          Eram tantos os nomes dos emissários do Bem que nem sempre se fazia necessária uma ação conjunta de todos eles. Super-Homem, Mulher Maravilha, Batman, Robin, Lanterna Verde, Super-Gêmeos, Aquaman, Flash, Vulcão Negro... A Sala de Justiça, se existisse de verdade e pudesse combater o crime como na ficção, teria trabalho no Brasil para às 24 horas do dia.
          A sensação que temos diante dos assaltos, sequestros, assassinatos, atos terroristas, redes de corrupção etc, é que somente os velhos e bons super-heróis das histórias em quadrinhos teriam como dar jeito neste caos social. Qualquer um deles, por menos poderoso que fosse, serviria.
          Pode até ser um chavão ingênuo e ultrapassado imaginar que realmente haja uma luta do Bem contra o Mal, de Deus contra o diabo. Mas se não há, com certeza existe uma confusão completa de valores entre um grande número de pessoas – aquelas que acreditam adquirir algum poder passando por cima de tudo e de todos, conquistando o que querem através da força e do medo alheio.
           Se não há o Mal, então como pode ser chamado alguém que planeja um atentado para matar milhares de inocentes? Como classificar um seqüestrador que mantém um refém em cativeiro em troca de dinheiro? Como entender quem usa a miséria do povo como trampolim para suas aspirações políticas? A impotência que nos invade diante da maldade e da injustiça vem da falta de sentido das escolhas feitas por muitos.
           A infindável lista de super-heróis imortalizados nos gibis e nas telas de cinema e de TV carrega uma informação básica sobre os seres humanos: que sua evolução é desigual. Os super-heróis (enquanto seres que carregam projeções de características almejadas pelos homens) são essencialmente diferentes dos super-vilões e das muitas figuras de carne e osso que lhes servem de inspiração.
           Em essência há os que alcançaram um grau maior de evolução espiritual – e por isso entendem melhor que o Bem é a escolha mais inteligente, e aqueles que ainda engatinham espiritualmente – e por isso agem movidos apenas por um instinto bruto. Qualquer habitante do planeta neste início de novo milênio é autor ou vítima dos maiores problemas que afetam a todos, começando pelas ações do crime organizado, pela fome, pela miséria e pela devastação de nossos recursos naturais.
            Ser autor e ser vítima pode dar na mesma em certos casos (como no desrespeito à natureza ou na responsabilidade por certos problemas sociais), mas em outros é uma questão de escolha. Escolhe-se viver corretamente, respeitando limites e, principalmente, o bem estar comum; assim como escolhe-se o submundo da corrupção, da desonestidade, da ganância, da sede de poder e da crueldade. Estes dois lados são, de fato, antagônicos e quase não há como encontrar um meio termo entre eles. Ou se torce para o Superman ou para Lex Luthor; para Batman ou para Curinga. Eles são arquétipos do que acreditamos e do que abominamos. 
            Quanto aos habitantes decentes deste Brasil, vítimas de corjas de vilões de todos os calibres, só mesmo pedindo à Sala de Justiça uma filial tupiniquim.

 

publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 29 de setembro de 2005


Posted: 01:09 PM, Sep. 29, 2005
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Orkutmania
Roberto D’arte

 

             Aos internautas que ainda resistem em entrar na grande rede de relacionamentos, que tem o estranho nome de Orkut, vale a pena rever esta decisão. Este espaço virtual pode vir a fortalecer laços bastante reais e cotidianos, se bem usado.
             Há quem atribua ao Orkut adjetivos com conotações negativas, a exemplo de um possível incentivo à invasão de privacidade ou mesmo de permitir a entrada de pessoas racistas, preconceituosas e perversas (é fato que existem comunidades criadas por torturadores de animais e por pessoas que assumem odiar negros, judeus, nordestinos e homossexuais). No entanto, este tipo de gente doente é minoria e acaba sendo rechaçada dentro de suas próprias comunidades.
             Há também os que fazem dessa rede uma disputa por mais contatos, ou seja, estão mais interessados em colecionar números. São aqueles que usam os dados numéricos para se sentir mais importantes. Saem normalmente numa busca desenfreada para adicionar mais e mais pessoas, ainda que nunca mandem (ou recebam) mensagem alguma para a maioria destes novos “amigos”. Neste caso não há nada de negativo; é só mesmo uma constatação do quanto a vaidade e a carência também são levadas para o mundo virtual.
             O fantástico do Orkut é a possibilidade de se terem por perto os amigos distantes (muitos dos meus moram em outros estados), além da “arqueológica” chance de se encontrarem ex-colegas da época de escola (eu, por exemplo, tive a sorte de descobrir comunidades de duas escolas na Bahia, onde estudei a 7a e a 8a Séries e o antigo 1o Ano do 2o Grau, entre 1982 e 1984). Há também uma infinidade de comunidades para todos os gostos, desde aquelas específicas para as áreas profissionais em que cada um atua até as que se referem às preferências políticas, culturais, esportivas, sociais etc.
             A rede pode ainda, por incrível que pareça, aproximar a própria família. Parece contra-senso imaginar que casais, pais e filhos ou irmãos precisem do mundo virtual para estreitar laços. A verdade é que o cotidiano, muitas vezes, faz com que as pessoas próximas sejam mais distantes entre si do que com aquelas tidas como “estranhas” e distantes de fato. Infelizmente, não são todos os casais que se sentem à vontade para dizer “te amo” cara a cara. O mesmo vale para pais e filhos ou irmãos.
             Já tive o prazer de ver no Orkut maridos que deixam verdadeiras declarações de amor em depoimentos colocados nas páginas das esposas; namoradas que fazem o mesmo nas páginas dos namorados; de pais para filhos; de filhos para pais; de alunos para professores e vice-versa... Provavelmente muitos dos que fazem isso na rede também o fazem frente a frente. Já outros talvez encontrem no virtual uma oportunidade impar para vencer a timidez ou aquele constrangimento que muitos têm de fazer declarações de amor e de afeto “ao vivo”.
            Não dá para classificar o Orkut como bom ou ruim, assim como não dá para fazer o mesmo com a própria internet, com a TV, com o cinema, rádio etc. Tudo que é feito pelo ser humano é passível de trazer embutidos todos os seus defeitos e virtudes, todas as suas paixões (alegria, tristeza, amor, ódio, egoísmo, compaixão, ciúme...). O que dá para dizer é que a Orkutmania – lançada mundialmente pelo engenheiro de informática Orkut Buyukkokten – pode, sim, ser sinônimo de bons encontros e reencontros, de propagação de idéias, de troca de impressões e informações, de construção de afinidades.

