Lançado em 3 de junho de 2005, o DENTROD´ARTE é destinado à divulgação de textos de autores ainda não muito conhecidos do grande público. É um blog para os amantes da arte feita com palavras, imagens e, principalmente, com o coração. DENTROD´ARTE porque as ebulições da arte nascem dentro d’alma!
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Apesar de muitos filósofos, intelectuais e professores da área terem torcido a cara para a série “Ser ou Não Ser”, exibida há um mês no Fantástico, a iniciativa merece aplausos. Eu, que me formei em Filosofia há 15 anos, sei muito bem o que é ver uma disciplina escolar e uma área tão importante do conhecimento serem colocadas no ostracismo ou estarem relegadas a segundo plano. As críticas ao programa produzido e apresentado pela filósofa Viviane Mosé giram em torno do quadro tratar de temas clássicos da Filosofia de forma resumida. Há os que dizem que a Rede Globo está tentando banalizar a Filosofia com produções superficiais. Ao contrário dos que pensam assim, eu vejo a série do Fantástico como uma excelente oportunidade de introduzir o grande público em uma área pouquíssimo conhecida e estudada no Brasil, principalmente nos últimos trinta anos. O golpe militar de 1964 fez o grande desfavor aos brasileiros de extinguir dos currículos escolares uma disciplina que oferece ferramentas básicas para o exercício do pensar, do questionar. O “Ser ou Não Ser” não pode (ou deve) ser visto como uma proposta de aprofundamento filosófico. Até porque o Fantástico é uma espécie de revista semanal eletrônica que não tem qualquer pretensão de exibir o que quer que seja de forma densa e extensa. O que a série tem de mais interessante é a proposta de trazer à tona temas essencialmente amplos e profundos, numa roupagem que um leigo no assunto possa compreender. Como professor de Filosofia de adolescentes minha tarefa é justamente tentar encontrar linguagens adequadas que possibilitem aos alunos acessos mais fáceis ao conhecimento filosófico. Aliás, filosofar não é um privilégio de poucos. É algo que todos fazem o tempo inteiro. A diferença é que são poucos os que, de fato, percebem que estão filosofando ou que entendem a dimensão de suas inquietações e de seus questionamentos. Viviane Mosé, que está acostumada a ensinar Filosofia em cursos livres para quem não é estudante da área, está conseguindo passar seu recado numa roupagem feita sob medida para o vídeo. No último domingo, por exemplo, ela explicou de forma simples e direta o famoso Mito da Caverna, elaborado por Platão há cerca de 2.500 anos. Quem conhece esta passagem na obra do filósofo grego sabe que sua essência foi tocada a contento no programa. Torço para que os 16 capítulos da série, que se estenderá por mais três meses, sejam editados em um DVD. De antemão já sou um dos que não pensará duas vezes antes de adquiri-lo e usá-lo em sala de aula. Quem dera pudéssemos ter outras produções filosóficas de cunho didático no Brasil – país que ainda engatinha neste tipo de material. No mais, espero que as novas gerações possam e se esbarrar mais vezes com a Filosofia, e que esses encontros – rápidos ou duradouros – consigam deixar suas marcas. Os que acham que filosofar deva ser algo apenas para iniciados ou intelectuais precisam descer de seus pedestais. A humildade filosófica, como bem ensinou Sócrates (“só sei que nada sei”), é o ponto de partida no caminho do saber.
