lux

Fui até lá

de livre vontade

Fui até lá

com meu vestido mais lindo

minhas jóias mais preciosas

e minha coroa de Rainha do Céu

No Inferno

diante de cada um dos sete portões

fui desnuda sete vezes

de tudo o que pensava ser

até que fiquei nua daquilo que de fato sou

Então eu a vi

Ela era enorme e escura e peluda e cheirava mal

tinha cabeça de leoa

e patas de leoa

e devorava tudo que estivesse à sua frente

Ereshkigal, minha irmã

Ela é tudo o que eu não sou

Tudo o que eu escondi

Tudo o que eu enterrei

Ela é o que eu neguei

Ereshkigal, minha irmã

Ereshkigal, minha sombra

Ereshkigal, meu eu

1:29 PM - Jun. 29, 2005

7:39 AM - Jun. 7, 2005

9:55 AM - May. 29, 2005

VELUDO

 

HISTÓRIA DE UM CÃO

 


 

 

 

Autor: Luiz Guimarães

 

Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:

Magro, asqueroso, revoltante, imundo;

Para dizer numa palavra tudo,

Foi o mais feio cão que houve no mundo.

 

Recebi-o das mãos dum camarada,

Na hora da partida. O cão gemendo

Não me queria acompanhar por nada:

Enfim – mau gosto seu – o vim trazendo.

 

O meu amigo, cabisbaixo, mudo,

Olhava-o... o sol nas ondas se abismava...

"Adeus!" – me disse, - e ao afagar Veludo,

Nos olhos seus o pranto borbulhava.

 

"Trata-o bem. Verás como o rafeiro

Te indicará os mais subtis perigos;

Adeus! E que este amigo verdadeiro

Te console no mundo ermo de amigos".

 

Veludo a custo habituou-se à vida

Que o destino de novo lhe escolhera;

Sua rugosa pálpebra sentida

Chorava o antigo dono que perdera.

 

Nas longas noites de luar brilhante,

Febril, convulso, trêmulo, agitando

A cauda – caminhava, errante,

À luz da lua – tristemente uivando.

 

Toussenel, Figuier e a lista imensa

Dos modernos zoológicos doutores,

Dizem que o cão é um animal que pensa;

Talvez tenham razão estes senhores.

 

Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,

Cinco meses depois, do meu amigo

Um envelope fartamente cheio:

Era uma carta. Carta! era um artigo.

 

Contendo a narração miúda e exata

Da travessia. Dava-me importantes

Notícias do Brasil e de La Plata,

Falava em rios, árvores gigantes:

 

Gabava o steamer que o levou; dizia

Que ia tentar inúmeras empresas:

Contava-me também que a bordo havia

Toda a sorte de risos e belezas.

 

Finalmente, por baixo disso tudo,

Em nota bene do melhor cursivo,

Recomendava o pobre Veludo,

Pedindo a Deus que o conservasse vivo.

 

Enquanto eu lia, o cão, tranqüilo e atento,

Me contemplava, e – creia que é verdade.

Vi, comovido, vi nesse momento

Seus olhos gotejarem de saudade.

 

Depois lambeu-me as mãos humildemente,

Estendeu-se aos meus pés silencioso,

Movendo a cauda, e adormeceu contente,

Farto dum puro e satisfeito gozo.

 

Passou o tempo. Finalmente um dia

Vi-me livre daquele companheiro;

Para nada Veludo me servia,

Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.

 

E respirei: "Graças a Deus já posso"

Dizia eu "viver neste bom mundo,

Sem ter que dar diariamente um osso

A um bicho vil, a um feio cão imundo".

 

Gosto dos animais, porém prefiro

A essa raça baixa e aduladora,

Um alazão inglês, de sela ou tiro,

Ou uma gata branca cismadora.

 

Mal respirei, porém! Quando dormia,

E a negra noite amortalhava tudo,

Senti que na porta alguém batia:

Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.

 

Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo.

Farejou toda a casa satisfeito:

E – de cansado – foi rolar dormindo,

Como uma pedra junto do meu leito.

 

Praguejei furioso. Era execrável

Suportar esse hóspede importuno,

Que me seguia como o miserável

Ladrão, ou como um pérfido gatuno.

 

E resolvi-me enfim. Certo, é custoso

Dizê-lo em alta voz e confessá-lo:

Para livrar-me desse cão leproso,

Havia um meio só: era matá-lo.

 

Zunia a asa fúnebre dos ventos;

Ao longe o mar na solidão gemendo,

Arrebentava em uivos e lamentos...

De instante a instante ia o tufão crescendo.

 

Chamei Veludo: ele seguiu-me. Enquanto

A fremente borrasca me arrancava

Dos frios ombros o revolto manto

E a chuva meus cabelos fustigava.

 

Despertei um barqueiro. Contra o vento,

Contra as ondas coléricas vogamos;

Dava-me força o torvo pensamento:

Peguei num remo – e com furor remamos.

 

Veludo à proa olhava-me choroso,

Como um cordeiro no final momento.

Embora! Era Fatal! Era forçoso

Livrar-me enfim desse animal nojento.

 

No largo mar ergui-o nos meus braços,

E arremessei-o às ondas de repente...

Ele moveu gemendo os membros lassos

Lutando contra a morte! Era pungente!

 

Voltei à terra – entrei em casa. O vento

Zunia sempre na amplidão profunda.

E pareceu-me ouvir o atroz lamento

De Veludo nas ondas, moribundo.

 

Mas, ao despir dos ombros meus o manto

Notei – oh grande dor! – haver perdido

Uma relíquia que eu prezava tanto!

Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido

 

Contra o meu coração constantemente,

E o conservava no maior recato,

Pois minha mãe me dera essa corrente,

E, suspenso à corrente, o seu retrato.

 

Certo caíra além no mar profundo,

No eterno abismo que devora tudo;

E foi o cão, esse cão imundo

A causa do meu mal! Ah! se Veludo

 

Duas vida tivera, - duas vidas

Eu arrancara àquela besta morta,

E àquelas vis entranhas corrompidas!

Nisto senti uivar à minha porta.

 

Corri, abri... Era Veludo! Arfava:

Estendeu-se aos meus pés, - e docemente

Deixou cair da boca, que espumava,

A medalha suspensa da corrente.

 

Fora crível, oh Deus? – Ajoelhado

Junto ao cão – estupefato, absorto,

Palpei-lhe o corpo; estava enregelado;

Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.


5:37 PM - May. 20, 2005

CANDLE

 

LIGHT UP THE CANDLES....

LUX IS COMING...

5:58 AM - May. 20, 2005

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