 

(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 23 de setembro de 2005)


Posted: 08:13 AM, Sep. 23, 2005
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“Livro” de 3 exemplares

 

Há 14 anos, mais especificamente na passagem do inverno para a primavera de 1991, surgia um “livro” que já nasceu raro. Explico: eu e os amigos Paulo Andrade e Renato Pedrekal fizemos TRÍADE , um livro encadernado e xerocado (por isso as aspas em livro) com apenas três exemplares (os nossos!). Ainda entrando na casa dos 20 anos, nós fizemos daquele projeto literário uma espécie de confirmação da nossa amizade, vinda da infância.
TRÍADE, que teve o desenho da capa e alguns internos feitos por um amigo em comum – o paraibano Jaildo Gomes – foi dividido em três partes: “Tormenta” (os poemas de Paulo Andrade), “Frêmito” (os de Renato Pedrekal) e “Medra” (os meus, à época com a assinatura Betto Moraes). O DENTROD´ARTE faz hoje uma homenagem a este projeto, expondo apenas imagens da capa e de páginas internas. Os poemas ficam para uma próxima ocasião...


Posted: 01:42 PM, Sep. 16, 2005
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Posted: 01:40 PM, Sep. 16, 2005
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Posted: 01:18 PM, Sep. 16, 2005
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Papo de otimista
Roberto D’arte


            Há quem acredite que ser otimista é ver o mundo pela ótica de Pollyanna – aquela personagem famosa criada por Eleanor H. Porter, que fazia o “jogo do contente” e sempre encontrava um jeito de ver o lado bom nos infortúnios. Ou então que é ter a pureza da “Velhinha de Taubaté” – personagem de Luiz Fernando Veríssimo que até bem pouco tempo (antes de morrer em pleno escândalo político do “mensalão”) acreditava incondicionalmente em todos os governos.
            O verdadeiro otimista é aquele que, após assistir à sequência de notícias trágicas no Jornal Nacional, liga o aparelho de som, pede uma pizza e vai assobiando para o banho se preparar para esperar a namorada. Com o risco de receber o rótulo de alienado por universitários de esquerda, militantes do movimento estudantil, este cidadão de-bem-com-a-vida é o melhor exemplo de como se deve lidar com os problemas em qualquer época (já que o ser humano vive dias de crise desde que colocou os pés na Terra).
            Por que alguém deveria alterar seu cotidiano em função das denúncias envolvendo o Partido dos Trabalhadores e o Governo Lula? Siglas e nomes no universo político do Brasil nunca puderam ser associados a seriedade, honestidade e trabalho em prol do coletivo. Um otimista nato não se deixa iludir por promessas de nenhum deles; ao contrário, fica sempre com um pé atrás e trata de construir a sua vida com as próprias mãos.
            Pegando carona naquele sábio ditado, nunca é demais lembrar que há males que realmente vêm para bem. Esta crise que assola o Governo Federal e o Congresso Nacional veio em boa hora. Na hora de mostrar que o último partido de peso que faltava ocupar o comando da nação é igual ou pior aos demais. Toda crise é importante por revelar algum lixo debaixo do tapete; por estampar caras nuas e cruas sem qualquer maquiagem. Crise é sempre um prenúncio da verdade que precisa vir à tona.
            Como vivemos numa democracia que ainda nos obriga a votar, uma boa resposta à corrupção é o voto-em-ninguém; é o deixar claro que nada do que está sendo oferecido vale a pena apostar. Esta desesperança manifestada nas urnas é também um sinal de otimismo. Não o otimismo que desiludiu a Velhinha de Taubaté (“ela morreu aos 90 anos na frente da televisão, talvez com o choque de alguma notícia”, segundo Veríssimo), mas aquele fruto da consciência de que o sofrimento, a decepção, a desilusão também impulsionam o crescimento de uma pessoa, de uma nação.
            Logo no início dessa onda de denúncias envolvendo o PT um colega me perguntou se eu estava decepcionado, sabendo ele que votei em Lula nas últimas eleições presidenciais (literalmente nas últimas quatro, desde 1989). Tranquilamente respondi que não e argumentei que somente se decepciona aquele que cria expectativas. Como nunca fui filiado a partido algum e sempre procurei decidir meus votos por convicção própria, escolhi Lula por desejar ver alguém com o seu perfil na condição de presidente da República. Nunca o imaginei super-homem, muito menos salvador da pátria. Ambos são invenções do mundo da ficção.
             A “era Lula” fecha, a meu ver, todos os ciclos imagináveis no topo da administração pública. O poder na esfera federal já foi ocupado pela direita, pelo centro, pela esquerda, por quem veio de cima, por quem saiu de baixo... Diferente agora só se o candidato for um extra-terrestre. Ou, como diria um velho amigo paraibano: “só Jesus e mais ninguém”.