(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 19 de agosto de 2005)
Não há qualquer acontecimento na vida de uma pessoa, por pior que seja, que não possa ser entendido como um sinalizador para seus erros e acertos. Se todo suicida, por exemplo, tivesse analisado melhor os motivos que o levaram a cometer o ato extremo, e mesmo tivesse dado tempo ao tempo, possivelmente teria condições de superar a crise. Quem sabe até conseguiria rir dela. Certos ditados populares não se tornaram atemporais à toa. Um deles – “após a tempestade vem a bonança” – tem a capacidade de nos fazer acreditar que nenhuma mazela é tão grave que não possa ser superada. A dor e a felicidade podem perfeitamente ser entendidas como dois lados de uma mesma moeda. Pode-se aprender a crescer igualmente com as duas. Com a primeira, então, a aprendizagem tende a ser ainda mais marcante do que com a felicidade. Esta última, se entendida superficialmente, pode levar à acomodação e à falta de atenção com questões fundamentais. A dor, não! Ela impõe um tipo de consciência quase que orgânica; ela fica nas memórias da pele, da mente e do espírito. Uma recente história verídica, acontecida na região de Viçosa, me fez acreditar ainda mais nisso tudo. Um conhecido senhor de aproximadamente 70 anos contou como a vida é capaz de ensinar através da dor e da implacável ironia do destino. Ele, um profundo entendedor do poder das ervas e das orações que curam, experimentou as consequências de seus próprios atos. Numa certa tarde saiu para pescar com a esposa em um rio próximo da cidade onde mora. Como fez tantas vezes, escolheu um cantinho para ficar, lançou a vara de pescar na água e aguardou pacientemente que algum peixe mordesse a isca. O mesmo fez sua esposa num local perto dali. Cerca de uma hora depois o balde da mulher já estava com um número considerável de peixes, enquanto o seu continuava como chegou. Atribuindo a situação ao lugar onde estava, propôs à esposa uma troca de posições. Assim foi feito. Apesar disso, tudo continuou tal e qual: o balde da mulher enchendo cada vez mais e o seu absolutamente vazio. Faltando pouco tempo para escurecer e vendo que nada mudaria, o homem brincou dizendo que não aceitaria aquela vergonha de voltar para casa sem um único peixe, enquanto a esposa já estava com seus troféus garantidos. Ele resolveu, então, lançar uma rede que havia levado, mas que não pretendia usar. Minutos depois dela ter mergulhado fundo nas águas, foi puxada para a superfície sem um único peixe, mas com um objeto metálico reluzente. Era um “alicate turquesa” (usado normalmente para cortar arames grossos) que, segundo o benzedor, parecia ter saído da loja de tão novo. Eis o que parecia ser uma sorte bem maior do que a da mulher! Não demorou dois dias para que a turquesa fosse usada por ele para uma tarefa um tanto incomum em se tratando dessa ferramenta: cortar a dura unha do dedão do pé. Um deslize e o alicate provocou um corte aparentemente sem importância. Este foi se agigantando até virar uma ferida que, um mês depois, o levou ao hospital para que o dedo fosse amputado. O problema se avolumou ainda mais até culminar na amputação da perna abaixo do joelho. Analisando o que lhe aconteceu, o homem disse com o seu linguajar simples que as respostas para os mistérios da vida estão em entrelinhas nem sempre compreensíveis ao primeiro olhar. O que seria um prêmio inesperado na tarde de má sorte na pescaria foi, na verdade, uma triste sentença. A turquesa cortou mais do que uma parte do seu corpo. Ela provavelmente também serviu para extirpar sentimentos bem mais corrosivos: a vaidade e o orgulho.
(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 26 de dezembro de 2003)
O texto a seguir é de uma pessoa muito querida, que literalmente vi nascer. Aos 17 anos, minha sobrinha Luciana Moraes (foto), que mora em Boa Nova-BA e cursa a 2a Série do Ensino Médio, vem amadurecendo e se tornando, cada vez mais, um ser humano sensível e aberto a crescer com o que vê em si e no mundo. Apaixonada por literatura (declaradamente aficionada pela obra de Shakespeare), Lu vem ensaiando poemas e textos livres sobre assuntos que a tocam. É o caso de “O Amor”, em que ela busca encontrar definições que a aproximem deste sentimento universal, perseguido por todos e, de uma certa forma, tão enigmático. Espero que este seja o primeiro de muitos textos seus a passearem aqui pelo DENTROD´ARTE.
O amor é a base da nossa existência, pois só aquele que ama consegue viver intensamente, compreendendo o mundo, as pessoas e tudo o que o cerca. Por meio do amor podemos conhecer a nós mesmos, pois ele nos revela uma outra face. Uma face que, muitas vezes, fica oculta dentro de nós; uma face misteriosa, que precisa de algo bonito para poder se revelar. Quando o amor é verdadeiro, começa a surgir dentro de nós um mundo diferente, um mundo de sonhos, de simplicidade e de paz. Temos uma outra visão de tudo o que nos rodeia. O amor é o seu único e grande aliado, ele o acompanha em caminhos luminosos, caminhos retos; que o leva para a marcha da felicidade e da perfeição. Com o amor podemos escutar e presenciar aquela música tão bonita que rege a nossa vida. O amor é o amadurecimento de nossas vidas, de nossa almas, é o que nos faz crescer como ser humano. Ele consiste em viver cada instante como se fosse o último. Guardemos sempre conosco a eterna lembrança do amor, pois quando este nos toca estaremos para sempre iluminados. "A maioria das pessoas procura o amor como um fim, não como um caminho. Talvez por isso ele se torne tão inacessível e tão raro!"
Como marinheiro de primeira viagem no universo "bloguiano", entrei de férias em meados de julho e sequer mencionei isso aqui. Quem, por ventura, tenha entrado neste período pode ter achado que abandonei o DENTROD´ARTE, mas não é verdade! Aqui estou de volta, depois de uma viagem revitalizadora na Bahia, mais especifiamente na minha terra natal, a pequena e acolhedora Boa Nova.
Reforço o convite para todos os escritores que quiserem enviar seus artigos, seus poemas, contos, crônicas... Entre que a casa é sua!
Se o Brasil tivesse sido descoberto pelos ingleses talvez fôssemos hoje uma nação como os Estados Unidos; se não tivessem havido as duas grandes guerras deste século o mundo talvez não tivesse hoje a bomba atômica; se o golpe militar de 64 não tivesse acontecido seríamos um outro país... Além de servir como referência para análise do que já passou e do que pode se repetir, o futuro do pretérito só funciona mesmo nos filmes de ficção científica. Quem não assistiu à trilogia “De volta para o futuro”, na qual um personagem tem a chance de mudar o seu presente ao conseguir voltar ao próprio passado numa máquina do tempo? Fora isso, esse tempo do verbo, que aprendemos a conjugar nos primeiros anos de escola, é o que há de mais surreal na gramática de qualquer idioma. Exatamente por levantar uma hipótese impossível de se comprovar é que ele traz à tona sentimentos que vão da angústia à culpa, passando pela impotência diante do momento em que se vive. “O melhor lugar do mundo é o aqui e o agora”, já disse o cantor e compositor Gilberto Gil, referindo-se à dificuldade que as pessoas têm em lançar âncora no presente. O que são o saudosismo exagerado e a preocupação (“pré-ocupação”), senão reflexos disso? O passado é a base que sustenta historicamente o ser humano, seja coletiva ou individualmente, servindo como um registro concreto dos seus erros e acertos. Mas apenas isso! Não dá para tomá-lo como um determinante incondicional das escolhas que podemos ou devemos tomar, enquanto povo ou indivíduo, no exato instante em que vivemos. Confesso que nunca gostei da trágica idéia do “pecado original”, herdado, segundo a Igreja Católica, a partir de um erro daqueles que seriam os primeiros seres criados por Deus. É certo que é difícil apagar heranças que atravessam séculos como maldições, a exemplo do genocídio cometido com os nossos índios, que os impedem de ter qualquer motivo para comemorar os 500 anos do Brasil. Nem por isso os brasileiros como um todo precisam envergonhar-se de festejar uma data tão significativa para qualquer nação. Afinal, vivemos num país privilegiado em muitos aspectos e devemos nos orgulhar disso! Seria, por exemplo, uma grande injustiça alguém ser expulso de sua pátria apenas por ser descendente de Hitler. Parece uma comparação ingênua e despropositada, mas ilustra bem o quanto pode o passado interferir nos rumos do presente e atingir pessoas que nenhuma responsabilidade teve pelo que se fez lá atrás. Somos, sim, responsáveis pelo momento em que vivemos e por tudo que estamos construindo e destruindo. Assim como também temos responsabilidade em não consertar o que consideramos erros do passado que insistem em continuar existindo. Isto é real, é atual, é possível. Há uma grande diferença em lutar para que as tribos indígenas ainda existentes possam ter uma vida digna, com terras legalizadas e condições materiais que possibilitem isso, e continuar recorrendo ao passado para condenar os que viveram e fizeram da história o que ela é. E já que estamos falando em verbo, é oportuno dizer que quatro deles podem nos ajudar a entender uma complicada equação que bem traduz a opção existencial feita por uma fatia considerável da humanidade no presente. Imaginando-se que o correto seria as coisas estarem à serviço do bem estar do homem e não este ser escravo do que produz e possui, a melhor ilustração disso seria um círculo com o SER no centro, seguido imediatamente pelo ESTAR e pelo FAZER, para só depois aparecer, mais periférico, o TER. No entanto, o individualismo, o egocentrismo, a ganância e a escassez de respeito e amor inverteram esta ordem. No círculo, tudo parece girar em torno do TER, alavancado pelo FAZER, deixando exilados na periferia o SER e o ESTAR. Diante disso, é até compreensível que muitos tenham nostalgia de épocas que nem mesmo viveram ou que fiquem presos numa teia de culpas analisada pela lente do futuro do pretérito.