 

(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 9 de setembro de 2005)


Posted: 11:16 AM, Sep. 9, 2005
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"PROSA POÉTICA"

Houve uma época em que acreditei – e insisti – que poderia escrever poemas. Só não digo que foi um desastre porque o ímpeto de escrevê-los pode, de uma certa forma, ser chamado de lapso poético.
Dia desses encontrei um material encadernado de 1993, intitulado “Introspectu” e assinado como Betto Moraes (Roberto D´arte viria uns seis anos depois). Nele estão alguns arremedos de poemas, escritos entre 1991 e 1993, dos quais escolhi um (“Fugaz”) para colocar aqui no blog.
A intenção é boa: dividir com os amigos escritores e leitores como acontecem, ao longo de nossas vidas, as fagulhas criativas (ainda que o resultado não seja lá tão criativo assim). De qualquer forma identifiquei neste “poema” um indício de prosa, que continua sendo a minha praia. Fica aí o registro, que ganha minha interpretação atual na imagem que o acompanha.


Posted: 10:27 AM, Sep. 2, 2005
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Arquivos do Autor

Fugaz

 

Quem rastreia aquela luz
No fim do túnel
Infindável túnel
E julga estar lá
O que chama felicidade
Procura tão mais ainda
Esquecer que ela não está
Em lugar algum
E está em todos os lugares
O tempo todo
Em tempo nenhum
Como um vulto
Que passa rápido
Muito rápido
E a chance de agarrá-la
Está nos olhos
Detrás dos olhos
E nas mãos
Sobre as mãos
Que as espalham
E se juntam
Fluxo contínuo
Indivindo
Gesto imperceptível
Indubitável sensação
De tê-la apreendido
Apreensão fugidia

 

 


Posted: 10:21 AM, Sep. 2, 2005
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ARTE INDEPENDENTE

 

Vivemos em um país de muitos talentos nas mais diversas vertentes da arte, mas de pouquíssimo investimento nos produtos criados por eles. Isso pode ser facilmente constatado no cenário musical e literário – dois dos que mais apresentam projetos independentes de CDs e livros.
Há milhares de músicos e escritores nos quatro cantos do Brasil produzindo trabalhos autorais a todo vapor. Infelizmente, a maioria deles sequer consegue sair das gavetas por falta de dinheiro, de incentivo e de divulgação. Quem se arrisca a bancar seus próprios produtos tem a árdua tarefa de correr muito para tentar não apenas obter o retorno financeiro do investimento, como também buscar espaço para divulgá-los.
O DENTROD’ARTE  apresenta a seguir um projeto literário lançado há quase três anos por dois grandes amigos: Paulo Andrade (meu conterrâneo de Boa Nova-BA) e Mário Massena (artista plástico de Nova Friburgo-RJ). O livro, intitulado “Inventários”, nasceu de uma parceria dos dois, materializada à distância (Paulo em Araraquara-SP e Mário em Friburgo). A obra traz vários poemas de ambos a partir de um projeto gráfico totalmente artesanal feito pela Casamarela/Agogô Editorial, coordenada por Massena e por sua esposa Sara (também minha grande amiga e conterrânea). Fica aqui uma homenagem do DENTROD’ARTE a esta iniciativa que bem pode servir de inspiração para todos aqueles que acreditam no que fazem e desejam mostrar suas produções a um público interessado em consumi-las.
Os dois poemas selecionados estão aqui no blog exatamente com o mesmo tipo de letra usado no livro (cuja capa vem logo abaixo). As imagens que os ilustram são por conta da minha livre interpretação.

(Roberto D’arte)


Posted: 03:00 PM, Aug. 26, 2005
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