(publicado no Jornal Tribuna Livre, Viçosa-MG, em 20 de abril de 2000)
Não sei se a era da Internet e, consequentemente, das trocas de e-mail conseguiu manter viva a instigante comunicação à distância, que outrora as cartas dominavam absolutas. Os que tiveram o prazer de carregar a saudade dos amigos distantes – e matá-la tantas vezes via Correio – são capazes de entender o que é abrir um envelope e encontrar um tipo de presença somente perceptível ao coração. Relendo o livro “Cartas perto do coração” – que reúne parte das correspondências de Fernando Sabino e Clarice Lispector durante 24 anos – pude dar um segundo mergulho na aventura fantástica dessa intensa comunicação à distância motivada pela paixão. Paixão declarada pelo próprio Sabino, que acaba de chegar aos 80 anos de uma vida dedicada à literatura e aos amigos. Na apresentação desta obra, lançada no final de 2001, o escritor mineiro diz que sua correspondência com Clarice foi uma verdadeira reformulação de valores para ambos. Sobre isso ele escreve: “(...) descobríamos o mundo, ébrios de mocidade. Era mais do que a paixão pela literatura, ou de um pelo outro, não formulada, que unia dois jovens ‘perto do coração selvagem da vida’: o que transparece em nossas cartas é uma espécie de pacto secreto entre nós dois, solidários ante o enigma que o futuro reservava para o nosso destino de escritores”. As cartas estão publicadas na íntegra e remontam a um período que vai de 21 de abril de 1946 a 29 de janeiro de 1969. O início desse contato mostra dois jovens que, praticamente, tinham acabado de cruzar a casa dos 20 anos; uma época de muito investimento nos projetos pessoais e profissionais e também de muita insegurança diante do mundo e dos próprios conflitos. Em se tratando de Clarice Lispector (que escreveu seu primeiro romance – “Perto do Coração Selvagem” – aos 17 anos) e Fernando Sabino (que aos 20 e poucos já era redator do jornal Folha de Minas, em Belo Horizonte), juventude e maturidade andavam lado a lado. Impressiona a fluência de suas cartas, que cruzavam o Atlântico às vezes da Suíça (Clarice Lispector) para os Estados Unidos (Fernando Sabino), noutras dos Estados Unidos (Clarice) para o Rio de Janeiro (Sabino). Em todas elas uma rica troca de impressões sobre literatura, cinema e as tantas inquietudes literárias ou não. “Cartas perto do coração” faz jus ao título. O livro revela o lado real de quem conheceu a fama através da ficção. Confesso que, assim que soube do seu lançamento, fiquei curioso em saber um pouco mais da “Bruxa das Palavras”, desta vez por ela mesma e de uma forma absolutamente direta. Clarice me foi apresentada no final da adolescência e seus livros foram imprescindíveis no reforço às tantas afirmações e negações que destruíram e ergueram os meus sonhos naquela época. As impressões clariceanas dizem sempre mais do que aparentam dizer, como bem mostra o trecho a seguir tirado do livro “A Maçã no Escuro”: “(...) a concretização de uma pessoa é muito difícil. Mas não irrealizável. O avanço consiste em criar o que já existe. E em acrescentar ao que existe, algo mais: a imaterial adição de si mesmo”. Se a própria Clarice muitas vezes se pegava tomada pela obscura sensação do não ser, Fernando Sabino traz um tipo de fortaleza talhada na lucidez. Não uma lucidez meramente racional, mas aquela que nasce da inexplicável força espiritual. Tive a oportunidade de vê-lo (e ouvi-lo tocando bateria) em Viçosa certa feita, mas não como gostaria e como tentou programar por dois anos consecutivos o projeto “Grandes Escritores”, capitaneado por Marcelo Andrade (secretário municipal de Cultura), que acaba de remontar uma das maiores obras do escritor: “O Grande Mentecapto”. Se o aspecto saúde não tivesse sido obstáculo, ele teria vindo para conversar com seus leitores. Como desejo que o autor de “O Encontro Marcado” viva muitos anos, espero que Deus ainda permita este outro encontro já marcado com Viçosa. Será certamente uma oportunidade impar de saber um pouco mais do que se passa nas linhas e entrelinhas do seu coração.
(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, de Viçosa-MG, em 4 de julho de 2003)
PS: Quando este texto foi escrito, Fernando Sabino ainda estava entre nós. Em 2004 ele partiu em busca da literatura divina e foi entregar pessoalmente a sua amiga Clarice o coração que sempre esteve presente em suas cartas, em suas obras e que nasceu impresso em sua vida.
Quem consegue dizer com plena convicção que não tem ou que nunca teve medo da morte? Ao rezar a Ave Maria, qualquer católico, praticante ou não, já deve ter repetido inúmeras vezes: “até a hora da nossa morte (...)”. Por que, então, evitamos tanto em falar do assunto, ou batemos supersticiosamente na madeira toda vez que ouvimos a fatídica palavra, se desde que nascemos temos convicção de que, um dia, teremos com ela um inevitável encontro? Há aquela frase que até virou trecho de música da satírica banda Blitz, que diz: “todo mundo quer ir pro Céu, mas ninguém quer morrer”. É bem por aí! O que, talvez, a grande maioria não perceba é que falar da morte é, necessariamente, enxergar o valor da própria vida. Mas os que insistem em achar morbidez ao se tocar no assunto deveriam ao menos assistir a alguns filmes que abordam o tema a partir da ficção e de uma linguagem bem filosófica e poética. Numa rápida puxada pela memória, posso citar três que, direta ou indiretamente, têm a morte como pano de fundo: Perfume de Mulher, Deuses e Monstros e Encontro Marcado. O primeiro, estrelado por Al Pacino – um dos grande atores do cinema americano – conta a história de um coronel reformado que, já cego e completamente entediado com tudo, resolve pôr fim à própria vida. Seu encontro com um jovem estudante secundarista, que é contratado para lhe fazer companhia enquanto a família com quem mora viaja num feriado, dá um outro rumo aos seus planos. A pureza do rapaz, aos poucos, traz de volta ao amargurado coronel um sentido para continuar vivendo e um entendimento do seu próprio desejo de partir. Em Deuses e Monstros o personagem do veterano ator Ian MacKelen é um diretor de cinema de filmes de terror, esquecido por Hollywood. Vagamente lembrado pelos seus maiores sucessos – “Frankstein” e “A Noiva de Frankstein”, ele se vê sozinho e doente, contando apenas com a companhia e os cuidados da velha governanta, que não o abandona por pena e fidelidade a todos os anos que o serviu. Pressentindo que está próximo o seu fim inevitavelmente, ele é assaltado pelas mais diversas lembranças do passado, a partir do contato que tem com um jardineiro, que representa a sua juventude perdida. Encontro Marcado, por fim, é o que mais diretamente fala da morte, que no enredo chega a ser personificada em um jovem (Brad Pitt) que espera conhecer de perto o mundo e as paixões humanas. O escolhido para ciceroneá-lo nesta aventura é um milionário do ramo das comunicações (atuação impecável de Anthony Hopkins) que está prestes a completar 65 anos e que sempre teve o controle de tudo e de todos. Cara a cara com a “encarnação do fim”, ele enfim se convence que é necessária uma reavaliação de sua própria vida diante de um fato que não pode evitar. A surpresa maior, no entanto, fica para o próprio “ceifador de vidas”, que apaixona-se perdidamente pela filha do magnata, interpretada pela belíssima Claire Forlani. Conhecendo de perto uma das maiores “fraquezas” humanas – o amor – ele é obrigado a também escolher entre ficar neste mundo ou continuar cumprindo a mais árdua das missões. Em algumas culturas orientais morrer é uma bênção que deve ser festejada, pois significa a partida para uma escala superior da existência. Sem dúvida que é uma idéia que ameniza bastante a perda de tudo e de todos que aqui se deixa. É difícil para uma pessoa avaliar a si própria e dizer que está preparada para deixar este mundo, mas começar pensando que essa aprendizagem é individual, contínua e intransferível, pode ser um bom começo. Quem já teve a oportunidade de conhecer mais detalhadamente o Tarô deve saber que quando sai para alguém a carta da Morte não significa literalmente um prenúncio do seu fim. Neste oráculo milenar a morte é sinônimo de mudança radical, da atenção que se deve ter para as transformações necessárias, sejam de ordem espiritual, emocional ou até material. No mais, encará-la com uma certa intimidade pode torná-la menos medonha (desde pequeno ouço uma tia chamá-la pelo nome de “Jovita”). Olhando as coisas por este ângulo é possível que muitas mulheres quisessem ter um encontro marcado com uma morte com a cara de Brad Pitt (certamente Claire Forlani ou a ninfeta Liv Tyler renderiam também uma longa fila de candidatos a “passar dessa prá melhor”!). Afinal, devemos concordar que não é nada fácil imaginar ser conduzido para o outro lado por um esqueleto de túnica preta e com uma longa foice na mão.
(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 28 de abril de 2000)
Quem um dia não já pensou na possibilidade de voltar no tempo para consertar alguma coisa na própria vida? A literatura e o cinema sempre viram nesse tema um prato cheio para enredos fantásticos. A mais recente obra da telona abordando o assunto é “O Efeito Borboleta”, do diretor Eric Bress, lançado em 2004 e recém-chegado às videolocadoras. Seu título é uma clara referência à tão badalada Teoria do Caos, que menciona (em livre interpretação) que o simples bater de asas de uma borboleta no Brasil pode desencadear um tufão do outro lado do mundo. O filme, extremamente bem amarrado, prende a atenção do início ao fim e traz a instigante história de Evan – um jovem estudante de Psicologia que teve diversos problemas enquanto criança e adolescente, sofrendo de desmaios e bloqueios de memória. Após reencontro com Kayleigh – seu amor de infância, ele descobre que, ao ler seu diário, consegue enviar sua consciência adulta para o passado, em seu corpo de criança. Nessa “viagem” Evan consegue mudar completamente o seu destino e o de todos a sua volta. Isso, no entanto, tem seu preço... Meu fascínio por este tema vem desde o fim da década de 70, época em que passava na TV o seriado “Túnel do Tempo”. Dois agentes bem treinados e monitorados por uma base de cientistas faziam as viagens de volta aos fatos mais marcantes da história da humanidade. Embora não coubesse a eles interferir em nada, isso não conseguia ser seguido à risca, pois ambos eram sempre obrigados a se envolver nos episódios que deveriam apenas observar. Da mesma época, o brasileiríssimo Sítio do Pica-Pau Amarelo também mantinha as idas e vindas no tempo através da palavrinha mágica “Pirlimpimpim” – uma espécie de passaporte irrestrito que dependia única e exclusivamente da imaginação dos viajantes. Seja na Grécia conversando com filósofos e divindades, ou na Roma antiga, Pedrinho, Narizinho, Emília, Visconde, Dona Benta e outros da turma faziam a ponte entre passado e presente como se estivessem indo ali no bucólico Arraial dos Tucanos. Na década de 90 o cinema produziu outros grandes filmes com a temática. É o caso da trilogia “De Volta para o Futuro”, “O Exterminador do Futuro”, “Os Doze Macacos” e “Alta Frequência”. Em todos eles a volta ao passado se dá numa clara tentativa de reverter acontecimentos nefastos constatados no futuro. Mas, se o cinema é insuperável na abordagem desse tipo de assunto, a literatura também tem o seu lugar. Assim, não dá para falar de viagens no tempo sem mencionar “Operação Cavalo de Tróia”, do falecido escritor espanhol J.J. Benitez. Apresentada como uma transcrição verídica do diário de um major da Força Aérea norte-americana sobre uma experiência de recuo no tempo, a obra de quase 2.500 páginas é fantástica tanto do ponto de vista ficcional-científico quanto histórico, esotérico e religioso. Benitez conta que a Operação Cavalo de Tróia teria realmente acontecido na década de 70 depois que cientistas da Força Aérea dos EUA descobriram as “chaves” para os saltos no tempo. Ele, como escritor de livros de temáticas similares, teria sido escolhido pelo médico militar que vivenciou a experiência de retornar à época de Jesus para publicar, após a sua morte, uma cópia do que seria o seu diário de bordo. Do nascimento à Paixão de Cristo, tudo é testemunhado e registrado por dois homens céticos do século 20, em páginas e páginas de uma história fascinante. Mesmo tendo a certeza da impossibilidade concreta de qualquer volta ao passado, fazê-la mentalmente traz sempre uma boa chance de entendermos melhor as nossas vidas no presente, e aí, sim, fazermos valer a teoria do efeito borboleta – em que a tomada de uma simples decisão, de uma simples atitude, possa se reverter em ganhos incomensuráveis lá adiante.
(publicado no jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 1o de julho de 2005)
Colega de imprensa desde que cheguei a Viçosa-MG, em 1993, Francisco Assis de Souza Castro (mais conhecido como Jeremias) é daquelas raras figuras de trânsito livre entre os extremos da nossa classe e mesmo de outros setores da sociedade. Não à toa é assessor de comunicação da Prefeitura de Viçosa há quase dez anos. Escritor (com livros lançados) e professor de Português, Jeremias (foto) é amante da poesia e um aficionado pelas antigas marchinhas de carnaval. Aliás, ele coleciona prêmios em festivais de marchas carnavalescas. A seguir um de seus poemas inspirados num dos maiores gênios do cinema de todos os tempos: Charles Chaplin.
Ao que tudo indica, a natureza de todo ser vivo o impulsiona a não querer perecer, talvez cumprindo uma determinação além de nossa compreensão – a mesma que demarca o fim de cada um nesta vida. Entre todos os seres, nós somos os únicos que insistem em buscar formas e fórmulas de retardar ao máximo nossa juventude – talvez o símbolo máximo de uma imortalidade que sabemos inexistente. Em busca desse sonho impossível, inúmeros personagens povoam a literatura, tentando encontrar meios de driblar o inevitável e vivendo, ao contrário, verdadeiros pesadelos. Um dos mais famosos talvez seja “Fausto”, de Goethe (transformado em filme e em várias montagens teatrais), que conta a história de um médico e alquimista que, já muito velho e próximo da morte, recebe a proposta do diabo de ganhar de volta a juventude em troca de sua alma. Ao aceitá-la, Fausto ganha o que tanto ansiava, mas paga um alto preço ao entrar num labirinto de angústia e desespero, que o faz arrepender-se amargamente de ter interrompido o seu ciclo natural. No livro “O Retrato de Dorian Gray”, do escritor inglês Oscar Wilde (também levado para o cinema), o protagonista faz um pacto semelhante com o diabo ainda enquanto jovem. Através dele toda sua beleza e jovialidade são preservadas, enquanto as marcas normais de seu envelhecimento são transferidas para um retrato seu, que é escondido por causa das mudanças que vai apresentando com o passar do tempo. Enquanto todos a sua volta envelhecem, Dorian continua com a aparência de seus 20 e poucos anos, aprisionado, no entanto, na impossibilidade de fazer o mesmo com as pessoas que ama. Nenhum personagem, porém, encarna tão bem a dimensão do sonho da imortalidade quanto o vampiro. A maioria dos livros e filmes sobre o tema aborda apenas o seu lado monstruoso, colocando-o no rol das inúmeras assombrações que povoam o imaginário popular. A escritora americana Anne Rice – que já esteve no Brasil pesquisando histórias do nosso ocultismo, usadas em seus livros – consegue a proeza de ir fundo neste ser, que carrega um tipo de imortalidade que o aprisiona em seus próprios limites. Chamadas de Crônicas Vampirescas, as quatro obras contam em cerca de 1.700 páginas a história de Lestat de Lioncourt, um francês que é transformado em vampiro aos 21 anos, no final do século 18, e chega ao século 20 como cantor de rock em meio a uma outra grandiosa história, que envolve outros tantos vampiros de existência milenar e toda a sua maldição, iniciada no Egito há 6 mil anos. Quem leu o primeiro livro – “Entrevista Com o Vampiro” (que foi traduzido pela fantástica Clarice Lispector e virou filme de Hollywood, protagonizado por Tom Cruise, Brad Pitt e Antonio Banderas) – deve ter percebido que a autora fala muito das inquietudes que acompanham qualquer ser humano durante toda a sua existência. A diferença é que estas mesmas inquietudes são ampliadas infinitas vezes, quando vistas e vividas sob a ótica de um imortal. Nos livros que se seguem – “O Vampiro Lestat”, “A Rainha dos Condenados” e “A História do Ladrão de Corpos” – Anne Rice expõe, entre tramas repletas de ação, questões bem mais abrangentes: a imortalidade é uma bênção ou uma maldição? A liberdade da alma está fora do corpo ou é possível fazê-la evoluir, mesmo sendo limitada a sua morada provisória? Em cada uma das quatro obras somos, a todo momento, impelidos a questionar nossas próprias crenças, nossas próprias limitações. Somos também levados a perceber a ambivalência que todo homem (mesmo num corpo de vampiro) sente enquanto ser imperfeito, que intui em si mesmo a fagulha divina da perfeição. E é talvez aí, nessa confusa sensação de carregar consigo uma centelha do perfeito, que ele viva tentando a todo custo retardar sua própria juventude – o antídoto imaginário para a morte. Nessa corrida desenfreada contra o tempo, esquece-se de enxergar algo fundamental: se há em nós algum tipo de imortalidade, certamente não é no corpo que ela reside.
(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 14 de julho de 2000)
Capa do livro "Festa da Colheita": coletânea de poemas de Roberto Massoni
Poemas, contos, romances, peças teatrais, letras de música, crônicas, artigos de jornais... Por todos estes caminhos já andou o escritor paulista Roberto Massoni. Sem o reconhecimento merecido (o que é bastante trivial na vida da maioria dos escritores e artistas brasileiros), meu amigo Massoni se vê ainda hoje obrigado a repartir seu tempo com a sala de aula. Formado em Letras pela UFV (Universidade Federal de Viçosa), ele lecionada Português e Literatura Brasileira em escolas municipais da sua cidade natal – Praia Grande, embora quisesse estar à frente de suas produções teatrais e literárias. Aqui em Viçosa-MG, cidade onde resido e onde o conheci em 1993, ele deixou sua marca. Tive o prazer de, naquele ano, ser seu aluno numa oficina de teatro e, pouco tempo depois, integrar o elenco da peça “Blues – Uma Trilogia da Solidão”, de sua autoria e sob sua direção. Juntos também produzimos (com a parceria do amigo boanovense Paulo Andrade) o jornal cultural “Falácia”. Muitas são as peças de Roberto Massoni encenadas em Viçosa e em São Paulo. Muitos também são seus livros, lançados desde o início da década de 80 de forma corajosa e independente. É o caso de “Festa da Colheita” (de 2001), que reúne alguns de seus poemas escritos entre 1980 e 1995, do qual tirei “Sono Mineiro”, que reproduzo a seguir. Em breve trarei mais, pois são todos belíssimos!
Minas Gerais prepara-se para dormir. Inverno. Frio nas montanhas é o óbvio. O que não é óbvio é um coração pulsando desarvorado – tonta aflição – Sou diferente. Essa diferença grita. Ergue uma ponte, flagelo de idéias, A liberdade é uma esperança – mas onde? ou quando? Morrer seria fácil: bastava coragem. Maior coragem é permanecer vivo, Filho da Mãe Dúvida e seus tentáculos, como guiar-se no percalço da vida? Interrogações na noite mineira e triste tristeza que resume saudade de tudo, do que vivi e os dias consomem, do que vivo e me espanto, do que viverei - e me espanto ainda mais. Porque no futuro o duro retrato se faz, é preciso correr, re-inventar a magia, criar sobretudo e sobretudo amar, tudo distante – o futuro é ôco, eu sei. Minas Gerais prepara-se para dormir, sonharei minhas indecências feliz, amanhã acordo: é sábado, haverá sol. Aos pouco, densamente, o frio das Minas Gerais vai penetrando na minha alma, seus vales e montanhas e gente opaca, triste, pobre, perdida nestes vilarejos sem fim, aos pouco tudo isso isto vai me tomando, sem me poupar, engolindo minha sensibilidade, nas suas pequenas ruelas escuras, empinadas, é preciso coragem, mais: um pouco de silêncio e a gravidade de se querer tocar em sua poesia. Minhas dúvidas, teus passos, nossa estrada Minas dormirá, os sinos da Matriz darão notícias, a noite será funda e densa, mas cheia de estrelas. Sei que um dia deixarei estas Minas Gerais para sempre, a marca que ela me deixou / deixará é também eterna, serei assim grato à alma mineira por ter-me revelado o deserto à sua maneira. Deserto em que reinamos felizes: os das palavras e dos descontentamentos de tudo e de todos. Minas Gerais prepara-se para dormir.